Cap 4 - Doutrina Forte

O PECADO ORIGINAL

O pecado original não é um assunto que é proeminente na teologia moderna, pois é contrário a grande parte das modernas crenças arrogantes, e conseqüentemente, nenhum pregador oportunista ousará apresentá-lo à congregação em que ele serve, a fim de não ofender as sensibilidades mais delicadas de um membro. Contudo, tem sido uma das doutrinas mais fundamentais e importantes das Escrituras, pois é o alicerce de muitas outras. Se não existe o pecado original, o homem não herdou natureza pecadora nenhuma, não há necessidade nenhuma de redenção do pecado e não há necessidade de um Cristo crucificado. Também as igrejas não têm nenhum trabalho para fazer, e tornaram inúteis muitas convicções e práticas cristãs. Mas as Escrituras não deixam espaço algum para alguém negar essa doutrina grande que é muito importante, pois uma das primeiras revelações é com relação ao pecado original, e todas as Escrituras presumem a verdade desse conceito, e, aliás, se baseia nele. Len G. Broughton diz:

Não podemos dar ênfase demais ao fato de que a raça de Adão, desde a queda do homem, está sob a maldição e pena do pecado. Todo homem que não é cristão está hoje sob esta maldição e pena do pecado. Não precisamos a prova Bíblica para afirmar que o homem é um ser depravado. A história da raça comprova isso. Nossa experiência comprova isso. Não há homem algum no mundo que não saiba que as inclinações do homem natural são para o mal. É uma luta andar em direção contrária. A tendência natural é para com aquilo que é mau. Isso se aplica a toda a raça humana em todas as partes. — Salvation And The Old Theology (Salvação e a Velha Teologia), p. 50. Hodder And Stoughton Publishers, London, sem data.

O livro de Gênesis é, como indica seu título, um livro de “começos”, e apresenta no terceiro capítulo o início do pecado na raça humana; aqui encontramos o “pecado original”, e o grande caos que o primeiro pecado do homem operou. Muitos agora negam o valor histórico do livro de Gênesis, e afirmam que nada mais é do que um coleção de mitos, que têm como propósito ensinar, em forma de parábolas, alguma verdade, mas que não se pode aceitar literalmente. Observar-se-á de modo especial (assim esperamos) que os que negam a verdade literal de Gênesis são quase sem exceção também aqueles que negam a doutrina do pecado original. Isso é natural, pois os dois grupos ou estabelecem-se ou caem juntos, e negar a verdade do primeiro livro da Bíblia é simplesmente o esforço do homem para se livrar do problema do pecado original. Se não há nenhum pecado original, então o homem não é uma criatura caída e depravada, ele não está perdido e destinado ao inferno, e conseqüentemente não precisa de um Salvador. Essa é a própria alegação que os evolucionistas fazem, pois dizem que o homem se desenvolveu durante milhões de anos a partir de uma criatura do lodo, que ainda retém boa parte da natureza animal. Portanto, o homem não tem de prestar contas a ninguém por agir como um animal. Mas quando as pessoas são ensinadas que são animais como desculpa para sua natureza pecaminosa, elas continuarão a agir como animais. Os evolucionistas estão dispostos a provar que venham de macacos a fim de se livrarem do problema de sua pecaminosidade como também a sua responsabilidade diante de Deus. Romanos 1 mostra que as ações bestiais do homem são resultado primário da sua rejeição da verdade de Deus.

Mas negar a verdade histórica do livro de Gênesis de forma alguma afeta a verdade; só cega o homem à essa verdade, e assim deixa-o em situação pior, pois ao negar o diagnóstico divino de sua situação, também se isola do remédio divino. Assim, longe de o livro de Gênesis ser de valor minimizado, como sustentam muitos, é um livro de começos, e portanto é fundamental para entendermos o restante das Escrituras. Além disso, Gênesis é necessário não só para o homem entender de modo adequado o resto da Bíblia, mas também para entender de modo certo a si mesmo. O terceiro capítulo de Gênesis explica a causa e conseqüência das ações do homem na Bíblia, e na história. O homem não tem como compreender a causa das suas tendências pecaminosas que ele tão evidente tem, exceto por essa revelação da queda do homem, e sua natureza depravada conseqüente. Os psiquiatras não-cristãos há muito tentam explicar as ações do homem sem levar em conta a natureza caída e totalmente depravada humana, e sempre fracassam de modo notável, e em muitos casos apenas fornecem desculpas do pecado e confirmam a sua condenação eterna com a sua “ajuda” profissional. Pode-se atribuir grande parte do atual caos e maldade diretamente aos ensinos corruptos de psiquiatras, e não é nossa intenção fazer uma condenação geral a todos os psiquiatras, pois existem os que são cristãos, e ensinam uma psiquiatria com base Bíblica. Mas a maioria das pessoas não percebe que a psiquiatria (do grego psyche — alma, e iatreia — cura) é o tratamento da alma, e o primeiro passo nisso necessita a resgatar a alma de sua condição caída e morta. Faltando isso, a psiquiatria trabalha de forma invertida, e jamais conseguirá realizar bons resultados duradouros.

