Cap 10 - Doutrina Forte

AS DUAS NATUREZAS DO CRISTÃO

CAPÍTULO 10

AS DUAS NATUREZAS NO CRISTÃO

Há muitos cristãos hoje que não percebem que têm dentro de si duas naturezas diferentes, e conseqüentemente, sofrem grande confusão com sua luta interior; até mesmo Paulo, por muito que fosse grande, tinha também de lutar com essas duas naturezas, e se fosse assim com ele, então assim também será conosco. Todo cristão verdadeiro tem essa mesma experiência. Ouça o testemunho de Paulo: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim.” (Romanos 7:18-20)

A incapacidade de reconhecer e distinguir entre essas duas naturezas é a base de muitas das heresias modernas. Para citar apenas algumas: (1) A ideia de cair da graça se origina com essa luta, pois quando a natureza carnal do cristão cai em pecado, o mundo presume que o pecado é do homem todo, e que consequentemente ele tem de estar perdido novamente. O mundo, ao não distinguir entre as duas naturezas no homem, não compreende que a parte do homem que nasceu de novo não pode pecar, e assim seu futuro nunca está em perigo, e que é apenas a velha natureza física carnal e não renovada do cristão que peca.

(2) A ideia de obras para a salvação encontra solo fértil nessa noção equivocada, pois muitos, não percebendo a verdade da natureza espiritual que é a mais importante do cristão, gastam todo o seu tempo tentando reformar a velha natureza carnal e fazê-la se parecer com um cristão. Naturalmente, eles têm um trabalho que toma todo o seu tempo para reformar a carne, e embora se orgulhem de modo considerável por realizar algumas reformas, porém jamais chegam de fato ao problema real — sua natureza espiritual morta não dá para ser vivificada por obras.

(3) Ignorar essas duas naturezas também tende a promover uma visão fatalista da santificação na pessoa verdadeiramente salva, pois se ela não compreende que é sua natureza carnal não redimida que está lhe dando todo problema, ela está apta a clamar: “De que adiante lutar contra o pecado? Estou sempre sendo tentado, e fico recaindo no pecado”. Ela pode não perceber que embora a velha natureza carnal esteja constantemente se esforçando de toda maneira para pecar, porém sua natureza espiritual está constantemente mais forte e aprendendo mais e mais como vencer a tentação que se rodeia.

Um quadro bem interessante nos é apresentado dessas duas naturezas em Gênesis 25:20 23: “E era Isaque da idade de quarenta anos, quando tomou por mulher a Rebeca, filha de Betuel, arameu de Padã-Arã, irmã de Labão, arameu. E Isaque orou insistentemente ao SENHOR por sua mulher, porquanto era estéril; e o SENHOR ouviu as suas orações, e Rebeca sua mulher concebeu. E os filhos lutavam dentro dela; então disse: Se assim é, por que sou eu assim? E foi perguntar ao SENHOR. E o SENHOR lhe disse: Duas nações há no teu ventre, e dois povos se dividirão das tuas entranhas, e um povo será mais forte do que o outro povo, e o maior servirá ao menor”.

É claro que essa passagem tem referência histórica aos dois filhos que foram concebidos dentro de Rebeca, e sem querer fazer pouco caso do aspecto histórico disso, notaríamos que nenhuma passagem do Antigo Testamento descreve de modo tão explícito as duas naturezas no cristão como essa. Muitas vezes os personagens do Antigo Testamento simbolizavam verdades, e tal é claramente o caso, que agora cremos está diante de nós. Quantas vezes, quando nos deparamos com a luta entre nossas duas naturezas, clamamos como Rebeca clamou, e dizemos “Se assim é (por exemplo, se sou realmente salvo), por que sou eu assim?” Rebeca não conseguia entender o motivo, se o nascimento das crianças era em cumprimento das promessas de Deus, por que ela deveria experimentar a luta entre eles, e assim ela foi inquirir do Senhor. Assim também devemos fazer; nem a ciência, nem a filosofia, nem a psiquiatria, nem mesmo a religião que não segue a Palavra de Deus, podem de modo adequado explicar a guerra entre as duas naturezas no cristão.

