Cap 7 - A Doutrina da Salvação

A Salvação Realizada

A chamada particular efetivada pelos meios bíblicos tanto invisíveis (a graça e o Espírito Santo) quanto visíveis (a Palavra de Deus, a oração e a vida exemplar) cumpre o desígnio da vontade de Deus naqueles que Ele escolheu: a salvação eterna de uma alma.

Os termos bíblicos que descrevem a realização desse acontecimento são vários. Os vários termos descrevem em maiores detalhes como a aquisição da salvação na alma do pecador é realizada. Os termos são: a regeneração, a conversão que inclui o arrependimento e a fé, a justificação, a adoção, a santificação e a glorificação. Não incluímos nesta lista os outros termos associados com a salvação como a eleição ou a predestinação. Não incluímos esses termos por essas obras de Deus não participarem do ato do momento da salvação. A eleição e predestinação verdadeiramente são obras de Deus que precedem o ato da salvação. Contudo, não estamos focalizando-nos naquilo que precede a salvação da alma mas as obras de Deus no próprio ato da salvação da alma. Tudo o que já estudamos até este ponto são preparativos “para a salvação” (II Ts. 2:13). Agora queremos entrar na realização gloriosa do ato dessa salvação na alma do pecador.

Por causa da facilidade de confundirem tanto os termos quanto o que eles significam, convém um entendimento particular de cada termo. Procuraremos colocar os termos na ordem lógica que acontecem mesmo que essas obras acontecem simultaneamente na realização da salvação.

A Regeneração

I Pedro 1:3

No aspecto divino, a regeneração logicamente vem primeira na lista pois sem o pecador possuir uma nova natureza, o homem é impedido de conhecer qualquer outra benção de Deus. É necessário a regeneração ser primeira no processo da realização da salvação pois sem ela ninguém pode entrar no reino de Deus (Jo. 3:3-5). O homem natural é morto nos seus pecados e por isso não entende nada espiritual (I Co. 2:14), não deseja nada de Deus (Jo. 3:19; 5:40) e não pode agradar a Deus em nada (Rm. 8:6-8). O homem pecador precisa receber vida espiritual para cumprir as suas responsabilidades declaradas pela Palavra de Deus. Quem é vivificado são os mortos (Ef. 2:1,5; Cl. 2:13). Pelo fato de somente os filhos de Deus ter as outras bênçãos de Deus (Rm. 8:16,17; Cl. 2:13), a regeneração é a primeira.

Pontos positivos e negativos que esclarecem a regeneração: A regeneração não é eliminação da velha natureza. Pelo pecado habitar na carne, a velha natureza existe enquanto o Cristão possui o tabernáculo de pó chamado o corpo (Rm. 7:14-25; Gl. 5:17).

A regeneração é o começo de uma nova natureza. Com a operação da regeneração o Cristão possui uma nova natureza (Cl. 3:10,11) no qual o Espírito Santo habita (I Co. 6:19). Esta nova natureza é chamada de o “homem interior” e tem prazer na lei de Deus (Rm. 7:22).

A regeneração não é a mera aquisição de filosofias religiosas. O homem inventa filosofias conforme a sua própria mente. As filosofias e vãs sutilezas são segundo as tradições do homem e dos rudimentos do mundo (Cl. 2:8; I Pe. 1:18). Por originarem do homem, naturalmente invalidam os mandamentos de Deus (Mt. 15:3-6). As filosofias religiosas do homem são vaidades (At. 14:13-15) e consideradas meras superstições (At. 17:22,23).

A regeneração é a aquisição de uma nova natureza criada por Deus em Cristo. A nova natureza que é adquirida na regeneração renova-se em santidade e justiça dia a dia para ser mais como Cristo (Rm. 8:29; Cl. 3:10,11; Tt. 3:5-7).

A regeneração não é um processo longo que vai aperfeiçoando o homem com meios humanos e eclesiásticos até uma provável aceitação diante de Deus.

A regeneração é um ato instantâneo de Deus pelo Espírito Santo na alma do elegido (Jo. 1:13; 3:8). Essa obra purifica a alma completamente pela verdade de Jesus Cristo (II Pe. 1:2-4). Este ato instantâneo capacita o elegido a entender, desejar e obedecer a Palavra de Deus em arrependimento e fé.

A Conversão

I Ts. 1:9

A Conversão definida: Conversão é aquela mudança voluntária na mente do pecador em que ele deixa o pecado e volta para Cristo. O termo ‘arrependimento’ é o elemento primário da conversão, O termo ‘fé’ é o segundo elemento da conversão. Podemos dizer que existe uma conversão inicial e única no eleito regenerado que resulta na sua justificação diante de Deus (Is. 6:10; Mt. 18:3; At. 3:19), e que existe uma conversão subseqüente e constante no eleito regenerado que resulta na sua santificação diante dos homens (Lc. 22:32; I Jo. 1:9; Tg. 5:20).

No aspecto humano e também lógico, a conversão, que inclui o arrependimento e a fé, segue e é resultante da obra divina de regeneração. A conversão é a primeira manifestação da nova natureza no homem regenerado. Por ser a primeira ação feita do lado humano, alguns preferem dizer que é o primeiro na lista de acontecimentos na realização da salvação. Mas, pela conversão ser o resultado de uma obra divina anterior, colocamos a conversão em segundo lugar na lista de acontecimentos lógicos na realização da salvação.

A Necessidade da Conversão Seguir a Regeneração

• A conversão envolve uma negação do pecado. O homem natural pode modificar a sua vida e impedir que as manifestações do pecado sejam evidentes na sua vida pública, mas ele não pode negar o seu amor pelo pecado (Jr. 13:23; 17:9; Pv. 27:22; Mt. 19:25,26). O homem natural pode não gostar das conseqüências do pecado mas, mesmo assim, o próprio pecado continua sendo desejado e prazeroso para ele. a verdade é: Se não nascer de novo, ninguém pode entrar no reino de Deus (Jo. 3:5).

• A conversão é agradável a Deus. O carne não é sujeita à lei de Deus nem pode agradar a Deus (Rm. 8:7,8). O que é nascido da carne agrada unicamente a carne (Jo. 3:6) e a carne somente ceifa corrupção (Rm. 7:5; Gl. 6:7,8). Sem a fé vir primeiro, um fruto do Espírito Santo, é impossível para qualquer homem agradar a Deus (Hb. 11:6).

• A conversão é uma “boa” coisa. No homem natural, sem uma obra prévia e regeneradora espiritual, não existe “bem algum” habitando nele (Rm. 7:18). Do homem natural não podemos esperar uma obra boa. As suas obras de justiça nem são aceitáveis diante de Deus (Mc. 7:21-23; Is. 64:4; Gl. 5:19-21). Assim como Jó pergunta e responde pela inspiração do Espírito Santo: “Quem do imundo tirará o puro? Ninguém.” (Jó 14:4) nós também podemos resumir. Não há possibilidade do homem converter-se, sem Deus primeiramente o vivificar.

• A conversão é uma submissão à lei de Deus. O homem não regenerado vive segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência (Ef. 2:2,3). A mente do incrédulo é entenebrecida, pela ignorância que há neles e querem por isso entregar-se, não a Deus, mas à dissolução (Ef. 4:18,19). O não regenerado jamais pode sujeitar-se à lei de Deus pois a inclinação da sua carne é inimizade contra Deus (Rm. 8:7). Não é o homem natural que deseja nem é capaz de sujeitar-se a Deus, mas é o regenerado por Deus operar nele tanto o querer quanto o efetuar segundo a Sua boa vontade (Fp. 2:13) que quer e pode agradar a Deus (Jo. 15:5; Fp. 4:13)

• A conversão envolve o entendimento de coisas espirituais. A velha natureza do homem não pode discernir coisas espirituais. Qualquer fato espiritual, para o homem não crente, é loucura e um escândalo (I Co. 1:23; 2:14). O entendimento da obra salvadora de Cristo, uma pessoa espiritual, e o convencimento do pecado, da justiça e do juízo são obras do Espírito Santo nos que Deus quer ensinar essas verdades (Jo. 16:7,8; Mt. 11:26,27). O que antecede entendimento espiritual é uma obra divina que é eficaz a fazer o homem pecador conhecer Cristo. Essa obra prévia é a regeneração.

• A conversão envolve a fé. Do Espírito Santo vem a fé (Gl. 5:22). Os que crêem tem o poder de crer manifestando a fé que foi dada previamente por Deus (Fp. 2:13). O poder que ressuscitou Cristo dos mortos é o mesmo poder que Deus opera nos que crêem em Cristo (Ef. 1:19,20). Portanto, o poder de crer é antes da ação da fé. Nisso entendemos que a conversão é causada pela obra divina de regeneração.

• A conversão é um ressurreição espiritual. “A conversão está representada em Ef. 2:4-6 como uma ressurreição espiritual, que diz: ‘Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo Seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com Ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus;’. O ressuscitar aqui representa a conversão. Assim, a questão que estamos considerando quanto ao que acontece primeiro, o vivificar ou o ressuscitar. Não pode haver dúvida razoável que o vivificar é o primeiro num sentido lógico.” (T. P. Simmons, p. 339). Veja Cl. 2:12.

• A conversão envolve a ação de vir a Cristo. O que impede um pecador de vir a Cristo é a sua condição de estar morto em pecado. Isso impede que ele queira vir a Cristo (Jo. 5:40). Por causa do pecador estar morto no pecado ele não vem à luz mas a odeia (Jo. 3:19). O pecador não precisa de uma chance ou uma ajuda geral de Deus, um pregador sorridente, um culto animado ou uma estória emocional (Jo. 8:43). Ele precisa de uma nova vida para poder vir a Cristo com arrependimento e fé. É Deus Quem traz os Seus a Cristo, dando-os vida (regeneração). Tendo vida, venham a Cristo (conversão). Se Ele não trouxer, ninguém pode vir a Cristo (Jo. 6:44, 65; 12:37-40). Pela conversão envolver a ação de vir a Cristo, sabemos que Deus age antes em trazer os Seus em amor (Jr. 31:3).

A Manifestação da Conversão

O Arrependimento

A manifestação da conversão é pelo o arrependimento e a fé. O arrependimento é uma manifestação da conversão. Porém nem todo o arrependimento é evangélico. Pelo Novo Testamento existem três palavras gregas diferentes traduzidas “arrependimento” em português. Duas dessas palavras não estão envolvidas na doutrina da salvação. Somente uma dessas palavras é o arrependimento associado com a salvação.