O Novo Testamento conecta em várias passagens a queda do homem no Éden ao começo do pecado na raça humana; esse evento marca o tempo em que o homem, que originalmente foi criado na inocência e santidade, se tornou voluntariamente uma criatura caída e totalmente depravada. Algumas pessoas, mesmo crendo que o homem caiu em pecado no Éden, repudiam uma crença na depravação total do homem. Muitas não crêem nessa doutrina porque não entendem o que significa o termo depravação total. A depravação total não significa que o homem é tão mau quanto possa ser, pois ninguém é tão mau que não possa se tornar pior. Acerca disso W. D. Nowlin diz:

Talvez o fato de muitas pessoas rejeitarem a doutrina da depravação total evidencia a sua própria depravação total. Alguns afirmam que “todos são depravados, mas ninguém é totalmente depravado” Aqueles que fazem essa afirmação não raciocinem a conclusão lógica. Depravado significa “pervertido, corrompido” Qual parte do homem não é “pervertida” ou “corrompida”? Aquilo que não é depravado ou pervertido é santo e puro. Aquilo que é puro ou santo não pode ir para o inferno, e aquilo que é pervertido ou corrompido não pode ir para o céu. Então, qual destino pode haver um homem que é em parte depravado e em parte santo? Ele não poderia nem ir para o inferno nem para o céu. As pessoas rejeitam a doutrina da depravação total geralmente devido a uma concepção errada da doutrina. A depravação total não significa que alguém é tão mau quanto Satanás, nem que ele seja tão corrupto quanto poderia ser. Significa que quando o homem caiu o homem inteiro caiu; que nenhuma parte do homem tenha escapado à queda significa que um homem é depravado em sua totalidade — o homem todo. É uma questão de extensão, em vez de grau. — Fundamentals of the Faith (Princípios Fundamentais da Fé), pp. 187-188. Sunday School Board of the Southern Baptist Convention, Nashville, 1922.

Ao considerar os ensinos de Gênesis 3, percebemos várias coisas apresentadas que mostram que o homem de fato caiu no Éden e que ele assim se tornou uma criatura totalmente depravada. Portanto, ele possui uma natureza pecaminosa por causa de seu pecado original, e essa condição foi transmitida a todos os descendentes de Adão, que estavam nele — em sua semente — no momento de seu pecado, e tiveram parte nesse pecado com ele. Observamos em Gênesis 3 as coisas seguintes:

I. HÁ IMPOSIÇÃO DE RESTRIÇÕES.

É evidente que deve ter havido algum tipo de imposição legal em Adão desde o começo, pois não teria sido possível que ele pecasse de outra forma. As Escrituras declaram a necessidade da lei de constituir um ato ou atitude como iniqüidade (iniqüidade é a transgressão de lei): “Qualquer que comete pecado, também comete iniqüidade; porque o pecado é iniqüidade.” (1 João 3:4). E de novo: “Porque a lei opera a ira. Porque onde não há lei também não há transgressão” (Romanos 4:15). E ainda de novo: “Porque até à lei [a entrega da lei escrita no Sinai — DWH] estava o pecado no mundo, mas o pecado não é imputado, não havendo lei. No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão…” (Romanos 5:13-14).

Não só as Escrituras, mas também até mesmo a própria razão mostra a necessidade de leis para a criação, como observa o Dr. Samuel Baird quando diz:

É evidente que o exercício de uma soberania universal, absoluta e imutável de algum ser é necessária para a harmonia e felicidade, — aliás, para a própria existência do universo que Deus fez. O Criador tem de ser assim soberano. Nenhum outro ser tem o que se exige para essa posição. O próprio ato da criação, indicando alguma finalidade adequada para se alcançar, leva o Criador a estar debaixo da obrigação, para com sua própria sabedoria, de dar a suas criaturas tais leis que as guiarão à realização dessa finalidade; quer estampadas na própria essência da criatura, como no caso dos elementos materiais; unidas à estrutura orgânica, como na criação vegetal e grupos animais; ou inscrita no coração e revelada ao entendimento, como no homem e os exércitos de anjos. — The Elo¬him Revealed (A Revelação de Elohim), p. 187. Lindsay and Blakiston, Philadelphia, 1860.

No início da história do homem, Deus deu certas restrições e leis que foram designadas para três razões principais, e novamente obtemos muito proveito com as palavras do Dr. Baird.

Assim era essa lei perfeitíssima, sob a qual o homem foi criado; — seus preceitos baseados nas razões mais dignas de Deus, e tendo como origem os próprios atributos de Sua própria natureza; — sua influência, apropriada ao homem e às criaturas, e essencial para explicar, ou perpetuar, a existência da própria criação. Por seu intermédio, realizam-se três propósitos. Serve para a revelação das perfeições morais de Deus; constitui uma afirmação de Sua soberania; e é um padrão para as criaturas. — The Elohim Revealed (A Revelação de Elohim), p. 214. Lindsay and Blakiston, Phila¬delphia, 1860.

Vemos a declaração de restrições em Gênesis 2:16 17, e essas restrições constituíam lei para Adão, eram uma prova eficaz de sua obediência: “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” A própria certeza da pena pela violação dessa lei não deixava espaço algum para Adão alegar que não a conhecia, e nem podem os homens de hoje alegar que ignoram a responsabilidade deles diante de Deus, pois embora a ignorância suavize o grau de culpa, não afeta o fato dessa culpa.