Este escritor, depois de haver consultado mais de vinte livros de teologia, viu que a maioria não tratava desse assunto importante de forma alguma, e os que faziam referência, só mencionavam brevemente essa verdade, e geralmente só quando tinha a ver com santificação. Mas a importância do assunto é grande em vista do fato de que tem relação com a vida cristã prática. O cristão precisa compreender que ele tem duas naturezas distintas para que não se desanime com o pecado em sua vida. Contudo, ele não deve pensar que está por isso isento da responsabilidade pelos pecados de sua natureza mais baixa. E. Y. Mullins diz depois de se referir a Gálatas 5:17:

Assim, há dois princípios operando no cristão, onde o princípio mais elevado tem de subjugar e gradualmente destruir o princípio mais baixo. É um erro pensar nessas “duas naturezas” do cristão como se fossem naturezas físicas colocadas lado a lado como dois corpos materiais que estão completamente desconectados, de modo que um homem poderia se isentar de responsabilidade pelo pecado afirmando, “Não fui eu que fiz, mas o pecado que habita em mim”. O cristão precisa constantemente orar pedindo perdão porque ele é responsável. Ele não é duas pessoas, mas uma. Ele não é um Dr. Jekyll e um Sr. Hyde, que agem de modo independente um do outro. Ele se acha, embora justificado e regenerado, ainda constantemente importunado pelo que sobrou do “velho homem”. Ele tem de “se despir” dessas sobras com atos repetidos da vontade até que sejam inteiramente extintos e ele colha a recompensa da conquista. Ele ganha a coroa da vitória (Apocalipse 3:11, 21; Tiago 1:12). —The Christian Religion In Its Doc¬trinal Expression [A Religião Cristã em Sua Expressão Doutrinária], pp. 421 422. The Judson Press, Philadelphia, 1932.

A partir do texto em Gênesis 25:20 23 achamos cinco declarações que, embora se apliquem historicamente aos filhos de Isaque e Rebeca, se aplicam também de modo simbólico às duas naturezas do filho de Deus. Vamos considerar essas declarações:

I. HÁ DUAS ESPÉCIES DE PESSOAS.

Assim como Jacó e Esaú eram tão diferentes, assim também as duas naturezas no cristão são completamente diferentes. As Escrituras declaram que há uma diferença grande entre a carne e a natureza espiritual; cada uma é resultado de um nascimento: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito”. (João 3:6) A carne se origina por meio do primeiro nascimento — por reprodução humana normal — enquanto a natureza espiritual se origina por meio da regeneração — o segundo nascimento. Assim, revela-se que o homem da carne — o homem natural — não é pronto para ir ao céu até que primeiramente passe por uma mudança radical — um renascimento — pelo qual ele vem a possuir uma natureza espiritual. Mas a partir do momento desse renascimento, o cristão será puxado para duas direções diferentes por causa das duas origens diferentes dessas duas naturezas. Dá para ilustrar isso com a história do índio convertido que recebeu troco demais quando estava no posto comercial. No dia seguinte ele foi devolver o que estava acima do valor estipulado. O dono do posto comercial lhe perguntou o motivo por que ele não ficou com o dinheiro a mais, ao que o índio respondeu: “Em mim há dois índios; um bom, um mau. Mau índio diz: ‘Fique com o dinheiro’. Bom índio diz: ‘Devolva-o’. Eles lutam a noite inteira. Não consigo dormir. Bom índio finalmente ganha”.

O que muitas pessoas chamam de consciência é realmente a voz do homem renovado no cristão chamando-o a fazer o que ele tem de fazer, embora seu desejo de fazer o contrário seja simplesmente a velha natureza da carne tentando fazer o que quer. Paulo tinha essa mesma luta, e a expressa quando diz: “Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros.” (Romanos 7:21-23).

Ele aí usa a palavra “lei” no sentido de um princípio ou regra de ação, e ele declara que o homem interior é governando pela lei de Deus, enquanto os membros do corpo são governados pela lei do pecado, e que esse princípio que governa a carne guerreia contra a lei de Deus em sua mente, e tenta levá-lo a ser um escravo ao pecado. Pessoas diferentes têm leis diferentes, e assim é aqui; essas duas naturezas diferentes têm disposições diferentes ou leis de governo, cada uma das quais corresponde à natureza. O homem interior do espírito no cristão sempre deleita-se nas coisas de Deus, enquanto o homem velho e exterior da carne sempre deleita-se nas coisas da carne.

O que explica isso é a origem de cada uma; a natureza carnal tem a sua existência em Adão, e consequentemente é da terra, terreno. A natureza espiritual tem como origem de sua existência o novo nascimento do segundo Adão — o Senhor Jesus Cristo — e assim é do céu: “O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o Senhor, é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais.” (1 Coríntios 15:47-48). Em todas as partes das Escrituras, o céu e a terra são representados como opostos. Portanto, naturalmente essas duas naturezas que têm sua origem respectivamente na terra e no céu vão estar em oposição uma à outra. Com duas naturezas tão diferentes uma da outra, e assim mutuamente antagônicas, é fácil de perceber que haja guerra constante ocorrendo no crente.