O primeiro desses usos da palavra “arrependimento” é usado no Novo testamento para mostrar imutabilidade (#278, Strong's). Somente duas referências no Novo Testamento usam a palavra arrependimento para significar imutabilidade. Estas referências são II Co. 7:10, “da qual ninguém se arrepende” e Rm. 11:29, “os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento”.

O segundo uso da palavra “arrependimento” é usado no Novo Testamento para mostrar remorso pelas conseqüências do pecado (#3338, Strong's). Existem cinco referências bíblicas do Novo Testamento que usa essa palavra grega traduzida arrependimento. Essas referências são: Mt. 21:29, “Mas depois, arrependendo-se, foi”; Mt. 21:32, “nem depois vos arrependestes para o crer.”; Mt. 27:3,"arrependido”; II Co. 7:8, “não me arrependo”, “já me tivesse arrependido”; Hb. 7:21,“.. Jurou o Senhor, e não se arrependerá”.

O terceiro uso da palavra “arrependimento” é o usado no Novo Testamento para mostrar horror pelo pecado (#3340 e #3341, Strong's). A maioria das referências bíblicas no Novo Testamento (58 vezes) que usa a palavra “arrependimento” é de uma dessas duas palavras gregas. O significado desse uso evangélico da palavra arrependimento é compunção, contrição, um reverso de decisão e de pensar diferentemente ou reconsiderar. As referências bíblicas são: (#3340) Mt. 3:2; 4:17; 11:20,21; 12:41; Mc. 1:15; 6:12; Lc. 13:3,5; 15:7,10: 16:30; 17:3,4, 7, 10; 10:13; 11:32; At. 2:38; 3:19; 8:22; 17:30; 26:20; II Co. 12:21; Ap. 2:5, 16,21,22; 3:3, 19; 9:20,21; 16:9,11 e (#3341) Mt. 3:8, 11; 9:13; Mc. 1:4; 2:17; Lc. 3:3,8; 5:32; 15:7; 24:47; At. 5:31; 11:18; 13:24; 19:4; 20:21; 26:20; Rm. 2:4; II Co. 7:9, “contristados para o arrependimento”; 7:10, “a tristeza segundo Deus opera o arrependimento para a salvação”; II Tm. 2:25; Hb. 6:1,6; 12:17; II Pedro 3:9. Este terceiro uso da palavra a “arrependimento” é o uso evangélico, ou, o arrependimento envolvido na salvação.

O arrependimento evangélico é diferenciado dos primeiros dois usos da palavra em três maneiras: o pecado é reconhecido, o pecado é lamentado e aborrecido, e o pecado é abandonado. Esses três elementos se vê na salvação de Zaqueu (Lc. 19:1-6). Pela pregação da Palavra de Deus o Espírito Santo convence da natureza do pecado e da sua culpa.

O senso evangélico do arrependimento é entendido quando o pecado é reconhecido. Quando o pecado é visto como rebelião contra Deus, contra a Sua santidade, e como uma ofensa a Deus, o senso evangélico do arrependimento é manifesto. Quando o pecado é reconhecido o elemento intelectual do arrependimento está em ação (Rm. 2:4). A pregação da Palavra de Deus e o ministério do Espírito Santo convencem o pecador do fim do seu pecado e impressiona que tal pecado é contra Deus.

O senso evangélico do arrependimento é entendido quando o pecado é lamentado e aborrecido. Quando a tristeza divina do pecado é presente e é lamentada a sua situação de ser fora de Deus o senso evangélico do arrependimento é entendido. Quando o pecado é lamentado e aborrecido o elemento emocional do arrependimento está na ação. A nossa pregação deve incluir uma chamada à tristeza pela culpa de ter pecado e por não ter abandonado o pecado (Lc. 24:47).

O senso evangélico do arrependimento é entendido quando o pecado é abandonado. Nessa fase do arrependimento evangélico a conduta do pecador arrependido muda (Mt. 3:8; Lc. 3:8, “obras dignas de arrependimento”; II Co. 7:11). Quando o pecado é abandonado o lado volitivo ou voluntário do arrependimento está em ação. A chamada do evangelho é para uma ação e não particularmente para uma decisão intelectual. Essa ação de abandonar o pecado é baseada na convicção e na obra prévia de Deus no coração do homem pela Palavra de Deus.

O arrependimento evangélico é também interno. O arrependimento evangélico começa na mente e no coração, e por ser interno na mente, as ações evidenciam a mudança (II Tm. 2:25,26, “desprender-se dos laços do diabo.”).

O arrependimento evangélico é também um dom de Deus (At. 5:31, “Deus .. para dar a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados”; 11:18, “Na verdade até aos gentios deu Deus o arrependimento para a vida”; Rm. 2:4, “a benignidade de Deus te leva ao arrependimento”; II Tm. 2:24,25).

Devemos entender que o arrependimento evangélico, aquele que faz parte da salvação, não é penitência. A penitência, segundo os católicos, faz parte do arrependimento. A penitência envolve a punição dos pecados passados pelo jejum e por outros exercícios que possam expressar exteriormente um remorso interno (confissão, rezar, autoflagelação, observar quaresma, etc.).

O arrependimento verdadeiro é uma mudança interna que não é imposta por castigos externos. O fruto do arrependimento não é o próprio arrependimento! O fruto do arrependimento verdadeiro é fé na obra suficiente de Cristo no lugar do pecador (At. 5:31, “o arrependimento e a remissão dos pecados”; 20:21, “a conversão a Deus, e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo”; Hb. 6:1, fazem parte dos rudimentos da doutrina do arrependimento e da fé em Deus; II Tm. 2:25). O sacrifício de Cristo basta para salvar o pecador (Rm. 4:7,8; 10:4, “Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê.”; Hb. 10:14, “com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados.”; I Jo. 1:7, “o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado.”). Atos temporais do homem nunca podem expiar nenhum pecado (Jó 14:4; Is. 40:6; 64:6). A Bíblia é silenciosa sobre o homem expiando o seu próprio pecado mas abundante em exemplos de Cristo ser o substituto suficiente pelos pecados (Is. 53:10,11; II Co. 5:21).

A Fé

“Como a descrença era preeminente do pecado do primeiro Adão assim também a fé é preeminente da redenção pelo segundo Adão. A fé é interligada com cada ação e condição da salvação. É pela fé que os homens entram numa união vital com Cristo, pela fé que são justificados, pela fé que adoram corretamente, pela fé vive o cristão, pela fé a sua santificação progride e, pela fé ser o meio de vencer o mundo e de ter a esperança no futuro, ela é o meio pelo qual o Cristão torna mais e mais identificado com Cristo no seu reino espiritual agora e no porvir” (Boyce, p. 385).

A fé é crença e confiança. É crença pois crê em fatos e em declarações ou a sinceridade de uma pessoa. É confiança pois confia na veracidade do fato, da declaração ou da pessoa. A crença está num fato, numa declaração ou numa pessoa, mas, a confiança evidencia-se em tomar digno aquele fato, declaração ou pessoa como base das ações. O fruto do Espírito Santo, a fé, faz que creiamos em Deus por Cristo e confiamos na sua palavra a ponto de obedecê-la.

Como tudo descrito como evangélico é da verdade, também toda e qualquer fé não é a verdadeira. Existem imitações da fé verdadeira. Existe muita fé falsa. Há os que têm a sua fé em espíritos, em idolatria, em filosofias, em sinais, em emoções, em coincidências, na astrologia, etc. A fé verdadeira porém é dom de Deus (Ef. 2:8,9), pelo Espírito Santo (Gl. 5:22) e é única (Ef. 4:5). As imitações da fé verdadeira incluem a fé histórica, a fé intelectual, a fé implícita , e a fé temporária. Para melhorar nosso entendimento desse fruto do Espírito Santo queremos examinar um pouquinho as imitações da fé verdadeira.

A fé histórica é uma simples crença que existiu um homem chamado Cristo no passado. Os demônios crêem em Deus, sabem que ele existiu e existe, mas esta crença não é salvadora (Tg. 2:19), pois não tem confiança nos fatos. Em Atos 8:13-24 temos o caso de Simão, o mágico. Ele creu e foi batizado, mas, com o tempo, revelou que não tinha “parte nem sorte nesta palavra”, pois o seu coração não era reto diante de Deus. O mesmo pode ser dito der Judas. Um soldado presente na hora da crucificação de Cristo ficou empolgado pelos fatos históricos e declarou: “que verdadeiramente este era Filho de Deus” (Mt. 27:54). Esta poderia ser uma declaração baseada somente na fé histórica. Há muitos hoje também que aceitam Cristo como uma pessoa boa na história, mas devemos entender que este tipo de fé não tem valor salvador.

A fé intelectual é parecida com a fé histórica e com a fé verdadeira. A fé intelectual reconhece que os fatos bíblicos são verdadeiros. A fé intelectual não tem dúvida que Cristo nasceu de uma virgem, era o Filho de Deus, morreu no lugar dos pecadores, ressuscitou, foi ao céu e voltará novamente à terra pois a bíblia manifesta estes fatos e tudo é lógico. As multidões clamavam na ocasião da entrada de Cristo em Jerusalém: “Hosana ao filho de Davi; bendito o que vem em nome do Senhor. Hosana nas alturas!” (Mt. 21:1-11). Porém, quando Cristo foi crucificado “todo o povo” disse: “o seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos.” (Mt. 27:25). Aparentemente a fé da multidão era uma crença intelectual somente, pois, se fosse uma fé verdadeira confiariam em Cristo para a salvação e não pensariam que Ele fosse digno de crucificação. A mesma coisa pode ser dita dos muitos dos judeus que creram nEle em Jerusalém. Tinham uma fé que gostou das palavras de Cristo mas não no significado delas, pois, quando entenderam o que ele quis dizer “pegaram pedras para lhe atirarem” (Jo. 8:30-59). Na hora de Jesus curar, saíam muitos demônios que clamavam: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus.” (Lc. 4:41). Porém, apesar da declaração e crença, estes não foram convertidos. É manifestado que eles tinham somente um reconhecimento intelectual e não uma fé verdadeira.