Temos de compreender que Deus é soberano, e Ele tem o direito de impor qualquer restrição que bem entender sobre Sua criação, e, aliás, Ele realmente faz o que quiser em todas as coisas: “Mas o nosso Deus está nos céus; fez tudo o que lhe agradou” (Salmo 115:3). “Tudo o que o SENHOR quis, fez, nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos” (Salmo 135:6). Ao mesmo tempo, temos de entender que todas as restrições que Deus coloca sobre o homem são para o seu bem maior, pois “Porque o SENHOR Deus é um sol e escudo; o SENHOR dará graça e glória; não retirará bem algum aos que andam na retidão” (Salmo 84:11). Mas Deus muitas vezes permite o que Ele não decreta de modo positivo, e escolhe em vez disso anular o mal para que disso resulte glória para Si, não para o homem. Tal é o caso ora diante de nós.

Alguns criticam Deus por tornar as conseqüências do ato de comer desse fruto tão horrendas; alguns dizem que o pecado de Adão de comer desse fruto proibido foi um ato insignificante demais para que Deus trouxesse morte para ele e para toda a sua posteridade por seu pecado, mas este não foi um ato insignificante; foi um caso de rebelião descarada e deliberada contra a claramente revelada vontade de Deus. Nem mesmo se pode acusar que Adão foi enganado ao comer desse fruto, pois as Escrituras dizem expressamente: “E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão” (1 Timóteo 2:14). A serpente enganou Eva (2 Coríntios 11:3), mas não Adão; ele pecou conhecendo plenamente suas ações e suas conseqüências, pois ele sabia que Eva havia pecado, e escolheu pecar e permanecer com sua esposa, do que manter sua inocência, e se separar dela. Não há jeito possível de ou desculpar ou atenuar o pecado de Adão. Além de ser um caso de rebelião total contra a autoridade do próprio Deus, que é a coisa mais importante, uma questão aparentemente insignificante é um teste melhor de obediência do que uma grande questão. J. M. Pendleton diz:

Alguns acham que é indigno de Deus tornar as conseqüências tão sérias e tão temíveis só por causa do ato de comer do fruto de certa árvore. Como é que poderia ser indigno dele? Ele teve a intenção de provar a obediência dos dois seres racionais que ele havia colocado no jardim. Pode-se provar a obediência tanto em coisas pequenas quanto em coisas grandes, e possivelmente melhor. Ao fazer uma grande coisa, um homem pode ser influenciado mais pela magnitude da coisa do que pela autoridade ordenando sua execução; enquanto que ao fazer uma coisa pequena, ou tão chamada pequena, a probabilidade maior é que ele agirá por reverência à autoridade de Deus. Essa é a própria essência da verdadeira obediência. Não há nenhuma obediência verdadeira sem isso. — Christian Doctrines (Doutrinas Cristãs), p. 164. Ameri¬can Baptist Publication Society, Philadelphia, 1878.

Essas críticas são baseadas na idéia errônea do passado de que o homem é livre para decidir quais mandamentos de Deus são importantes e quais não são, e obedecer apenas aos que ele considera importantes o suficiente para serem dignos de sua obediência, mas jamais é uma questão de como um mandamento é importante; a única questão é se ou não Deus o ordenou. Ele o ordenou, então a questão está resolvida; o homem tem de obedecer sem demora ou controvérsia. Agir de outra forma não é de forma alguma obedecer a Deus, mas é obedecer apenas à nossa própria razão e vontade.

As restrições que Deus colocou nas atividades do homem no Éden eram exclusivamente um prova; nada do que o homem realmente precisasse lhe foi recusado, pois as provisões de Deus eram não só adequadas, mas também davam plena oportunidade de ele gozar ricamente todas as coisas, com uma exceção apenas, e essa única coisa nada poderia acrescentar que fosse realmente bom ao homem. Por outro lado, as conseqüências mais horrendas e certas eram ameaçadas contra a violação dessas restrições, de modo que o homem tinha tudo a perder e nada a ganhar com a violação dessas restrições; por que então o homem transgrediu esse mandamento claro do Senhor e comeu desse fruto proibido? Ele assim agiu em parte porque foi movido a agir assim por uma tentação externa; daí, observamos:

II. HOUVE INCITAMENTO À REBELIÃO.

Satanás, usando a serpente como instrumento, foi o agente nessa tentação: “Ora, a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o SENHOR Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?” (Gênesis 3:1). Que Satanás foi a força incitadora nessa tentação é inquestionável, pois uma referência em Apocalipse 12:9 o menciona como “o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás” Essa astúcia da serpente é citada em outras passagens também: “Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva com a sua astúcia…” (2 Coríntios 11:3). “Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo” (Efésios 6:11). Tanto “astúcia” quanto “ciladas” indicam uma sabedoria que se usa para o mal, e esse sentido descreve com precisão o diabo, pois em sua criação ele foi uma das criaturas mais sábias, mas perverteu sua sabedoria para finalidades malignas com seu orgulho e ambição: “Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor” (Ezequiel 28:17).

Mas observe como Satanás começou a enganar o homem, e causou a queda dele de seu estado de inocência. Primeiro, insinuou-se dúvida acerca do que Deus queria dizer: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?” (Gênesis 3:1ss). Essa é uma forma bem comum de tentação, pois se o diabo puder fazer com que o homem questione o sentido ou aplicação de um dos mandamentos de Deus, ele fez muito progresso em induzir o homem a desobedecer a esse mandamento. Também, Eva só soube desse mandamento através de Adão, pois Deus não havia falado com ela sobre o mandamento, mas com Adão (Gênesis 2:16 17), e assim ela não estava em posição para disputar o assunto com a serpente; o que ela devia ter feito era encaminhar o assunto a seu marido, quem era o cabeça e aquele que tinha de fazer qualquer decisão que se precisasse fazer.

