Cap 3 - A Doutrina da Salvação

Os Necessitados da Salvação

No relato bíblico, somente antes do pecado, é dito que tudo que Deus fez foi considerado “muito bom” (Gn. 1:31). Depois que o homem desobedeceu o mandar de Deus de não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn. 2:7) e comeu dela (Gn. 3:6) não se acha nada na Bíblia referindo-se ao homem natural como ‘bom’. Isso mostra tanto que o pecado destrói quanto é universal e total.

Que o homem necessita da salvação é claramente evidente por uma olhada às noticias dos acontecimentos do homem ao redor do mundo pelos meios de comunicação. Assassinatos, corrupções, ameaças, injustiças, preconceitos, mentiras, roubos, fornicações, desrespeito ao seu próximo e ao próprio Deus e a poluição verbal e moral são constantes de todos os povos do mundo todos os dias. A Bíblia evidencia a dimensão do pecado no homem claramente (Ez. 16:4,5; Is. 1:6; Rm. 3:10-18). Essa condição detestável e pecaminosa não é adquirida pelo ambiente ou causada pela falta de oportunidade social ou educacional, mas contrariamente, todo homem é pecador desde o ventre (Gn. 8:21, “a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice” Sl. 51:5, “em iniqüidade fui formado, e em pecado concebeu minha mãe.”; 58:3, “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras; Is. 48:8, “chamado transgressor desde o ventre.”). OBS: Não é o ato da procriação que causa o pecado, nem é a relação conjugal, dentro dos seus limites bíblicos, pecaminosa, mas pela a procriação ser feita entre pecadores, o homem pecador é gerado (Rm. 5:12).

O pecado destruiu totalmente a imagem de Deus no homem que existiu por criação especial, ao ponto do homem, universalmente (Rm. 3:23; 5:12), não querer ter nenhum conhecimento de Deus (Jo. 5:40; Rm. 1:28; 3:11,18). Por isso o homem pecador é “voluntariamente” ignorante da verdade (II Pe. 3:5). A vontade do homem não foi a única parte do homem influênciada pelo pecado, mas a sua capacidade de agradar Deus também foi destruída (Rm. 8:8; Jr. 13:23). A condição do homem pecador é tão deplorável que ele não pode vir, pelas suas próprias forças a Cristo (Jo. 6:44,45) e jamais, na carne, pode agradar a Deus (Rm. 8:6-8). O entendimento do homem foi deturpado ao ponto de ser descrito como “entenebrecido” no entendimento (Ef. 4:18; Rm. 1:21). Por isso as verdades santas e boas de Deus não são compreendidas ao homem natural e são, para ele, escandalosas e loucura (I Co. 1:23; 2:14). A responsabilidade da condição pecaminosa do homem é do próprio homem. Ele mesmo busca muitas “astúcias” (Ec. 7:29). Que os homens não são capacitados com desejo nem com poder para o bem em nenhuma maneira é entendido pela denominação “mortos em ofensas e pecados” (Ef. 2:1). Por isso “nenhum homem, pela sua natureza, crê que necessita de Cristo. Ele está cegado pelos seus morais, suas intenções, sua sinceridade, sua bondade. Ele não vê a impiedade do seu pecado nem que o seu caso é sem esperança” (Don Chandler, citado em Leaves, Worms .., p. 129).

O coração do homem, a fonte da vida (Pv. 4:23), é tão enganoso que é impossível que nem o homem conheça a sua própria perversidade (Jr. 17:9). Por isso o homem é completamente “reprovado para toda a boa obra” (Tt. 1:16) fazendo com que o homem tenha inimizade contra o próprio Deus, o seu Criador (Rm. 8:7). O pecado reina em todos os membros (físicos, mentais, emocionais, espirituais) do homem (Rm. 7:23).

A prova que todos os homens são pecadores é dada pelo fato que não há ninguém que obedeça sem nenhum defeito ou omissão todos os mandamentos, e, não existe ninguém que pode manter-se puro de todo e qualquer pecado em pensamento, palavra, ação em coração e vida. Se o homem fosse tão onisciente quanto Deus, o homem declararia o que o próprio Deus declarou quando olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Deus, naquela ocasião declarou: “Desviaram-se todos e juntamente se fizeram imundos: não há quem faça o bem, não há sequer um.” (Sl. 114:2,3).