A fé implícita é melhor definida pelo ditado: “fé na fé”. A fé implícita crê simplesmente para crer. É crer em algo sem nenhuma prova. Os católicos dizem que a fé deve ser na igreja, ou melhor, simplesmente crer nas suas doutrinas pela autoridade dela mesma e não por causa do reconhecimento de nenhuma verdade (Boyce, p. 389). Seria a mesma coisa dos evangélicos dizerem: “crê na Bíblia somente para a salvação” sem primeiramente ensinar o que ela diz. O cristão verdadeiro não crê em Cristo simplesmente por crer nEle, mas, por Ele ser revelado ao seu coração pelo Espírito Santo e assim, confia na Sua obra revelada pelas Escrituras como suficiente para o tornar aceitável diante de Deus.

A fé temporária é uma fé enganosa. Essa fé recebe intelectual e alegremente os fatos históricos da verdade. Essa fé entendemos pela parábola do semeador (Mc. 4:1-20). É simbolizada pela semente que caiu sobre pedregais (Mc. 4:5, 16, 18). A parábola nos ensina que a terra não era boa. Isto quer dizer que esta semente não caiu em um coração regenerado. Com o tempo é entendida que essa fé era falsa por ser temporária. Essa fé enganosa é evidenciada por não continuar a confiar em Cristo nem ter uma crescente devoção e serviço a Ele. A fé temporária é manifestada como falsa por não crescer na graça e conhecimento de Cristo. Logo torna cansativo o amor à Palavra de Deus, e torna pesada a responsabilidade de obedecer e ouvi-la para os com essa fé traiçoeira. O amor do povo de Deus e a santidade de Deus que pede uma crescente distância do pecado não é uma realidade nos que conhecem apenas essa fé pérfida.

A fé verdadeira e salvadora, apesar da mente participar dela, é do coração também (Rm. 10:9, 10). É um conhecimento experimental da verdade de Deus e do poder de Cristo. Esta fé não é uma empolgação emocional ou um mero convencimento mental, mas é o dom de Deus no coração dos Seus (Mt. 16:16, 17; Jo. 6:37, 64-69; Ef. 1:19, 20) que leva o Cristão a confiar inteiramente nas Suas palavras para tudo que precisa para ser apresentado agradável diante de Deus. É manifestada por um arrependimento e repúdio ao pecado e um amor por tudo que agrada o Salvador.

A fé verdadeira tem o pai, na qualidade de Deus, como objetivo dela. Creia e confia que Deus é santo e um juiz justo que julgará o mundo por Jesus Cristo (At. 17:31). Sabe e espera na sua misericórdia e amor manifestos no seu Filho (Rm. 5:8). A fé verdadeira confia que Deus pode e vai assegurar a salvação final do Seu povo (Fp. 1:6; I Pe. 1:5).

A fé verdadeira tem Deus, na qualidade de Pai, o seu alvo. A verdadeira fé descansa no Pai que nos amou primeiro (II Ts. 2:16; I Jo. 4:19) e nos adotou como filhos (I Jo. 3:1, 2; Rm. 8:17). A fé verdadeira põe a sua confiança no Pai como Aquele que nos deu a graça (Tg. 1:17) e grandíssimas e preciosas promessas (II Pe. 1:4; II Co. 1:20).

A fé verdadeira tem a pessoa e obra de Cristo como o seu alvo. A fé verdadeira tem por certo a divindade de Cristo (At. 8:37, “creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus”) sem esquecer que Cristo também é homem e nos representou completamente levando em Si os nossos pecados na Sua morte para nossa salvação (II Co. 5:21). A fé verdadeira aceita completamente o desejo amoroso de Cristo que pecadores arrependidos venham a Ele para o seu descanso espiritual (Mt. 11:28-30).

A fé verdadeira olha a Cristo (Is. 45:22; Jo. 3:14, 15), venha a Cristo (Is. 55:1; Mt. 11: 28; Jo. 6:37, 44, 45, 65), ponha o seu refúgio nEle (Hb. 6:18), come e bebe dEle (Jo. 6:51-58) e recebe Ele (Cl. 2:6).

A fé verdadeira tem evidências importantes. Essas evidências de uma fé verdadeira incluem a purificação do coração (At. 15:9, “purificado seus corações pela fé”; Mt. 5:8, “Bem aventurado os limpos de coração”; I Pe. 1:22). O coração onde reside a fé verdadeira se limpa de todos os seus ídolos impuros para servir o Santo (I Ts. 1:9, “e como dos ídolos dos convertestes a Deus, para servir o Deus vivo e verdadeiro”); obediência em amor (Gl. 5:6, “à fé que opera pelo amor”). Pela fé verdadeira o cristão agrada a Deus, resiste ao diabo e mortifica a carne, tudo isso não como um pesado mandamento, mas, pelo amor (I Jo. 5:3, “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados.”); vitoriosa (I Jo. 5:4, “e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé.”). Sendo “nascido de Deus” o cristão verdadeiro tem uma mente de iluminada e por isso sabe que o mundo é vão e que as coisas espirituais são as únicas que podem satisfazer completamente (Lm. 3:24).

Considerando essas verdades, podemos entender que a fé verdadeira não é uma mera aceitação mental de história ou de fatos importantes. É o fruto do Espírito de Deus (Gl. 5:22) no coração dos Seus. Esta fé não se manifesta somente em conhecimento intelectual e declarações verbais, mas manifesta-se em obras de obediência à Palavra de Deus em amor (Gl. 5:6; Ef. 2:10; Tg. 2:17; I Ts. 1:9). Aquele que tem essa fé verdadeira pode declarar de seu coração como Pedro: “Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo.” (Jo. 11:27; Mt. 16:16; Mc. 8:29); como o eunuco: “creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus” (At. 8:37); como Natanael: “Rabi, tu és o Filho de Deus: tu és o Rei de Israel.” (Jo. 1:49), e, como Paulo pregava de Cristo que este “é o Filho de Deus” (At. 9:20). Essa fé verdadeira e salvadora vem pela Palavra de Deus tanto no Velho Testamento (Gl. 3:8; Hb. 4:2) quanto no Novo Testamento (Rm. 10:11-17).

Se você conhece essa fé verdadeira, tem muitos motivos para louvar ao Senhor eternamente, pois o que Ele começou, aperfeiçoará até o dia de Jesus Cristo (Fp. 1:6). Temos motivos para perseverar na fé cristã e lutar contra o pecado, pois essa fé vence o mundo (I Jo. 5:4). Temos motivo para avançar na causa de Cristo com confiança e obediência, pois Aquele que nos chamou, também fará o que Ele prometeu (Hb. 10:23; I Ts. 5:24; Mt. 16:18). Os que conhecem a fé verdadeira têm uma mensagem viva e transformadora vinda de Deus para pregar com ousadia ao mundo em trevas.

Observação: o arrependimento e a fé são graças inseparáveis. Onde uma é mencionada a outra é compreendida. “Quando um homem é vivificado para a vida, não pode haver um lapso de tempo depois dele arrepender-se, nem pode haver qualquer antes que ele creia. De outra maneira teríamos a nova natureza em rebelião contra Deus e em incredulidade. Assim não pode haver ordem cronológica em arrependimento e fé.” (T.P. Simmons, p. 351).

A Justificação

Romanos 3:24-26

Por causa do pecador ser regenerado por Deus, ao qual manifestou-se na sua conversão, não existe nada nele que o impede de ser declarado judicialmente justo diante de Deus. Quando tratamos da salvação e falamos da parte dela chamada justificação tratamos dessa posição judicial do pecador convertido diante do tribunal divino (At. 13:38, 39).

O significado da justificação é a absolvição de culpa do pecador regenerado e convertido. É a libertação do poder do pecado e da sua condenação pela graça e da vontade de Deus por Cristo (William Rogers). É “o meio pelo qual o pecador é aceito por Deus” (Abraham Booth, Reign of Grace, citado por A. W. Pink).

O autor dessa justificação é Deus (Rm. 8:33, “.. É Deus quem os justifica.”; 3:24-26, “Sua justiça .. para que Ele seja justo e justificador ..”; Tg. 1:17, “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes ..”). A obra da justificação é uma obra da trindade. O Pai decretou o meio e o método (Rm. 3:22, “a justiça de Deus”; II Co. 5:19, “.. Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; ..”). O Filho é o mediador da justificação (I Co. 6:11, “ .. Mas haveis sido justificados em nome do senhor Jesus ..”Fp. 3:9, “não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo ..”). O Espírito Santo é quem faz a obra de convencer da justiça e de revelar Cristo. Ele traz a fé pela qual o cristão é justificado (I Co. 6:11, “ .. Mas haveis sido justificado .. pelo Espírito do nosso Deus”; Jo. 16:8, “E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo.”). Observando biblicamente quem é o autor da justificação podemos entender claramente que a justificação não vem de homem algum.

Os alvos da justificação são os pecadores. São os condenados que precisam ser declarados justos diante de Deus (Mt. 9:12, 13, “.. Não necessitam de médico os sãos, mas, sim, os doentes .. Eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento.”). O juízo veio sobre todos os homens para a condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para a justificação de vida (Rm. 5:18). Os que confiam em si mesmos, crendo que são justos pela suas obras de justiça não são os que são verdadeiramente justificados, porém, os que reconhecem o principal dos pecadores (Lc. 18:9-14. “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador! .. Este desceu justificado para sua casa ..”; I Tm. 1:15, “Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal”). Os alvos da justificação são os pecadores que são predestinados e chamados por Deus (Rm. 8:30). Se queremos ser justificados diante de Deus entendemos que não é necessário apresentá-lO à nossa própria justiça, mas, como pecadores buscar Sua justificação.