Em segundo lugar, a serpente dirigiu atenção a uma limitação, em vez da permissividade ampla e quase sem limite. Só uma coisa Deus havia negado ao homem no Jardim; tudo demais lhe era livremente dado, e não havia falta de nada que o homem pudesse precisar ou desejar; mas, ele esqueceu tudo isso, e a serpente dirigiu atenção a única coisa que seria pecado se o homem tivesse participação. Não daria para incitar rebelião se a atenção do homem fosse direcionada somente para o que era lícito ao homem; para que seja levado a se rebelar contra a vontade de Deus, o homem tem primeiramente de ser induzido a desejar o que é proibido e ilícito.

Em terceiro lugar, a serpente fez um acréscimo à Palavra, e assim reverteu seu sentido: “Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis” (Gênesis 3:4). Ela acrescentou apenas uma palavra, e essa palavra era uma das menores da língua hebraica composta por somente duas letras nos manuscritos originais, mas mudava completamente o sentido do mandamento. Os tradutores modernos da Bíblia precisam considerar como o diabo ainda está usando esse mesmo modo de corromper a Palavra ao conduzir homens negligentes a corromper gradualmente a Bíblia com suas paráfrases e traduções livres.

Em seguida, em quarto lugar, a serpente contestou os motivos de Deus por negar o fruto dessa única árvore ao homem: “Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal” (Gênesis 3:5). O próprio nome “diabo” significa “difamador”, e é isso o que o diabo faz; ele difama Deus ao homem, conforme ele fez aqui, então ele difama os homens salvos a Deus, conforme fez em Jó 1:9 11; 2:4 5. Para Eva, Satanás difamou Deus, e afirmou que o único motivo de Deus ao negar a eles o fruto dessa árvore era impedi-los de se tornarem como Ele: “Deus sabe que… sereis como Deus” (palavra hebraica Elohim = o Deus Triúno). Ele fez com que os motivos de Deus para negar essa única coisa a eles fossem totalmente egoístas, pois se ele puder fazer Deus parecer egoísta, ele poderá dar alguma desculpa aparente ao homem para agir de modo egoísta.

Em quinto lugar, a serpente apelou para as três vias principais de tentação ao incitar à rebelião. João declara que “tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo” (1 João 2:16). Quase todas as tentações vêm mediante umas dessas três vias, e assim foi com Eva. “E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer” (Gênesis 3:6), — aí estava a concupiscência da carne — “e agradável aos olhos” — a concupiscência dos olhos — “e árvore desejável para dar entendimento” — o orgulho da vida — “tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela” Foi com essas mesmas três vias que Acã foi levado a pecar (Josué 7); essas três coisas participaram no pecado de Davi com Bate-Seba (2 Samuel 11); e essas três vias são todas proeminentes na tentação de Cristo no deserto (Mateus 4). Parece bem provável que poderia-se categorizar qualquer tentação sob uma dessas três formas de tentação.

Em sexto lugar, essa tentação que a serpente apresentou para Eva era de natureza muito semelhante à natureza mediante a qual o próprio Lúcifer havia caído; ele incitou rebelião através de uma ambição profana de ser como o próprio Deus (Gênesis 3:5), e ele expressou sua própria ambição profana desse mesmo jeito: “E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte. Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo” (Isaías 14:13-14).

Ao incitar o primeiro casal a se rebelar, a serpente usou um pouco de verdade, pois a falsidade pura apresenta pouca tentação, pois é vista em toda a sua feiúra excessiva, mas se incluir um pouco de verdade, o homem se justificará e cairá presa fácil à tentação. Se Adão, em seu estado de inocência, caiu nesse pecado sabendo plenamente que era pecado, conforme assim logo veremos, então é de pouco maravilhar que o homem em seu presente estado caído ceda tão fácil às seduções do maligno quando lhe são apresentadas de forma tão atraente.

Entretanto, uma coisa é ser tentado, e outra bem diferente é ceder à tentação, e não se deve confundir essas duas coisas, pois está escrito: “Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam” (Tiago 1:12). Uma tentação é simplesmente uma prova, e se torna uma bênção para quem está sendo tentado, quando ele não cede a ela; só se torna pecado quando se cede à tentação, conforme está escrito: “Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” (Tiago 1:14-15). Assim, deve-se reconhecer que todas as forças do diabo no mundo não conseguem vencer contra as fortificações da alma do homem e tomá-las, a menos que o homem primeiro abra a porta do lado de dentro. Portanto, isso nos leva a considerar:

III. A REVOLTA INDUZIDA.

Bem disse alguém: “O pecado é a declaração do homem da sua independência de Deus.” Na verdade, em análise final tudo se resume a isso. É simplesmente uma questão da teimosia e egocentrismo do homem, em vez de submissão à vontade de Deus e ao mandamento de Deus. Conforme já dissemos, todos os demônios do diabo não poderiam forçar o homem a pecar; o diabo de fato o incitou a pecar, mas foi uma transgressão voluntária do homem, pela qual apenas ele tem de dar contas no tribunal final diante de Deus.

Mas das duas pessoas, a maioria quer fazer de Eva a mais culpada. É assim principalmente entre aqueles cujas mães, por sua maldade ou hipocrisia, lhes deram um suposto motivo para desrespeitar as mulheres em geral, ou até odiá-las. Mas as Escrituras não estão de acordo, pois mostram que a culpa maior foi de Adão, e por várias razões.