A condição deplorável do pecador não significa que ele não tem uma consciência, nem a possibilidade de exercitar a sua mente e a sua vontade ou determinar ações pelo seu raciocínio. Assim que o pecado apareceu no mundo, a consciência do homem foi ofendida (“conheceram que estavam nus”) e, sendo assim, operou segundo a sua própria deplorável determinação e lógica pecaminosa, e, em prova disso, escondeu-se de Deus. Apesar da presença do pecado e toda a sua natureza de destruição no homem, “os olhos” que enxergam a condição da alma (a consciência), não somente existiram, mas eram ativos (Gn. 3:7,8). O Apóstolo Paulo, pela inspiração do Espírito Santo, ensina que os pagãos tenham uma consciência ativa e por ela acusa suas ações ou as defendem (Rm. 2:14,15). João 8:9 nos dá um exemplo que o homem pecador tem uma consciência e é capaz de agir conforme o seu raciocínio. Mesmo que existem tais qualidades (uma consciência viva), a condição deplorável do pecador influência na operação da sua consciência, da sua lógica e da sua vontade ao ponto de não buscar a Deus (Rm. 3:11), não amar a luz (Jo. 3:19) e não compreender as coisas do Espírito de Deus (I Co. 2:14). A consciência existe mas ela é influênciada pelo que o homem é: um pecador.

A condição abominável do pecador não quer ensinar que o homem não pode fazer uma escolha livre. O homem pecador pode determinar o que ele quer escolher. Somente pelo fato do homem uniformemente preferir a iniqüidade, em vez do bem, não quer ausentar o fato que ele tem uma escolha. O homem tem uma escolha sim e ele faz a sua escolha continuamente. Mas devemos frisar que a mera possibilidade de fazer uma escolha, não automaticamente ensina que o homem tem capacidade de fazer a escolha santa ou aquilo que agrada a Deus. Todos nós temos a livre escolha de trabalhar e ser milionários, mas essa liberdade não nos faz capazes. Mesmo possuindo a qualidade da livre escolha, o homem pecador é incapaz de escolher o bem para agradar a Deus pois a inclinação da sua carne é morte (Rm. 8:6-8). O arbítrio do homem, contudo, não é livre. Mesmo que a capacidade do homem escolher é livre, contudo, o seu arbítrio (Resolução que depende só da vontade, Dicionário Aurélio Eletrônico) é servo da sua vontade, e, portanto, não é livre. O arbítrio do homem faz o que a sua vontade dita. Mas, falando da sua escolha, essa é livre. O homem indo a uma sorveteria tem livre escolha entre os sabores. Essa situação mostra que ele tem livre escolha. Todavia, o homem somente pede o sabor predileto pois o seu desejo, a sua vontade, pessoal o leva assim a escolher e o seu arbítrio, que é servo da sua vontade, pede aquele sabor. Nisso entendemos que a escolha é livre mas não o arbítrio.

A condição depravada do pecador não significa que homem nenhum pratica boas obras. Os homens não regenerados são verdadeiramente capazes de fazer tanta religião quanto os fariseus que dizimaram até as mínimas coisas para com Deus (Mt. 23:23; Lc. 11:42). Todavia, todas as boas obras que o pecador faz é somente para dar “fruto para si mesmo” (Oséias 10:1) e não para a glória de Deus. O homem pode se ocupar esforçadamente no guardar dos mandamentos, ser sincero para com tudo que é religioso e ser generoso nas obras da caridade (Mc. 10:17-20, “tudo isso guardei desde a minha mocidade”). Todavia, a sua condição depravada faz com que nada disso se torna agradável a Deus (Is. 64:6; Rm. 8:7,8).

A condição terrível de pecador não quer insinuar que todos os homens revelam todo o pecado que podem manifestar. Há os que rejeitem Cristo que jejuam duas vezes na semana (Lc. 18:12). Há os pecadores que Deus nunca conheceu mas dizem “Senhor, Senhor!” e profetizam no nome do Senhor Jesus (Mt. 7:22). Existe os outros pecadores que escarnecem do Santo (Mc. 15:29-31) ou são malfeitores (Lc. 23:41). Comparando pecador com pecador alguns parecem mais refinados e outros mais bárbaros. Todavia todo o homem é pecador e qualquer pecado merece a separação eterna da presença de Deus (Ez. 18:20; Rm. 6:23; Tg. 2:10). “A manifestação do pecado aumenta a medida que os pensamentos ímpios são guardados, os hábitos imorais são praticados e os ensinamentos da verdade são ignorados” (Rm. 1: 28; Boyce, p. 245).