A natureza dessa justificação é maravilhosa. A justificação do pecador diante do tribunal de Deus não é um processo, como é a chamada para a salvação ou a santificação do cristão diante dos homens. É um ato instantâneo e quando ocorre, está completo. “Não admite graus ou fases” (T. P. Simmons, p. 353). Quando o publicano foi convertido, ele desceu para sua casa já justificado (Lc. 18:14). A justificação é eterna. A firmeza da verdade da eternidade da justificação é entendida pela pergunta de Deus, “Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica.” (Rm. 8:33). Pelo preço da justificação ser paga inteiramente por Cristo “uma vez” (Hb. 10:10) o cristão resgatado por Cristo “tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” (Jo. 5:24). Pela base da condenação do pecador, o pecado, ser eliminado por Cristo, a justificação diante de Deus por Cristo é tida como eterna. A justificação é graciosa. Mesmo que a justificação é revelada exteriormente aos outros mediante as obras (Tg. 2:20-26) a obtenção da justificação diante de Deus nunca é pelas obras de homem algum (Rm. 3:20; 4:2-8; Tt. 3:4,5). Então, se não é pelas obras, é pela graça (Rm. 11:6). Deus não deve a salvação ao inimigo dele mas, sim, o juízo. Se Deus quer justificar alguém na base da obra meritória de Cristo isso é um desejo e um ato plenamente movido pela Sua graça. A justificação é pela imputação (Rm. 4:6). A justificação é dada a nós pela obra de um outro ao ponto que nós somos livres de qualquer dívida (Rm. 5:18,19; Fp. 3:8,9; II Co. 5:21). A justificação é dada pela fé. A fé é um efeito da justificação e não uma causa. Por sermos regenerados, temos o dom do Espírito Santo que é a fé (Gl. 5:22). Por isso confiamos em Cristo como nosso Salvador. A graça vem primeira e causa a fé a operar em nós para nossa justificação (Ef. 2:8). Percebendo então a natureza gloriosa dessa justificação somos incentivados a louvar Deus por uma “tão grande salvação” (Hb. 2:3). E sendo justificados por uma justificação tão maravilhosa somos incentivados a procurar aplicar-nos “às boas obras” (Tt. 3:7,8) para a glória de Deus pelo Salvador.

As bênçãos da justificação são múltiplas. Temos a emancipação da culpa e do poder do pecado (I Jo. 1:7; Hb. 10:12-14; Rm. 8:1; Gl. 3:13). Pela justificação temos a bênção de ter paz com Deus (Is. 53:5; Rm. 8:1). Por não termos mais a culpa do pecado não é impedido mais a nosso comunhão com Deus e temos plena aceitação da nossa pessoa com Deus e a possibilidade de uma adoração verdadeira (Ef. 1:6; Hb. 10:19-22; Jo. 4:24). Por sermos absolvidos de culpa somos abençoados na terra e pela eternidade (Rm. 8:28; I Co. 2:9; Ap. 1:5,6) pois a justificação e a glorificação andam juntas (Rm. 5:8, 10; 8:30).

Um resumo (BANCROFT, Elemental Theology, p. 206):

1. Somos justificados judicialmente por Deus, Romanos 8:33.

2. A causa eficiente da justificação é a graça, Romanos 3:24.

3. Somos justificados meritória e manifestamente por Cristo (meritoriamente pela sua morte, Rm. 5:10 manifestamente pela sua ressurreição Rm. 4:25).

4. Somos justificados instrumentalmente pela fé, Romanos 5:1.

5. Somos justificados evidentemente aos outros pelas obras, Tiago 2:14-24.

A Adoção

Romanos 8:12-17

“Esta benção da graça é ainda mais grandiosa do que a justificação. Embora um juiz possa absolver totalmente a alguém que esteja sendo acusado de crime, não pode, contudo, conferir ao que foi absolvido nenhum dos privilégios que o filho tem. Mas o crente em Jesus Cristo tem o privilégio de poder considerar Deus não apenas como um juiz e justificador, mas como um Pai amoroso com quem se reconcilia. O problema de como colocar o pecador justificado na família de Deus foi resolvido (Jr. 3:19). Uma vez distante, ele agora é trazido para perto de Deus mediante o sangue de Cristo, e tornado o membro da família de Deus (Ef. 2:13, 19)” - Dagg, p. 220.

Os significados da adoção. Existem duas maneiras de entender a palavra “adoção”. Uma é do ponto de vista do mundo natural, ou seja, alguém que de uma família é desejado e colocado legalmente numa outra. Um exemplo disso é Moisés quando a filha de Faraó o adotou (Êx. 2:10; Hb. 11:24). Por nós estarmos uma vez nos laços do diabo (II Tm. 2:26) e por natureza filhos da ira (Ef. 2:3) em qual situação éramos estrangeiros e sem Deus do mundo (Ef. 2:12), pode ser dito que somos, pela obra de Cristo na cruz, e a operação do Espírito Santo em nossos corações com o fruto da fé, tirados de uma família e feitos filhos de Deus legalmente com todas as bênçãos de Cristo (Rm. 8:16,17).

Uma outra maneira de entender a adoção é pelo ponto de vista da lei Romana, ou seja, o filho nascido numa família Romana, numa certa idade, seria legal e formalmente adotado diante da lei. Essa cerimônia faz que o filho seja colocado na posição de um filho legítimo e, assim, tendo todos os privilégios de filho. A participação do filho não o trouxe como integrante da família (pois ele já estava na família), mas o reconheceu como filho diante da lei Romana. Um exemplo disso entendemos pelo escrito de Paulo em Gálatas 4:1-7. Por nós sermos tornados pela regeneração “filhos de Deus” agora, pela adoção, tornamos legal e formalmente um filho com todas as bênçãos do Pai (Bancroft, p. 240).

A adoção é diferente do que a justificação. Muitos acham que a adoção é a mesma coisa da justificação. Existem várias razões que enfatizamos que a adoção é distinta da justificação mesmo que sejam inter-relacionados.

• Existem duas palavras distintas na Palavra de Deus: justificação e a adoção. Se essas duas palavras fossem iguais no significado seriam listadas nos dicionários como sinônimos.

• As duas doutrinas, justificação e adoção, falam de mudança de relacionamentos com Deus, mas, os relacionamentos não são iguais. Na justificação, Deus, como rei e juiz, torna de olhar ao pecador como um cidadão e de um justo. É um relacionamento judicial baseada na justiça de Cristo. Na adoção, Deus, como pai, torna de olhar ao salvo como filho. É um relacionamento familiar baseada no amor (I Jo. 3:1).

• A justificação é do Pai somente na qualidade de rei e juiz. A adoção é tanto do Pai quanto do Filho (Jo. 1:12).

• Pela justificação tornarmos de ter paz com Deus (Rm. 5:1; 8:1,2). Pela adoção tornarmos a ter um relacionamento de amor com Deus (Rm. 8:15).

• Pela justificação a pena e o poder do pecado são eliminados. Pela adoção a presença do pecado na vida do cristão é tratada com a correção paternal (Hb. 12:5-11).

A origem da adoção não vem do homem mas de Deus. O homem não convertido e justificado não tem direito diante de Deus para ser adotado. O homem não pode pensar que ele tem direito natural diante de Deus por ser criado superior de toda a criação natural. Se o homem tivesse direito por ser originalmente criado à imagem de Deus, todo e qualquer homem teria direito à adoção. O homem regenerado e feito vivo espiritualmente também não tem direito diante de Deus de ser adotado. O homem regenerado e convertido não é mais condenado, mas, mesmo assim, não tem direito ao amor de Deus. O amor de Deus pelo cristão não é por merecimento nenhum. Por isso a adoção não é um direito do homem espiritual.

A origem da adoção é um dom de amor de Deus àqueles que têm a união com Cristo, o Unigênito filho. A verdade é que a adoção vem, não de qualquer direito de homem algum, mas pelo “beneplácito de Sua vontade”, a vontade de Deus (Ef. 1:5). A adoção é merecida somente pela obra de Cristo e dada em amor a todos que venham a Cristo pela fé (Jo. 1:12). A adoção é herdada no começo da carreira cristã quando ainda não há mérito nenhum pelas obras da obediência do cristão (I Co. 1:26-29).

A natureza da adoção é revelada em que ela é uma escolha de Deus a aceitar os que eram estrangeiros e peregrinos “como concidadãos dos santos, e da família de Deus” (Ef. 2:19). A adoção faz com que o cristão participe da natureza santa divina, pela união com Seu Próprio Filho (Jo. 17:21-23; II Pe. 1:4, “participantes da natureza divina”).

O tempo da adoção é de eternidade a eternidade: A adoção é eterna na sua conceição (Ef. 1: 4,5, “antes da fundação do mundo .. E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo”). A adoção começa literalmente no ato da salvação (Jo. 1:12; Gl. 3:26, “todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus”). A adoção é futuramente eterna pois ela passa pela morte e a transformação do corpo, pela eternidade (Rm. 8:23, “e esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo”; II Co. 5:10; I Jo. 3:1-3, “agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser”). É entendida que a adoção é eterna pois ela não depende da obra de nenhuma criatura mas completamente da obra santa do Criador (I Co. 1:30; Rm. 9:11; 11:5,6).

As bênçãos da adoção são inúmeras e gloriosas. Por sermos adotados na família de Deus temos: o nome da família (I Jo. 3:1, “chamados filhos de Deus”; Ef. 3:14,15); a identidade da família (Rm. 8:29, “a imagem de seu Filho”); o amor da família (Jo. 13:35, “nisto todos conheceram que sois meus discípulos, se amardes uns aos outros”; I Jo. 3:14); o espírito da família (Rm. 8:15, “recebestes o Espírito de adoção de filhos”; Gl. 4:6), e, a responsabilidade da família (Jo. 14:23, 24, “Se alguém Me ama, guardará a Minha palavra”; Jo. 15:8). Outras bênçãos ainda poderiam ser listadas, quais são:

1. A confraternidade íntima com Cristo e Deus (Gl. 4:7, “já não és mais servo, mas filho”; Jo. 15:15). Essa relação íntima é percebida pelos termos com qual o filho adotivo chama Deus de Pai: “Aba Pai”. Cristo chamou Seu Pai pelo mesmo título (Mc. 14:36) e o filho adotivo situa-se na mesma posição do Unigênito Filho de Deus para com o Pai, e assim também O chama pelo mesmo título amoroso (Rm. 8:15; Gl. 4:6).

2. A presença verdadeira e segura do Espírito Santo - Romanos 8:16. Romanos 8:15 não quer dizer que somente recebemos uma adoção espiritual mas ensina que recebemos o próprio “Espírito de adoção” que indica uma nova natureza espiritual e possessão do próprio Espírito Santo (Matthew Henry, V. III, p. 963.