Em primeiro lugar, Eva foi enganada nesse assunto que, embora não a desculpe, pelo menos atenua sua culpa. Eva não havia recebido esse mandamento diretamente de Deus, mas o havia recebido pela palavra da boca de Adão; como conseqüência, ela não entendia tudo o que estava envolvido nas restrições acerca da árvore do conhecimento do bem e do mal. Em resposta à pergunta da serpente quanto a se eles poderiam comer de todas as árvores do jardim, ela disse que essa árvore específica lhes havia sido negada, mas note o motivo que ela deu para isso: “Disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais” (Gênesis 3:3). Aí, ela fez um acréscimo ao mandamento de Deus “nem nele tocareis”, que não fazia parte do mandamento original. Ao mesmo tempo, ela reduziu a pena de morte no mandamento original, a só uma possibilidade de morte: “para que não morrais” Obviamente, então ela tinha inventado desculpas para a questão toda, e havia concluído que Deus havia restringido essa árvore específica por causa de seus possíveis efeitos venenosos sobre eles, e a possibilidade de morte para eles por comer de seu fruto. Note o contraste entre o mandamento de Deus… “certamente morrerás” (Gênesis 2:17), e a interpretação de Eva acerca do mandamento: “para que não morrais” (Gênesis 3:3). Se assim é, então dá para entender facilmente como ela foi presa fácil ao engano da serpente, principalmente se ela a viu comer do fruto da árvore sem nenhum efeito maléfico, conforme parece estar indicado que ela fez em Gênesis 3:6: “E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer…”

Em nossa própria época observamos essa mesma forma de tentação se tornando bem predominante em que muitas jovens justificam as relações sexuais antes do casamento na base de que o mandamento original de se abster era simplesmente uma precaução para que as mulheres não concebessem filhos fora do casamento, mas que com a invenção de tantos dispositivos anticoncepcionais, reduziu-se esse perigo ao mínimo, e conseqüentemente o mandamento não mais está em vigor. Mas assim como as restrições que Deus impôs ao redor dessa árvore no Éden eram provas da obediência do homem que nenhuma quantidade de raciocínio poderia remover, assim também a Lei Moral não pode ser enfraquecida pelos homens ímpios.

Em segundo lugar, Adão foi o mais culpado dos dois porque ele pecou deliberadamente, sabendo plenamente de tudo o que estava envolvido em seu ato: “E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão” (1 Timóteo 2:14). Não há como negar que Eva transgrediu, mas ela foi enganada e levada a pecar, algo que não se podia dizer de Adão, pois ele entrou nesse pecado com pleno conhecimento, como diz B. H. Carroll:

Ele não foi enganado. Ele sabia o que Deus havia dito e que o que o diabo sugeriu para Eva era o que Deus não tinha dito. Ele cria que se ele comesse desse fruto significava morte. Ele nunca duvidou da palavra de Deus. Mas ele deliberadamente comeu desse fruto porque a mulher assim o pediu. Inquestionavelmente, o pecado de Adão foi maior do que o pecado de Eva, e a morte que reinou sobre este mundo não veio porque Eva pecou; não pense isso. Veio porque Adão pecou. A raça humana não caiu em Eva. Eles se recuperaram em Eva mediante o Salvador que é semente dela, mas não do homem. Caímos em Adão. Ele não tinha nenhuma desculpa qualquer. Ele preferiu a mulher a Deus; essa foi a desculpa dele. — An Interpretation of the English Bible (Uma Interpretação da Bíblia em Inglês), Vol. I, pp. 105 106. Broadman Press, Nashville, 1947.

Logo que Eva comeu esse fruto, ela se colocou sob a maldição da morte espiritual, e Adão não podia agüentar ficar separado dela, então ele escolheu de modo semelhante comer do fruto proibido e morrer com ela; ele preferiu sua esposa a seu Deus. Quantas pessoas de modo igual permitam membros de sua família ter a preeminência sobre a devida fidelidade a Deus.

Mas em terceiro lugar, Adão foi o mais culpado dos dois, porque ele poderia ter usado sua autoridade para intervir sobre sua esposa em qualquer momento dessa transação toda, e tê-la impedido de comer do fruto proibido, e se tornar uma criatura caída. Adão não apareceu ali simplesmente depois que toda a tentação já havia ocorrido, e Eva e a serpente não o procuraram depois que tudo estava terminado; Adão estava ali em silencio, durante a situação inteira, observando sua esposa sendo tentada, enganada e morrer espiritualmente, pois quando Eva havia comido desse fruto proibido, ela “deu também a seu marido, e ele comeu com ela” (Gênesis 3:6). É bem difícil justificar Adão de algum jeito quando consideramos todos esses fatores, pois ele foi covarde e sem princípios, para dizer no mínimo, ao permitir que sua esposa entrasse na encrenca em que ela estava sem nenhuma palavra de aviso ou admoestação. Contudo, o pior é que ele tentou passar a culpa para Eva, e por insinuação a Deus, que havia lhe dado Eva: “Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi” (Gênesis 3:12). Desde esse primeiro pecado na raça humana, o homem parece ter uma fraqueza inata de sempre tentar culpar alguém ou algo que não seja a si mesmo por seus pecados, mas isso nunca funciona, pois o velho ditado é: “Cada um por si.”