A condição detestável e completa do homem pecador também não minimiza a responsabilidade do pecador para com Deus. Todo homem é responsável para com Deus porque a sua incapacidade não veio por uma imposição ou causa divina mas porquê ele mesmo voluntariamente pecou e trouxe sobre si a condenação divina (Gn. 2:17; 3:6,17). Todo o homem deve ocupar-se em não pecar e deve preocupar-se em agradar o seu Criador e juiz. Essas ocupações são exigidas por sua condição de ser a criatura e por Deus ser o Criador (Ec. 12:13). Alguns podem duvidar se somos responsáveis pessoalmente por termos uma natureza pecaminosa vindo de Adão (Rm. 5:12), mas, de fato, somos responsáveis pela expressão dela (Ez. 18:20; I Jo. 2:16; 3:4). A responsabilidade para com Deus é entendida em que não somos forçados a pecar mas pecamos pela ação da nossa própria vontade (Gn. 3:6,17; Jo. 5:40). Não é a incapacidade de obedecer que nos separa de Deus mas os próprios pecados do homem que fazem a sua separação de Deus (Is. 59:1-3; Ef. 1:18). A incapacidade natural (Rm. 3:23) e moral (Tt. 1:15) nunca descarta a responsabilidade particular de nenhum a não pecar. Qual cidadão racional escusa o homicídio culposo pela razão de ser praticado quando bêbedo; ou desculpa um crime por ser praticado por um desequilibrado pela raiva; ou justifica os crimes por serem simplesmente pela paixão, etc.? A bebida, a ira e a paixão podem levar o homem a agir irracionalmente, mas é ele que bebe descontroladamente, se ira e se deixa ser levado pela paixão. Por isso o homem é responsável pelas suas ações quando nestas condições se encontra. O fato que o homem deve se arrepender (Mt. 3:2; At. 17:30) revela que Deus sabe que o homem é responsável a responder positivamente a Ele. O primeiro homicídio foi castigado (Gn. 4:11) como todos os pecados serão (Ap. 20:11-15), convencendo todos, com isso, que a expressão do pecado é da responsabilidade daquele que comete tal ação (Ez. 18:20; Rm. 3:23; 5:12). Não obstante a sua responsabilidade de amar a Deus de todo o coração e de se arrepender pelo pecado cometido, o homem natural, o primeiro Adão, é tão desfeito pelo pecado que não pode fazer, com seu próprio poder, o que ele sabe que deve fazer para agradar a Deus (Rm. 8:7; II Co. 2:14). Mas, mesmo sendo incapaz, ele é, completa e universalmente responsável pela obediência da Palavra de Deus em tudo (Ec. 12:13, “é o dever de todo o homem”).

A incapacidade do pecador não desqualifica os meios que devem ser empregados tanto pelo pecador para sua salvação quanto pelo salvo em pregar aos perdidos. Tanto o pecador quanto o salvo deve ocupar-se em usar todos os recursos que biblicamente têm à mão. A impossibilidade de produzir um efeito não é razão suficiente para ser irresponsável no dever. O fazendeiro jamais pode produzir uma safra qualquer nem efetuar a chuva cair na terra ou fazer o sol brilhar. Essa incapacidade não desqualifica-o de semear e regar a semente. O mandamento de Deus é que o pecador deve se arrepender e crer (At. 17:30). O mandamento de Deus é que o crente ore e pregue (Sl. 126:6; Mt. 28:18-20). Por serem mandados, os mandamentos devem ser obedecidos não obstante a condição natural do homem. Os meios têm um fim. Para ceifar é necessário primeiramente semear (Gl. 6:7-10). É verdade que Deus dá o crescimento, mas é somente depois de semear e de regar (I Co. 3:6). O receber depende do pedir; o encontrar depende do buscar; o abrir vem somente depois de bater (Mt. 7:7). Portanto, os meios devem ser empregados apesar da incapacidade total do pecador ou das fraquezas dos salvos. Os meios são a única maneira ao fim esperado. Apenas existe o receber enquanto haja o pedir (Mt. 7:7). Paulo pergunta: “como crerão naquele de quem não ouviram?” (Rm. 10:13-15). Por ter fruto somente depois de semear, por ter a salvação somente depois de crer, os meios bíblicos devem ser empregados se quer ter o fim esperado. Também devemos usar os meios disponíveis por ter a promessa de Deus. Deus promete fruto se a semente for semeada. A promessa de Deus anima o semeador de ter longa paciência na sua esperança de uma safra eventual (Tg. 5:7). A promessa diz que eventualmente haverá uma safra (Sl. 126:5,6) e um aumento (Ef. 4:11-16). Apesar da incapacidade do homem pecador crer, e da impossibilidade do pregador se convencer de qualquer dos seus pecados, existe a necessidade de empregar zelosamente todos os meios que Deus designou nas Escrituras Sagradas na evangelização.