3. A orientação do Espírito Santo (Rm. 8:4, 14; Gl. 5:16). O mesmo Espírito que nos convenceu do pecado, e da justiça e do juízo (Jo. 16:8) é o mesmo que continua conosco assegurando-nos na fé, pois temos muita oposição interna e externa dessa confiança de sermos filhos de Deus.

4. Uma consciência real da posição nossa com Deus (Rm. 8:15, “Aba Pai”; Gl. 4:6). A expressão, “Aba Pai”, é uma expressão reservada, entre os judeus, para ser usada somente por pessoas livres. Nenhum escravo poderia chamar o seu senhor, “Aba”, ou a sua senhora, “Imma”. O uso dessa expressão por Paulo relata o privilégio livre e familiar que temos para com Deus pela adoção (Haldane, p. 358). A consciência dessa posição real desfruta um acesso aberto para com o Pai (Ef. 3:12, “temos ousadia e acesso com confiança”; Hb. 10:19-23).

5. Somos herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo (Rm. 8:17; I Pe. 1:3-5, “herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós”; Ap. 21:7, “herdará todas as coisas”; I Co. 3:21-23, “tudo é vosso, e vós de Cristo, e Cristo de Deus”).

6. As bênçãos indizíveis da glória futura (I Jo. 3:2, “ainda não é manifestado o que havemos de ser .. Seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos”).

7. A correção paternal (Hb. 12:5-11) e cuidado constante e amoroso (Mt. 6:32, “vosso Pai celestial bem sabe que necessitais todas estas coisas”; Lc. 12:27-33; Jo. 17:22,23, “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que seja um, como nós somos um .. E que os tens amado a eles como Me tens amado a Mim”;Jo. 16:27).

Seria bom diferenciar a adoção dos homens e a adoção de Deus. O homem escolhe um filho adotivo e pensa nas suas qualidades reais ou supostas que podem ser agradáveis e meritórias, porém Deus, na adoção do seu povo, produz as qualidades por Si mesmo naqueles que Ele escolhe. O homem pode dar os seus bens e o seu próprio nome a quem ele adota, mas ele não pode mudar a descendência de quem ele adota, nem transformá-lo na sua própria imagem; porém Deus, faz com que os que Ele adota não só participam do Seu nome e das Suas bênçãos celestiais, mas da Sua própria natureza, mudando e transformando-os à Sua própria imagem (Haldane, p. 357).

Concluindo o estudo, entendemos como a adoção é graciosa e gloriosa. Tanto mais que estudamos o assunto da salvação, percebemos melhor o grande amor que tem nos concedido o Pai que fôssemos chamados filhos de Deus (I Jo. 3:1). Os que têm tais bênçãos, tanto pelo conhecimento delas quanto pela operação da nova natureza, estarão incentivados a serem puros como Aquele que os chamou a tais bênçãos é puro (I Jo. 3:3, qualquer um que nele tem esta esperança purifica si a si mesmo, como também ele é puro). As bênçãos dadas pela adoção vão muito além de um dever sem motivação, de uma religião com cerimônias, tradições, filosofias ou emoções forçadas. Essas qualidades não têm nenhuma posição abençoada para com Deus pois dependem das ações e intenções do homem e nem um pouco da obra graciosa de Cristo. Se você se acha somente uma pessoa religiosa o aviso é: deixe as suas obras de justiça que visa ganhar a graça e a misericórdia de Deus. Lança-se aos pés de Deus clamando a Ele pela Sua salvação que vem somente por Cristo.

A Santificação - Hebreus 12:14

O que significa

A palavra “santificar”, como usada na Bíblia, significa principalmente “separar algo para um uso especial”. Um exemplo disso é a santificação do sábado, uma separação do sétimo dia dos demais dias da semana para um propósito especial (Êx. 20:8-11; Dt. 5:12-15).

Mas a santificação não é apenas uma separação. Significa também uma separação para a santidade (Nm. 6:5-8; Hb. 7:26; II Tm. 2:19-21). A palavra “santificação” também tem a idéia de purificação ou de uma lavagem (Hb. 9:13-14; Ef. 5:26).

O léxico de Thayer’s consta o significado da palavra “santificar”: dar o reconhecer por venerável, honrar, separar de coisas profanas e dedicar-se a Deus; consagrar; purificar (Simmons, p. 361).

Como o pecado nos culpou e nos sujou na nossa natureza, Deus, por Cristo, na salvação nos justifica, tirando a culpa; nos adota, oficializando nossa posição de filho; e nos santifica, nos dando uma natureza santa (Rm. 5:17; 6:19). A justificação tira a nossa culpa legal diante de Deus. A adoção nos dá uma relação familiar. A santificação nos faz andar moralmente limpos diante de Deus e dos homens. Na justificação recebemos o título da inocência. Na adoção é nos dado o título da nossa herança. Na santificação somos feitos capazes de desfrutar e usufruir daquela herança (Fp. 4:13; I Co. 1:30; 6:11; I Jo. 1:9).

Definindo melhor, a santificação é aquela operação que muda o nosso caráter e a nossa conduta. Ela opera em nós um amor a Deus, uma capacidade para adorá-lo corretamente e nos qualifica para participar das bênçãos no céu. A santificação faz com que sejamos feitos conforme a imagem de Cristo, que é o propósito da salvação (Rm. 8:29).

O tempo da santificação

A santificação é tanto imediata quanto um processo. A santificação é imediata quando focalizamos na posição do cristão, pela salvação, diante de Deus. A santificação é um processo quando consideramos a posição do cristão, pela salvação, diante dos homens. Queremos tratar do tempo da santificação primeiramente diante de Deus.

Diante de Deus

Na hora da salvação, o regenerado, que mostra a sua nova vida pela conversão, é justificado diante do juiz e adotado na família de Deus. Imediatamente e eternamente é lavado de todo seu pecado. Essa santificação é imediata e entendida de duas maneiras.

Primeiramente o cristão, pela santificação, é legalmente puro. Cristo é a nossa santificação judicial (I Co. 1:30, “Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção:”). Cristo se entregou a si mesmo para purificar os seus (Ef. 5:25,26, “.. Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra,”). Por causa de Cristo entregar o seu próprio corpo para os pecadores arrependidos, os crentes são santificados eternamente diante de Deus (Hb. 10:10, “na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez.”; Hb. 13:12, “E por isso também Jesus, para santificar o povo pelo seu próprio sangue, padeceu fora da porta.”). O cristão, pela morte de Cristo, não tem mais nenhum pecado entre ele e Deus. Por nós sermos lavados pelo sangue de Cristo, Deus não enxerga mais condenação (Jr. 31:34, “e nunca mais me lembrarei dos seus pecados”; Rm. 5:1, “Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso senhor Jesus Cristo;”). Aos lavados pelo sangue de Cristo, não há mais sujeira de pecado (I Co. 6:11, “E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus.”; Ap. 1:5; 7:14). Os que são salvos por Cristo não têm mais maldição (Gl. 3:13, “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que foi pendurado no madeiro;”). Não existindo mais condenação, sujeira ou maldição no salvo para com Deus, entendemos que o cristão é legalmente puro. Pela santificação legal somos postos numa posição santa diante de Deus.

Em segundo lugar, o cristão, pela santificação, é moralmente puro. Pela regeneração, o espírito do homem foi feito vivo para com Deus. Este espírito novo no homem é a nova natureza criada nele pelo Espírito Santo trazer o salvo a estar em Cristo (II Co. 5:17, “nova criatura é”). Essa nova natureza não pode pecar (I Jo. 5:18). Essa nova natureza tem prazer na lei de Deus: A declaração moral de Deus (Sl. 1:2; 40:8; 119:72; Rm. 7:22). Tendo essa nova natureza o santificado é feito como Cristo (Jo. 4:34, “Jesus disse-lhes: a minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar sua obra”), e, por Cristo, estes cumpram toda a lei moralmente (Rm. 2:29). Essa nova natureza é alimentada pela Palavra de Deus (I Pe. 2:2), e pelo Espírito (Ef. 3:16), e pela qual o santificado “vê” Deus (Mt. 5:8). Pela santificação o Cristão é feito santo imediatamente, em sua natureza, diante de Deus.

Diante dos Homens

Diante de Deus, o salvo não tem mais maldição, porém, diante dos homens, o cristão cresce na santificação (Pv. 4:18, “mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito”). Para entender melhor a santificação diante dos homens convém entender o que ela não é em comparação ao que é.

Devemos entender que esta santificação diante dos homens, não é o melhoramento da carne. Mesmo que haja no processo da santificação diante dos homens uma manifestação cada vez menor da carne, a própria carne não melhora. A carne sempre tem o pecado habitando nela (Rm. 7:14-24). A carne sempre cobiça contra o Espírito (Gl. 5:17). O pecado da carne manifesta-se, mas, pela santificação, aprendemos mortificar a carne, porém a carne nunca fica livre do pecado. A impiedade essencial da carne é sempre latente (Simmons, p. 365).

A santificação diante dos homens também não é uma eliminação gradual do pecado na alma. Moralmente, o cristão já é puro diante de Deus alegrando-se, pelo homem interior, na lei de Deus (Rm. 7:22). A alma não tem mais pecado pois ela foi salva pelo sacrifício suficiente de Cristo. É a carne que continua com o pecado.

O processo da santificação diante dos homens também não é a interrupção total dos ataques de Satanás. Enquanto Satanás puder, ele lutará contra tudo o que está em prol da glória de Deus. Temos que ainda lutar “contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais” (Ef. 6:12; I Pe. 5:8, “o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar;”). Pela santificação não tornamos um alvo menos importante ao Satanás. Pode ser que o contrário é verdadeiro.

O processo da santificação diante dos homens é a alma do cristão fortalecendo-se mais na santidade (Hb. 10:14). “E vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl. 3:10). A alma fortalecendo-se mais e mais na santificação, é cumprido o propósito da salvação de nos transformar à imagem de Cristo (Rm. 8:29). Pela santificação somos mais e mais vistos como “irmãos” de Cristo (Hb. 2:11).

A santificação diante dos homens é prática. O processo da santificação acontece no interior do cristão pelo Espírito Santo porém revela-se externamente diante do mundo pela vida cristã. Pela pregação de Cristo entendemos que a santificação exterioriza-se pelo viver da vida cristã publicamente (Hb. 12:14, “Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o senhor;”; Mt. 5:14-16, “Vós sois o sal da terra; .. Vós sois a luz do mundo; .. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus”). A santificação diante dos homens não é uma opção mas uma conseqüência normal daquela nova natureza nascida no cristão.