Em quarto lugar, a culpa de Adão era maior porque ele permanecia, para com seus descendentes, num relacionamento diferente do que estava Eva, pois embora Eva fosse a “mãe de todos os viventes” (Gênesis 3:20), porém Adão era o cabeça natural de toda a raça humana, e além de ser o progenitor de todos os homens, ele também representava cada um de seus descendentes na transgressão. Pois é evidente que o pecado de Adão foi imputado a todos os seus descendentes, pois está escrito: “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram”, (Romanos 5:12); e de novo: “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” (Romanos 5:19). “Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” (1 Coríntios 15:21-22) W. G. T. Shedd observou com relação ao texto em Romanos 5:12:

Esse pecado é imputado à união que o cometeu, é parte natural e integral dessa união e é propagado a partir dessa união. Conseqüentemente, todos os detalhes com relação ao pecado que se aplicam à união ou natureza comum se aplicam igualmente e rigorosamente a cada parte individual dela. — Dogmatic Theology (Teologia Dogmática), Vol. II, p. 43. Zondervan Publishing House, Grand Rapids, sem data.

Havia uma união na raça inteira, e essa união era centrada em Adão, como o cabeça natural da raça. Toda pessoa que já viveu na terra, exceto Cristo, era uma semente em Adão quando ele pecou, e como conseqüência disso todos pecamos em e com Adão, e como conseqüência da natureza depravada que herdamos pela natureza de Adão, todos ratificamos o pecado de Adão de um jeito ou de outro logo que chegamos à idade de prestar contas. J. M. Pendleton observa:

Os filhos apóstatas de Adão muitas vezes culpam seu antepassado apóstata pela desobediência dele, mas eles praticamente a endossam logo que estão em condições de discernir entre o bem e o mal. Eles invariavelmente escolhem o mal e rejeitam o bem. A natureza depravada deles mostra sua depravação em sua preferência dos caminhos de pecado. Eles amam mais as trevas do que a luz. — Christian Doctrines (Doutrinas Cristãs), p. 174. American Baptist Publication Society, Philadelphia, 1878.

Há também verdade na declaração de A. J. Mason de que “Aquilo que por nascimento foi nosso azar se tornou por escolha nossa transgressão” (The Faith of the Gospel [A Fé do Evangelho], p. 117. Rivingtons, London, 1889). Assim, na revolta de Adão, havia muitos efeitos de longo alcance, que não cessaram até hoje, mas diferente das pequenas ondas provocadas por uma pedra que atiramos num lago, as ondas do pecado ficam cada vez maiores com cada geração que passa, de modo que agora se tornaram grandes ondas. Mas esse assunto entra na nossa próxima meditação, que é:

IV. OS RESULTADOS INCORRIDOS.

Conforme já observamos, Adão pecou, não como indivíduo, mas como o cabeça natural da raça humana, pois toda a humanidade estava nele como semente no momento de sua revolta contra Deus, e conseqüentemente, aos olhos de Deus, todos eles tiveram parte em sua transgressão. Que Deus olha para os homens como sendo um com seus pais antes do nascimento deles é evidente a partir de Hebreus 7:9 10: “E, por assim dizer, por meio de Abraão, até Levi, que recebe dízimos, pagou dízimos. Porque ainda ele estava nos lombos de seu pai quando Melquisedeque lhe saiu ao encontro” (Hebreus 7:9-10). O princípio é o mesmo em ambos os casos, exceto que se vê que no caso de Adão todos os seus descendentes estão nele no momento de seu pecado, e estão em estado de culpa com ele. Temos também de recordar que Adão foi o primeiro homem criado, que ele tinha acabado de ser feito, novinho em folha e perfeito, pelas mãos do Criador, e que ele não tinha fragilidades naturais, nenhuma inclinação ao pecado, nem qualquer outra coisa que trabalhasse contra seu caráter santo; mas se, apesar de tudo isso, ele ainda pecou e se rebelou contra Deus, então é certo que todos os seus descendentes, agora possuindo uma natureza caída e depravada, se fossem colocados nas mesmas circunstâncias e situação, pecariam sem demora e com mais certeza.

O primeiro e maior resultado do pecado do homem foi a morte que havia sido ameaçada desde o início por comer do fruto da árvore proibida. No entanto, isso não foi principalmente morte física, embora seja evidente que a morte física é conseqüência desse pecado. O Dr. S. J. Baird bem disse acerca disso:

Que a morte física não era a idéia imediata expressa pela palavra morte na pena da lei é ainda mais evidente a partir de várias considerações. Se esse foi o sentido, nossos pais que pecaram tinham realmente de retornar ao pó no dia da transgressão. A lei era: “No dia em que dela comeres, certamente morrerás” Mas Cristo foi colocado debaixo da lei, “para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo; E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” (Hebreus 2:14-15). Ele “aboliu a morte” (2 Timóteo 1:10); e assegura à enlutada Marta: “Quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu isto?” (João 11:25-26). Contudo, de todos os que então ouviram e creram, e de todas as gerações posteriores que confiaram nessas promessas muito grandes e preciosas, nenhum escapou de voltar ao pó… Como se para marcar com ênfase o fato de que a palavra morte de modo oportuno expressa ira, as Escrituras repudiam seu uso, no caso do povo de Deus. Veja Mateus 9:24; João 11:11; 1 Tessalonicenses 4:14; 5:9 10. — The Elohim Revealed (A Revelação de Elohim), pp. 274 276. Lindsay and Blakiston, Philadelphia, 1860.