A incapacidade do homem pecador não deve incentivar a sua demora em vir a Cristo ou deve desculpar a sua desobediência aos mandamentos de Deus. Quanto mais incapaz é o homem de crer mais ele deve procurar a graça de Deus em misericórdia para crer (Mc. 9:24). Que o doente precisa do médico é fato. Quanto mais severa a doença mais urgente o socorro. Se o pecador entende a sua situação deplorável, pode se prostrar diante de Deus clamando pela sua ajuda (Mc. 9:24) pedindo a Deus: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” (Lc. 18:13; 11:13). O mandamento não é esperar por uma sensação, visão ou qualquer outro sinal. Cristo já foi dado e declarado (I Co. 3:11). O mandamento de Deus é: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações” (Hb. 3:13,15). Se o salvo entenda a sua responsabilidade, o mandamento de Deus é: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Mc. 16;15), ame a Deus de todo o coração (Mc. 12:30) e “crescei na graça e no conhecimento de Cristo” (II Pe. 3:18). Quanto mais sentirmos fracos em obedecer, mais esforçadamente devemos procurar a Sua graça. É Deus que opera em nós tanto o querer como o efetuar segunda a sua vontade (Fp. 2:13). Isto deve encaminhar-nos a Ele a buscar a Sua graça para obedecermos o Seu mandar.

Somente a salvação pela graça capacitará o pecador a entrar no reino de Deus (Jo. 3:3,5; II Co. 3:5). A própria condição deplorável do homem mostra a sua necessidade da salvação. O homem é sem a justiça necessária (Rm. 3:10), sem Cristo, separado de Deus, sem nenhuma esperança (Ef. 2:12) e sem esforço (Rm. 5:6; 7:18). Ele está com a maldição da lei (Gl. 3:10) e sobre ele permanece a ira de Deus (Rm. 3:36). A condição abominável do homem assegura que ele necessita da salvação, aquela que vem exclusiva e completamente de Deus. Por isso pregamos a salvação somente pela graça. Se o homem tivesse uma mínima condição para ajudar-se, a sua salvação não seria totalmente de graça. A depravação da sua condição total e universalmente pecaminosa, estabelece o fato que a salvação eterna é, em todas as suas partes, divina e inteiramente graciosa (Ef. 2:8,9). Assim Cristo ensinou quando comparou a relação que existe entre Ele e o Seu povo usando a videira e as varas. E ele disse: “sem mim nada podeis fazer.” (Jo. 15:4,5). Que Deus abençoe os salvos a pregar tal graça e os pecadores a buscá-la antes que seja tarde demais.

Que a mensagem clara da condição abominável do pecador, da realidade da sua incapacidade de fazer o bem e a verdade que todos são responsáveis diante de Deus incentive todos os pecadores a clamarem pela misericórdia de Deus para o perdão dos seus pecados e pela fé necessária para crerem em Cristo Jesus para a salvação! E que clamem até conhecerem Cristo pessoalmente. Tal salvação é a sua responsabilidade e necessidade e o encontro de tal salvação é o nosso desejo para com você.

 

Autor: Pastor Calvin Gardner
Correção gramatical: Edson Elias Basílio, 04/2008
Fonte: www.PalavraPrudente.com.br