A santificação diante do homem é experimental. O próprio cristão reconhece a obra da santificação na sua vida. O próprio cristão nota as mudanças nos seus desejos para com Deus, à Palavra de Deus, à oração, à santidade e à obediência (II Co. 3:18, “Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória de Deus, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor”; Rm. 1:17, “porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: mas o justo viverá da fé”). O Cristão não pensa que já alcançou toda perfeição mas reconhece que felizmente não é o que era e ainda deseja mudar mais (Fp. 3:12-14).

A santificação diante dos homens é incompleta. O cristão sempre crescerá até o dia perfeito onde não há mais pecado presente, ou seja no céu (Pv. 4:18; Fp. 3:12). Nesta vida terrestre, com o pecado na carne e mesmo com uma crescente manifestação na vida da nova natureza com as suas vitórias sobre a carne, nunca chegaremos à perfeição completa. Essa perfeição completa-se somente na glorificação.

Os Meios da Santificação

Diante de Deus

A santificação diante de Deus vem por Deus mesmo. “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes” (Tg. 1:17). Foi Deus que começou a boa obra em nós (Fp. 1:6; Ef. 1:3).

A santificação diante de Deus vem pela obra do Espírito Santo. (I Co. 6:11; II Ts. 2:13; I Pe. 1:2).

A santificação diante de Deus tem a morte de Cristo como base pela qual o Espírito Santo opera (I Co. 6:11; Gl. 3:13; Ap. 1:5; 7:14).

A santificação diante de Deus tem a fé como o meio pelo qual a alma se purifica (At. 15:9; 26:18; I Pe. 1:22).

A santificação diante de Deus tem na Palavra de Deus um meio pelo qual a fé opera (Rm. 10:17).

Diante dos Homens

A santificação do cristão diante dos homens vem de Deus (Jo. 17:17; I Ts. 5:23).

A santificação diante dos homens vem pela obra do Espírito Santo (Rm. 15:16). Ele nos guia (Rm. 8:14), nos transforma (Rm. 12:2; II Co. 3:18), nos fortifica (Ef. 3:16), e, faz-nos ter o fruto que agrada Deus (Gl. 5:22).

A santificação diante dos homens tem a vitória de Cristo sobre o pecado, a morte e sobre Satanás como a base pela qual o Espírito Santo opera (I Co. 6:11; 15:55-57; Gl. 3:13; Ap. 1:5; 7:14).

A santificação diante dos homens tem a Palavra de Deus como instrumento que Espírito Santo usa (Jo. 17:17). A Palavra de Deus promove a obediência, previne e purifica-nos do pecado, nos reprova do pecado e causa-nos a crescer na graça (I Tm. 3:16,17; Sl. 119:9, 11, 34, 43, 44, 50, 93, 104; Hb. 5:12-14; I Pe. 2:2).

A santificação diante dos homens tem a fé como meio pelo qual a palavra de Deus é eficiente (Gl. 5:22; Rm. 10:17).

A santificação diante dos homens tem a nossa própria obediência como meio para nos santificar (Rm. 6:19). Como o exercício físico desenvolve o apetite para o alimento, pelo qual recebemos os elementos para produzir crescimento, o exercício espiritual desenvolve apetite para a Palavra de Deus, pela qual recebemos os elementos para o crescimento na graça (Sl. 1:2,3). A nossa obediência envolve a oração, a freqüência à igreja onde Deus tem o Seu ministério pelos seus ministrantes (Ef. 4:11,12), a observação das ordenanças do batismo e da ceia, o castigo e também as providências de Deus (a tribulação, a nossa personalidade, os nossos relacionamentos, as circunstâncias da vida, etc.). Essas coisas promovem a nossa santificação diante dos homens, não porque eles em si têm virtude, mas, como os outros meios, trazem-nos ao encontro com a verdade divina. Estando na presença do Divino somos fortalecidos a termos uma apreciação elevada de Deus e uma obediência mais completa. Essas atividades mostram as glórias de Deus em Cristo pela nossa vida. Deve ser lembrado: Os atos da obediência não têm graça neles separadamente, mas são meios pelos quais conhecemos melhor a Deus, e O conhecendo melhor, somos santificados diante dos homens.

Os Frutos da Santificação

A santificação do cristão não é algo estático ou neutro. A santificação produz evidências no interior do próprio cristão e também exteriormente diante o mundo.

A santificação na vida do cristão produz interiormente uma consciência real da impureza latente na carne. Muitos são os santos na bíblia que lamentaram da sua impiedade mostrando-nos a realidade que por mais santo que sejamos mais impuros nos sentimos (Jó 38:1,2; 40:3,4; 42:5,6; Is. 6:3-5; Ef. 3:8; Fp. 3:12-15).

A santificação na vida do cristão produz interiormente um desgosto crescente ao pecado. Com o processo da santificação, o cristão torna mais e mais como Cristo. Aquilo que o Senhor odeia, o cristão santificado também odeia. Por isso o cristão odeia olhos altivos, a língua mentirosa, as mãos que derramam sangue inocente, o coração que maquina pensamentos perversos, pés que se apressam a correr para o mal, a testemunha falsa que profere mentiras, e aquele que semeia contendas entre irmãos (Pv. 6:16-19; Zc. 8:17). Pelo processo da santificação o cristão cresce mais no temor de Deus. O temor de Deus é odiar o mal, a soberba e a arrogância, o mau caminho e a boca perversa (Pv. 8:13). Quanto mais estamos conformados a Cristo mais odiamos o mal (Sl. 97:10). O crescimento no entendimento dos mandamentos do Senhor Deus faz com que o cristão odeia qualquer evidência de falso caminho (Sl. 119:104). Com a santificação, o cristão vê o pecado verdadeiramente pelo que é: inimizade contra Deus (Rm. 8:6; I Jo. 3:4).

A santificação na vida do cristão produz interiormente um crescimento na graça e maior apreço das coisas celestiais (Pv. 4:18; Sl. 119:101-113). Aquilo que Deus ama, o cristão santificado também ama. Por isso ele dedica-se mais e mais à oração, à Palavra de Deus, aos cultos públicos de adoração, à conformidade a Cristo no lar, nos pensamentos, nos estudos, no emprego, e na vida particular. Verdadeiramente o padrão moral de Deus é o que o cristão santificado ama mais continuamente (Sl. 119:113, “amo a tua lei”).

A santificação na vida do cristão produz boas obras exteriormente diante do mundo (Ef. 2:10). Com uma nova natureza, o cristão torna-se a ser o sal da terra e a luz do mundo pelas suas boas obras (Mt. 5:13-16). Essas obras são boas, não por causa da sinceridade do cristão mas porque elas vêem do coração regenerado (Mt. 12:33; 7:17,18; Jo. 15:5); do amor para realizar a vontade de Deus (Dt. 6:2; I Sm. 15:22; Jo. 14:15; I Jo. 5:3); do desejo de glorificar somente a Deus (Jo. 15:8; Rm. 12:1; I Co. 10:31; Cl. 3:17,23); de um coração cheio de gratidão (I Co. 6:20; Hb. 13:15) e, de uma fé verdadeira (Tg. 2:14,17,20-22). Como o cristão, quando ainda estava na carne, usou os seus membros para toda a imundícia, agora, com a nova natureza, usa os seus membros para servir à justiça para santificação (Rm. 6:19; 12:1,2).

Reconhecendo que os frutos da santificação são muito além do que o homem pode produzir pelos esforços da carne, convém que a nossa espiritualidade seja examinada e provada pelo Senhor (Sl. 26:2; 139:23,24; II Co. 13:5). Ai de nós se somos satisfeitos com aquilo que só agrada aos homens.

Existem estes frutos na sua vida Cristã?

O Perfeccionismo

Há muitos que crêem que o cristão pode ser santificado diante dos homens nesta vida terrestre ao ponto de não ter mais pecado nenhum nas suas vidas. Os católicos, os pentecostais, os Wesleyanos, os Quakers, entre outros, crêem dessa forma (Berkhof).

Os que pregam o perfeccionismo crêem que Deus quer que o cristão seja perfeito pois Ele mandou os Seus à perfeição (I Pe. 1:16; Mt. 5:48; Tg. 1:4) e, Ele nos dá o perfeito exemplo de Cristo para nós seguirmos (I Pe. 2:21). TODAVIA, por Deus pedir à perfeição do cristão não quer dizer que o homem tem a capacidade disso. A Lei de Moisés foi dada por Deus e pediu obediência perfeita mesmo quando a carne era fraca pelo pecado para obedecer completamente a Lei de Moisés (Rm. 7:12-24; At. 15:10). A Lei de Moisés foi dada ao homem ainda no seu pecado quando o homem não poderia entender coisas espirituais (I Co. 2:15) nem estava com a capacidade a agradar a Deus (Rm. 8:8). Por Deus pedir a perfeição do homem revela o desejo de Deus para com o homem, não a capacidade do homem para com Deus. O que é destacado pelos mandamentos bíblicos para o homem ser perfeito é a sua responsabilidade viver uma vida reta, não a sua capacidade de viver tal vida.

Os que pregam o perfeccionismo crêem que o perfeccionismo é possível pois a santidade e a perfeição são atributos dos cristãos nas Escrituras (Cantares 4:7; I Co. 2:6; II Co. 5:17; Ef. 5:27; Hb. 5:14; Fp. 4:13; Cl. 2:10). TODAVIA, a santidade e a perfeição nem sempre querem significar que o cristão esteja sem nenhum pecado. Como já temos visto na definição da palavra santificação, ela também pode significar meramente separação para o serviço de Deus. Essa separação pode ser dias (Gn. 2:3), móveis (Êx. 40:11), roupas (Lv. 8:3), pessoas (Êx. 13:2; 19:10), sacrifícios (Êx. 29:27) ou lugares (Êx. 19:23; 29:43) para o serviço de Deus. Pelas pessoas serem separadas para o uso exclusivo ao serviço de Deus não quer dizer que a vida moral delas seja perfeita. A verdade é: diante de Deus, por causa do sangue de Cristo pela operação do Espírito Santo, o cristão é santo e perfeito, sem mancha ou ruga. Todavia, diante dos homens, o cristão tem lutas com a carne (Gl. 5:17). O apóstolo Paulo usa a palavra “santos” para referenciar-se aos cristãos (Fp. 1:1). Todavia, ele os exorta a fazer todas as coisas sem murmurações ou contendas visando o desejo de Deus que os Seus sejam testemunhos irrepreensíveis no mundo (Fp. 2:14,15). Se os cristãos fossem santíssimos, não seriam exortados a serem fiéis (Fp. 3:16-21; Cl. 2:1-8). A palavra “perfeição” pode também significar: crescimento (I Co. 2:6; Hb. 5:14). Neste significado os santos devem zelar para a perfeição, pois seu crescimento à imagem de Cristo é o alvo da salvação (Rm. 8:29; II Pe. 3:18). A palavra “perfeição” pode também significar: sermos prontos ou preparados para o serviço (II Tm. 3:17). Neste significado os santos devem zelar para a perfeição, amadurecidos na prontidão para viver por Ele.