Ao comer do fruto da árvore proibida, Adão imediatamente se tornou uma criatura pecadora e caída, que estava debaixo da ira de Deus, e isso parece ser o que quer dizer principalmente a palavra “morte” em Gênesis 3. É verdade que Adão e Eva imediatamente ao comerem do fruto proibido se tornaram mortais, isto é, criaturas que morrem, e é também certo que eles foram julgados espiritualmente mortos até que nascessem de novo pela fé no prometido Redentor, mas a morte ameaçada era a ira de Deus que tem por necessidade de cair sobre todo filho de Adão até que ele seja redimido da queda.

Numerosas outras calamidades resultaram do pecado do homem, e essas encontram-se enumeradas em Gênesis 3; primeira, Deus multiplicou a dor e a concepção da mulher de modo que ela daí em diante concebesse mais frequentemente (Gênesis 3:16), e essa parte da maldição evidentemente envolvia, para a mulher sofrimento, conforme sugere a palavra “dor” Mas isso também seria uma maldição sobre o homem, pois a maioria dos homens sofre mentalmente quando vê a esposa sofrendo fisicamente.

Segunda, a mulher foi subordinada ao homem de um jeito e grau diferente do que era inerente na criação (1 Timóteo 2:12 13; 1 Coríntios 11:8 9). Não se sabe exatamente o que se quer dizer com “o teu desejo será para o teu marido” (Gênesis 3:16), mas é óbvio que como conseqüência do pecado de Adão e Eva, seu relacionamento original foi de tal maneira atrapalhado que não era mais a bênção que era antes da queda.

Terceira, a própria terra estava amaldiçoada, de modo que dali em diante já não tinha disposição de dar seu fruto, e esse fruto só viria em resposta aos cansativos trabalhos do homem na lavoura. “…maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida” (Gênesis 3:17). Desde o passado até o momento presente, essa mesma condição continua inalterada, e continuará desse jeito até que a própria terra seja redimida junto com o corpo do homem. “Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, Na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora. E não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo” (Romanos 8:20-23).

Quarta, a queda do homem trouxe como conseqüência a dor — dor para a mulher em sua esfera de vida (Gênesis 3:16), e dor para o homem em sua esfera de vida (Gênesis 3:17). Antes de pecarem, nem Adão nem Eva tinham em momento algum chorado, nem tinham seus corações sofrido de tristeza e pesar, mas depois de pecarem, essa condição se tornaria uma experiência de vida permanente com breves pausas ocasionais. Doença, pecado, morte, desapontamento, privação e muitas outras coisas tornam essa vida atual uma vida de muita tristeza no coração.

Quinta, como conseqüência da maldição sobre o solo, haveria o perigo constante de frustração na tentativa do homem de arrancar da terra indisposta seu meio de sustento de vida. “Espinhos, e cardos também, te produzirá” (Gênesis 3:18a). Sem dúvida essa maldição não estava restrita só à ocupação da lavoura, mas tem aplicação a todas as ocupações. Contudo, em nenhuma outra ocupação essa maldição é mais evidente do que na lavoura, pois todas as boas colheitas têm de receber todo o cuidado a fim de que produzam, enquanto há a batalha constante contra todos os tipos de ervas daninhas, que sempre estão florescendo e se reproduzindo de forma extraordinária, sufocando as plantas boas.

Sexta, o trabalho do homem seria cansativo e desagradável a sua existência terrena inteira (Gênesis 3:19): “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” Nunca foi a intenção de Deus que o homem ficasse ocioso, e por esse motivo até mesmo antes da queda, o homem tinha a tarefa de cultivar o jardim (Gênesis 2:15), e mesmo depois que a terra tiver sido redimida e purificada de todas devastações de pecado, o homem estará ainda ocupado servindo Deus (Apocalipse 22:3), mas isso é uma disparidade desapontante do trabalho cansativo que é o destino da humanidade caída por causa da maldição.

Sétimo, a morte física foi conseqüência da maldição, pois está escrito: “…até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” (Gênesis 3:19). A morte é a conseqüência natural do pecado, e o segue certamente, exatamente como escreve Tiago: “Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” (Tiago 1:15). A morte física não é a pior parte da maldição, mas é um lembrete muitíssimo claro e constante ao homem de sua condição caída.

Numa palavra, o caos foi conseqüência do pecado e queda de Adão, pois não só ele atirou sua própria descendência à ruína, mas também trouxe devastação à criação inteira. No entanto, há uma bendita esperança, pois notamos finalmente:

V. A INTERVENÇÃO DA REDENÇÃO.

Por seu pecado o homem mereceu a morte eterna, mas Deus em Sua graça e misericórdia planejou a redenção; isso e mais, Ele a supriu antes da fundação do mundo. A queda do homem não pegou Deus de surpresa, pois a provisão da redenção do homem foi feita antes que o homem chegasse a existir, e assim antes que surgisse a necessidade. Assim está escrito que Cristo é “o Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” (Apocalipse 13:8). Não só isso, mas também está escrito que “…nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Efésios 1:4).