Os que pregam o perfeccionismo crêem que a bíblia mostra exemplos de santos que eram perfeitos (Gn. 6:9; I Reis 15:14; Jó 1:1). TODAVIA, as próprias vidas destes “santos” revelam imperfeições e fraquezas na fé (Noé, Gn. 9:20,21, “embebedou-se”; Rei Asa, I Reis 15:14, “Os altos, porém, não foram tirados”; a pessoa de Jó, Jó 3:13, “amaldiçoou o seu dia”). Aquele que Deus disse que era perfeito (Davi, I Reis 11:4) e os “santos” mais notáveis na bíblia caíram (Abraão, Gn. 12:13; Pedro, Mt. 26:69-75, Gl. 2:14), e alguns pecaram mais grave ainda (Davi, II Sm. 11:3,4; Salomão, I Reis 11:2,3). Quando Deus olhou desde os céus para o mundo para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus, Ele viu que não houve quem fizesse o bem, nem sequer um (Sl. 14:2,3; Rm. 3:10). É uma verdade que não há ninguém que não peca (I Jo. 1:8; Ec. 7:20; I Reis 8:46). Quando o Cristão morre, ele semeia o seu corpo “em corrupção”, ignomínia e fraqueza como qualquer outro homem (I Co. 15:42-44). Todos os cristãos reconhecem o fato: “tropeçamos em muitas coisas” (Tg. 3:2: Pv. 4:18) e são instruídos a confessarem os seus pecados (I Jo. 1:8). Por causa dos santos terem imperfeições, tropeços e pecados, são disciplinados com a correção de Deus, da qual não teriam se já fossem perfeitos sem nenhum pecado (Hb. 12:5-11). Deve ser notado que a correção não produz uma vida sem pecado, mas produz “um fruto pacífico de justiça”, ou seja, uma vida que vive menos na carne e mais separada ao Senhor.

Os que pregam o perfeccionismo crêem que os “nascidas de Deus” não pecam (I Jo. 3:6-9; 5:18). TODAVIA, nessas passagens, as duas naturezas estão sendo comparadas. Está sendo ensinado que a natureza nova não peca (I Jo. 5:18) e que a natureza velha ainda peca e vem do diabo (I Jo. 3:8). Nessas passagens de I João, está sendo ensinado que as duas naturezas continuam no Cristão. O diabo sempre continua no pecado (Jo. 8:44; I Jo. 3:8), e o pecado ainda continua na carne do cristão (Rm. 7:18-24; Fp. 3:10-14). Deus sempre continua santo (Tg. 1:17; I Jo. 5:18) e, pelo Espírito Santo, habita no Cristão (I Co. 6:19; Cl. 1:27). No homem Cristão, o pecado habita nele e faz ele pecar (Rm. 7:17,21,23). Pelos exemplos bíblicos das vidas dos cristãos (Jó 42:5,6; Sl. 51:1-4) e pelos ensinamentos de doutrina (Rm. 7:18-24; Gl. 5:17), somos assegurados que existe uma luta constante entre estas duas naturezas e sabemos que o cristão perde algumas destas lutas (Berkhof, p. 539). Por isso o cristão é ensinado a confessar os seus pecados (Mt. 6:12: I Jo. 1:9) como esses santos confessaram (Jó 9:3,20; Sl. 32:5; 130:3; 143:2; Dn. 9:16; Rm. 7:14). A perfeição é uma realidade diante de Deus por Cristo. Diante dos homens, nesta vida na terra, a perfeição absoluta é nosso alvo supremo, e isso, para a glória de Deus.

Os que pregam o perfeccionismo inventaram a idéia de que os pecados “involuntários”, ou seja, os pecados movidos pelas emoções e desejos, não são pecados. Muitos querem ignorar as ações do pecado pelo corpo culpando os outros, o seu passado, as circunstancias no seu presente ou outra coisa qualquer, até as próprias emoções que temos. Como Adão e Eva reconheceram as suas ações erradas e jogaram a culpa das suas ações de um para o outro (Gn. 3:12,13), muitos querem fazer o mesmo ainda hoje. TODAVIA, mesmo quando Davi foi manipulado pelos seus desejos pecaminosos a quebrar a lei, ele foi responsabilizado e culpado pessoalmente pelas suas ações de adultério e de homicídio (II Sm. 12:7, “Tu és este homem”). Posteriormente, David lamentou os seus atos e confessou que tinha pecado contra Deus nessas coisas (Sl. 51:1-5). Jesus ensinou que os desejos e pensamentos não conducentes à retidão, são pecados (Mt. 5:28). Devemos lembrar: Deus há de trazer a juízo toda a obra, e tudo o que está encoberto, quer seja bom, quer seja mau (Ec. 12:14; Ap. 20:12,13).

Se você desiste de procurar um viver para a glória de Deus por pensar que nunca chegará ao grau de viver resistindo o pecado, ou, se você pensa que é melhor viver no pecado em vez de prosseguir para o alvo de glorificar o Salvador como Ele é digno de ser, você está manifestando uma atitude não Cristã. O verdadeiro convertido reconhece o fato do pecado sempre presente, mas não desiste de participar na sua santificação por isso. O verdadeiro Cristão é miserável por ter o pecado tão perto dele (Rm. 7:24). O verdadeiro Cristão, quando vê que não alcançou a santificação desejada, prossegue para o alvo, “pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fp. 3:13,14). Não acomode-se com o pecado! Resiste a ele! “Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensar nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra; por que já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.” (Cl. 3:1-3).

Pode ser que ainda não somos o que queremos ser, mas, graças a Deus não somos o que éramos.

A Glorificação

Romanos 8:28,29

O fim glorioso de todo o processo da salvação é para nós sermos feitos como Cristo para a glória de Deus (Rm. 8:28,29, “Para serem conformes à imagem de Seu Filho”). Este fim inclui a realidade de termos vida eterna na presença de Deus ao redor do trono (I Ts. 4:17, “e assim estaremos sempre com o Senhor”). Este fim inclui também a nossa habitação eternamente nas mansões celestiais que estão sendo agora preparadas (Jo. 14:1-3). A realização desse maravilhoso fim da salvação chama-se teologicamente: a glorificação.

A glorificação não é somente a presença da alma regenerada com Deus. A glorificação trata também da ressurreição e a transformação do corpo mortal em corpo imortal, o que é corruptível em incorruptibilidade, aquilo que é ignóbil em glória, aquilo que é fraco em vigor, aquilo que é natural em espiritual (I Co. 15:42-44). Pela doutrina da glorificação tratar daquilo que é futuro, entendemos como classificar as passagens da bíblia que tratam da vida eterna como algo ainda a ser recebido no futuro (Mt. 25:46; Mc. 10:30; Tt. 1:2;3:7, “em esperança da vida eterna”). Elas estão tratando dessa fase da salvação chamada “a glorificação”.

Na morte terrestre, o cristão é livrado da presença do pecado. Porém o corpo dele vê a corrupção, que é o fim do pecado (Rm. 6:23; Gn. 3:19). Quando a alma despede-se do corpo na morte, ela regozija na presença de Deus imediatamente, sem mais lutar contra o pecado (Lc. 23:43, “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso.”; Ap. 14:13, “para que descansem dos seus trabalhos”; I Co. 5:5, “o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus”; II Co. 5:6,8, “enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor .. desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor.”). Todavia, na ressurreição do corpo, a glorificação é completa, tanto da alma quanto do corpo. A glorificação fala da redenção do corpo do cristão, ou na ocasião da sua ressurreição (I Co. 15:52-56; I Ts. 4:16) ou na ocasião do seu arrebatamento (I Ts. 4:17).

Podemos comparar tudo que temos estudado até agora sobre a realização da salvação de vários ângulos

T. P. Simmons explica

• A justificação fala da condição da alma do eleito salvo – Lc. 7:50; Ef. 2:8; II Tm. 1:9; Tt. 3:5. Este ângulo refere-se da salvação efetuada no tempo passado, naquela hora que fomos salvos.

• A santificação refere-se à condição da vida do eleito salvo – Fp. 2:12; Romanos 6:12-19; Gl. 2:19,20; II Co. 3:18. Deste aspecto fala da salvação sendo efetuada no tempo presente, nessa hora que vivemos agora.

• A glorificação refere-se à condição do corpo do eleito salvo – Romanos 5:9,10; 6:22; 8:23,24; 13:11; I Co. 5:5; Ef. 1:13,14; I Ts. 5:8; Hb. 9:28; 10:36; I Pe. 1:5; I Jo. 3:2,3. Deste aspecto da salvação fala do que será efetuado no tempo futuro, daquela hora que estaremos presentes, corpo e alma, diante de Deus no céu (p. 380-382).

A. W. Pink explica

(Doctrine of Salvation, p. 128-130)

• A salvação do prazer do pecado é efetuada quando Cristo vem habitar no coração do arrependido – Gl. 2:20, “Cristo vive em mim”; II Co. 5:17, “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é .. tudo se fez novo”. Com Cristo habitando no coração do arrependido, o mau não é mais desejado, e, quando o mal aparecer, faz o arrependido sentir miserável (Rm. 7:19,24). Esse ângulo da salvação chama-se regeneração e mostra o milagre da graça.

• A salvação da pena do pecado é efetuada por Cristo pela Sua morte na cruz – João 19:30, “Está consumado”. João 3:16, “não pereça”; Romanos 5:1, “Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso senhor Jesus Cristo;”; Romanos 8:1, “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”. Esse ângulo da salvação chama-se justificação e mostra a grandeza da graça.

• A salvação do poder do pecado é efetuada pela operação do Espírito Santo no cristão – Romanos 8:9, “Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós.” Fp. 4:13, “Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece.”; I João 3:3, “qualquer que nEle tem essa esperança purifica-se a si mesmo.” Esse ângulo da salvação chama-se santificação e mostra o poder da graça.

• A salvação da presença do pecado será efetuada quando Cristo volta – Fp. 3:20-21, “Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas.” ; I João 3:2, “Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos.” Como os não salvos não entram no céu, assim os salvos já no céu não preocupa-se mais em viver com a presença do pecado (Ap. 21:8,27; 22:3). Esse ângulo da salvação chama-se glorificação mostrando o alcance eterno da graça.

O alvo da glorificação

O propósito central da Palavra de Deus, da obra do Espírito Santo, da igreja e da providência na vida do cristão é fazê-lo mais e mais como Cristo para que Deus receba a glória (Rm. 8:29, “para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos.”) Portanto a glorificação, sendo parte deste maravilhoso propósito é especificamente para fazer-nos perfeitos à imagem de Cristo (Ef. 4:13, “à medida da estatura completa de Cristo”).

Deus é sempre glorificado no Seu Filho (Mt. 3:17; 17:5; Jo. 12:28). O homem perdeu a imagem espiritual de Deus quando pecou no jardim do Éden (Gn. 2:17; 3:6; I Co. 2:14; Ef. 2:1,2). Pela fé na obra de Cristo, o pecador arrependido vê a sua regeneração e volta a ter a vida espiritual para com Deus. Todavia, até que ele tenha a última vitória sobre a morte, o pecador salvo habita num mundo amaldiçoado. O pecador salvo também é preso num corpo onde habita o pecado (Rm. 7:23,24). Este tempo no corpo é uma vivência de lutas (Gl. 5:17), de muitas tentações (I Co. 10:13) e de constantes tristezas (Rm. 7:23,24, “Miserável homem que eu sou!”). Mas, num glorioso dia, na transformação do seu corpo mortal para um corpo imortal, o salvo será feito como Cristo na sua perfeita glória. Aquela glória que foi testemunhada no monte da transfiguração (Mt. 17:1-6; II Pe. 1:17,18); aquela glória que cegou Paulo no caminho para Damasco (At. 9:3-8; 22:6-11); aquela glória que fez João cair como morto aos pés dAquele semelhante ao Filho do homem (Ap. 1:17), é aquela glória que espera o cristão na sua glorificação. No momento da glorificação, todos os cristãos serão feitos semelhantes a Cristo na Sua glória (I Jo. 3:2,3). Nessa condição o salvo será como Cristo na Sua glória cumprindo assim o propósito inicial da salvação: Deus ser glorificado em Cristo. Nessa condição, sendo o salvo como Cristo, glorificará Deus eternamente sem nenhuma barreira.

O proveito de estudar essa doutrina

Mesmo que não haja inúmeros versículos que tratam do assunto da glorificação pela Palavra de Deus em relação a outras doutrinas, há bom proveito em estudar o que a Palavra de Deus diz dessa doutrina.

• Sabendo como será o glorioso fim de todos os salvos, a fé do Cristão é alimentada (I Pe. 2:2, “para que por ele vades crescendo”),

• Sabendo como será o futuro para o Cristão, a sua esperança é fortificada (Rm. 5:2, “e nos gloriamos na esperança da glória de Deus”; Rm. 8:23-25, “em esperança fomos salvos”; Tt. 1:2, “Em esperança da vida eterna”; Tt. 3:7),

• Sabendo como Deus tratará eternamente o cristão, imenso conforto é dado (I Ts. 4:17, “consolai-vos uns aos outros com estas palavras”; Jo. 14:1, “Não se turbe o vosso coração”),

• Sabendo das glorias futuras em Cristo, o amor do cristão para com Deus por Cristo é amadurecido (I Jo. 3:1, “Vede quão grande amor nos tem concedido o Pai, que fôssemos chamados filhos de Deus.”; I Jo. 4:19, “Nós o amamos a Ele porque Ele nos amou primeiro.”),

• Sabendo como será o glorioso fim das nossas lutas, a nossa responsabilidade de santificar-nos nas lutas é lembrada (Rm. 13:11, “conhecendo o tempo, que já é hora de despertar-nos do sono; porque a nossa salvação está mais perto de nós do que quando aceitamos a fé.”; I Jo. 3:3, “E qualquer que nEle tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também Ele é puro.”),

• Sabendo do alvo glorioso de Deus para o cristão, a sua perseverança é estimulada (Hb. 12:1, “corramos com paciência a carreira que nos está proposta”),

• “Todo o conselho de Deus” (At. 20:27) inclui essa abençoada doutrina da glorificação, dando uma forte razão de aproveitar um tempo estudando as bênçãos dessa doutrina da glorificação.

Tenha o cuidado de examinar-se a si mesmo. Tenha certeza de que a sua esperança de vida no além não esteja baseada na sua sinceridade, numa religião qualquer, numa boa obra de um estimado homem, ou numa inteira confiança em algo que Deus não prometeu.

Deus se glorifica somente na pessoa e obra de Cristo. Arrependa-se dos seus pecados e tenha a sua fé na obra de Cristo somente. Assim a sua fé estará segura eternamente como Cristo é eterno.

Resumo:

São esses os seis processos envolvidos na salvação: a regeneração, a conversão, a justificação, a adoção, a santificação, e a glorificação.

Não existe um tempo perceptível entre o primeiro processo, a regeneração e os outros três processos: a conversão, a justificação, e a adoção. Estes todos acontecem simultaneamente.

Mesmo que não haja um tempo perceptível entre os primeiros quatro processos envolvidos na salvação, existe um espaço perceptível de tempo entre o princípio do processo da santificação até o seu final na glorificação. Mas, mesmo assim, trata-se de uma pessoa regenerada, convertida, justificada e adotada.

Portanto, não existe uma pessoa que é regenerada que não conhece os graus crescentes da santificação. A idéia que haja um espaço de tempo entre a experiência de conhecer Cristo como Salvador e a experiência de conhecer Cristo como o Senhor é estranha aos ensinos da Palavra de Deus. Seria difícil achar no Novo Testamento um regenerado que não foi santificado. Os relatórios das pessoas convertidas no Novo Testamento chamaram imediatamente o seu Salvador de “Senhor”, uma prova de santificação (a mulher Cananéia, Mt. 15:21-28, “Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim .. Senhor, socorre-me! .. Sim, Senhor, mas também ..”; os dois cegos de Jericó, Mt. 20:29-34, “Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós! .. Senhor, que os nossos olhos sejam abertos .. e eles o seguiram.”; o pai do endemoninhado, Mc. 9:24, “Eu creio, Senhor! Ajuda a minha incredulidade.”; “o publicano Zaqueu, Lucas 19:8, “Senhor, eis que eu dou aos pobres ..”; o malfeitor crucificado com Cristo, Lucas 23:42, “Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino.”; Saulo, At. 9:6, “Senhor, que queres que eu faça?”; 22:10). Esses poderiam chamar de Cristo o “Senhor” pelo respeito da Sua pessoa sim, mas as suas vidas posteriores mostraram o fruto de ter conhecendo Jesus como Senhor desde o primeiro instante do processo da conversão.

A idéia de que existe uma segunda benção mais tarde na vida do cristão quando uma pessoa crente atinge um alto nível de amadurecimento espiritual, tornando-se cheio do Espírito Santo a este ponto, é estranha aos ensinos da Palavra de Deus (Rm. 8:9).

Devemos afirmar que existe o crescimento na vida do cristão pelo qual é amadurecida a sua vida em Cristo. Este crescimento chama-se a santificação. O crescimento não deve ser confundido com a regeneração, a conversão, a justificação, ou a adoção. O crescimento é prova do processo da santificação.

Devemos também afirmar que sempre existe o pecado na vida do cristão apesar do seu grau de santificação (Rm. 7:18-24). A doutrina da santificação não quer ensinar que o cristão cessa de pecar antes de conhecer a glorificação. A santificação não deve ser confundida com a glorificação.

Os primeiros quatro processos da salvação, a regeneração, a conversão, a justificação e adoção, acontecem simultaneamente. Assim que estes quatro acontecem, começa o quinto processo, a santificação do cristão diante do mundo. Este processo, a santificação, continua até o processo da glorificação se revelar no céu. Não existe a possibilidade de uma pessoa ser regenerada mas não convertida; uma pessoa convertida mas não justificada; uma pessoa justificada mas não adotada ou uma pessoa adotada que não conhece a santificação. Todos que conhecem a regeneração, conhecerão a santificação. Todos que conhecem a santificação conhecerão a glorificação (Rm. 8:28-30; Fp. 1:6; II Ts. 2:13-14; Sl. 138:8)

O oposto também é correto: Se não conhecer a santificação na sua vida Cristã, é por não ser adotado ainda; se não conhece a adoção, é por não ser justificado; se não conhece a justificação, é por não ser convertido; se não foi convertido, é por necessitar da regeneração.

Se estiver faltando a regeneração, clame a Deus ter misericórdia em salvar mais um pecador! Procure ver a sua responsabilidade em arrepender-se dos seus pecados e crer no Senhor Jesus Cristo como seu Salvador. Somente os que entram em Cristo pelo arrependimento e a fé conhecerão a salvação que finda com Cristo no céu (Jo. 14:6).

Como vai a sua obediência à Palavra de Deus? Está sendo feito conforme à imagem de Cristo continuamente? O Espírito Santo está guiando você em toda a verdade da Palavra de Deus? Examine-se pois se tem o processo da santificação acontecendo na sua vida (II Co. 13:5; Hb. 12:14). Se você já conhece a regeneração, procure cumprir a sua responsabilidade e santifica-se a si mesmo pelo poder do Espírito Santo à obediência da sua fé diante dos homens mais e mais para a glória de Deus em Cristo.

 

Autor: Pastor Calvin Gardner
Correção gramatical: Edson Elias Basílio, 04/2008
Fonte: www.PalavraPrudente.com.br