A provisão de Deus envolvendo redenção antedata a existência do homem, e também a sua necessidade, mas foi proclamada imediatamente quando surgiu a necessidade, pois a primeira promessa acerca do Redentor que viria se registra em Gênesis 3:15: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”

Mas não só houve a proclamação de uma provisão de redenção, mas também houve a provisão de um lugar de adoração em que Deus se encontraria com o homem e aceitaria sua oferta: “E havendo lançado fora o homem, pós querubins ao oriente do jardim do Éden, e uma espada inflamada que andava ao redor, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gênesis 3:24). Os querubins simbolizam a presença de Deus, e o lugar em que Ele se encontraria com o homem, conforme está escrito: “E ali virei a ti, e falarei contigo de cima do propiciatório, do meio dos dois querubins (que estão sobre a arca do testemunho)…” (Êxodo 25:22).

Vamos entender que imediatamente depois da queda do homem a graça interveio. Primeiro, com a promessa de um Redentor que destruiria as obras do diabo. Segundo, com uma veste simbolizando a justiça de Cristo. Terceiro, com um propiciatório indicando o método pelo qual se poderia se aproximar de Deus para obter salvação. Desse tempo em diante até a época do dilúvio esse propiciatório está a leste do jardim e quem quiser ter parte na árvore da vida e viver para sempre tem de ir até Deus onde ele habita entre os querubins, onde o Shekinah simboliza sua presença, e para que possamos só nos achegar a Ele no sangue de uma expiação. — B. H. Carroll, An Interpret¬ation of the English Bible (Uma Interpretação da Bíblia em Inglês), Vol. I, p. 112. Broadman Press, Nashville, 1947.

Que uma redenção foi realmente suprida para Adão e Eva é completamente certa a partir da representação simbólica quando Deus lhes supriu veste para cobrir a nudez deles, matando animais e tirando suas peles: “E fez o SENHOR Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu” (Gênesis 3:21). As Escrituras utilizam a nudez bem comumente como símbolo de pecaminosidade ou falta de justiça, enquanto a provisão de vestes simboliza a imputação da justiça de outro para um pecador. O fato de que essas vestes eram peles de animais indica que a fim de que se cobrisse a injustiça do homem, outro tinha de morrer em seu lugar, e assim apresenta a doutrina da substituição. O fato de que o próprio Deus supriu essa veste para Adão e Eva mostra que Deus Se agradou a suprir o Substituto com cuja morte o homem poderia ser perdoado.

Esse versículo nos dá um quadro típico da salvação de um pecador. Foi o primeiro sermão do Evangelho, pregado pelo próprio Deus, não em palavras, mas em símbolo e ação. Foi a apresentação do caminho pelo qual uma criatura pecadora poderia retornar para e se aproximar ao seu Criador santo. Foi a declaração inicial do fato fundamental de que “sem derramamento de sangue não há remissão” Foi uma bendita ilustração de substituição — o inocente morrendo no lugar do culpado. — A. W. Pink, Gleanings in Gênesis (Coletâneas de Gênesis), p. 44. Moody Press, Chicago, 1922.

O homem, por seu pecado, se tornou uma criatura caída e totalmente depravada, e assim levou a maldição que havia sido declarada com relação à transgressão do mandamento original de Deus. Ele mereceu somente o inferno, e jamais poderia por suas próprias obras ser outra coisa, de modo que se ele chegasse a ser redimido, tinha de ser por graça — isto é, totalmente sem levar em consideração as virtudes por parte dele, e é assim as Escrituras representam universalmente a obtenção da salvação — pela graça. Mas a própria redenção não é pela graça, pois foi Cristo quem a realizou, ao pagar o preço total pelo resgate do homem da maldição da lei. Aliás, “redimir” significa “comprar do mercado de escravos”, ou “libertar por pagar o preço” A redenção é a grande realização de Cristo para resgatar o homem da queda, enquanto a salvação é o grande resultado disso que se dá ao homem caído gratuitamente. Assim, o homem não tem nenhuma necessidade de tentar fazer uma redenção para si pelas seguintes razões: (1) É impossível para ele em sua condição caída e depravada fazer qualquer coisa que seria aceitável a Deus. (2) Cristo já realizou tudo o que era necessário para a redenção do homem. (3) A tentativa de realizar uma redenção para si é negar ou a eficácia ou a disponibilidade da redenção de Cristo, e assim apresentar uma afronta ao Pai também. Soluciona-se isso de forma bem simples: o homem tem de ou gratamente aceitar a redenção que se fez, ou ficar sem redenção e entrar na eternidade sem Cristo. Não há alternativa.

A redenção é parte daquele assunto amplo e muito grande, a expiação, ao qual esperamos dar atenção num estudo subseqüente, e assim por ora nos contentamos em dar apenas um esboço sugestivo de redenção para o leitor estudar mais. As Escrituras apresentam as coisas seguintes acerca da redenção: I. A Redenção Proposta. II. A Redenção Prefigurada (nos sacrifícios do Antigo Testamento). III. A Redenção Comprada. IV. A Redenção Pregada. V. A Redenção Aperfeiçoada (completada no Arrebatamento). VI. A Redenção Louvada (a canção dos santos na eternidade).

O pecado original do homem foi um pecado de toda a humanidade, e atirou a raça humana inteira a um estado de caos do qual só havia recuperação mediante a sabedoria e operação de Deus, mas a verdade bendita é que o homem ganha mais com a redenção que está em Cristo Jesus, do que ele perdeu com sua queda em Adão. Contudo, isso ele ganha não por suas próprias obras ou esforços, mas exclusivamente pelo favor imerecido e imerecível de Deus. Todo louvor, então, a Deus e a Ele somente.

 

Autor: Pr Davis W. Huckabee
Fonte: www.PalavraPrudente.com.br