Dentro do filho de Deus coexistem o velho homem e o novo, a carne e o Espírito. O velho homem, a carne, embora crucificado e expirando, não está realmente morto, mas retém uma vitalidade prolongada suficiente para induzir contínua prática do pecado; de modo que a simulação de liberdade do pecado real seria mentira. Mas, por outro lado, os pecados assim ocorrendo caracterizam aquela velha natureza carnal e velha que está condenada e morrendo; essas características não pertencem ao novo homem. Pelo contrário, o novo homem, interior — o “eu mesmo” — tem prazer na lei de Deus, não permite e não pode cometer pecado: “De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum”. (Romanos 7:17-18) Assim, no homem renovado, embora o pecado, e somente o pecado, permaneça nos membros — a carne — seu coração é o templo do Espírito Santo. O homem interior tem prazer na lei de Deus, e odeia as obras da carne; de modo que, se diz verdadeiramente que ele não pode pecar. Pelo contrário, até os pecados dos quais sua carne é culpada, e pelos quais está condenada e morrendo, ele não permite; e, embora ele veja uma lei em seus membros guerreando contra a lei de sua mente, e levando-o em cativeiro à lei do pecado, essa lei em seus membros é, e sentida como, uma força hostil, da qual a alma se revolta — em relação à qual, seu constante clamor é: “Miserável homem que eu sou! quem me livrará?” Contra essa força, a alma se abriga no poder abundante do Redentor: “Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor”. — Romanos 7:21-23 — S.J. Baird, The Elohim Revealed [A Revelação de Elohim], p. 651. Lindsay and Blakiston, Philadelphia, 1860.

II. AS DUAS SERÃO EM INIMIZADE.

A partir do próprio nascimento — aliás, mesmo antes de seu nascimento — Jacó e Esaú não conseguiam se dar bem, pois está escrito: “E os filhos lutavam dentro dela… E depois saiu o seu irmão, agarrada sua mão ao calcanhar de Esaú”. (Gênesis 25:22, 26) Jacó e Esaú tinham personalidades radicalmente diferentes, e assim a perspectiva deles acerca da vida era diferente; por causa dessas diferenças, eles eram inimigos amargos a vida inteira até se separarem. Eles estavam em constante competição exatamente porque cada um deles desejava possuir e dominar as mesmas coisas; não poderia ser de outro jeito.

De forma semelhante, há uma inimizade irreconciliável entre as naturezas espirituais e carnais do crente; elas também desejam possuir e dominar o cristão inteiro, e pelo fato de que só uma delas pode ser a força dominante no crente, haverá antagonismo constante entre elas enquanto ocuparem o mesmo templo de barro. Primeiro Coríntios 2:14 15 explica em parte esse antagonismo mútuo: “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido”. Há uma rebelião por parte do homem carnal contra todas as coisas espirituais, de modo que ele não as receberá pois ele não pode entendê-las e conhecê-las porque só são conhecidas por meio da natureza espiritual do homem conforme esta é iluminada pelo Espírito Santo. Não só isso, mas revela-se que há um antagonismo real da mente carnal contra Deus. Portanto, qualquer coisa que se alinha com Deus, como é a natureza espiritual do crente, se coloca sob a mesma inimizade que se dirige contra Deus. “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser”. (Romanos 8:7)

A “inclinação carnal” nesse versículo tem referência ao “velho homem”, a natureza caída no cristão, que ainda está em escravidão ao pecado, E ADORA ESSE ESTADO DE ESCRAVIDÃO. Portanto, odeia todas as tentativas de livrá-la dessa escravidão que ela própria se impôs e escolheu. A nova natureza, tendo nascido de cima, naturalmente tem prazer nas coisas de cima, e seu amor está nessa direção. Essas duas naturezas no cristão pois o puxarão para direções opostas, e ele será levado a perguntar: “Se sou de fato salvo, qual é o sentido dessa guerra interior?”

Essa inimizade entre as duas naturezas vem declarada em Gálatas 5:16 18: “Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne. Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis. Mas, se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da lei”. O texto grego geralmente não usa letras maiúsculas, mas o contexto deve sempre determinar se a palavra grega pneuma se refere ao Espírito Santo de Deus, ou ao espírito humano do homem. Ocasionalmente, como no caso ora diante de nós, pode haver referência dupla. Certamente é verdade que se estamos andando no Espírito Santo e sendo dirigidos por Ele, nós não cumpriremos os desejos lascivos da carne, mas é também verdade que o Espírito Santo opera por meio do espírito humano renovado para cumprir essa caminhada espiritual. E nessa batalha espiritual que é travada no cristão, é o espírito renovado, energizado pela presença do Espírito Santo, que é tão contrário à carne, e que é seu inimigo nessa guerra. Se o cristão for conduzido e dominado por essa natureza espiritual renovada, ele será vitorioso sobre a velha natureza da carne; se, por outro lado, ele der total liberdade para sua natureza carnal, e alimentá-la com as lascívias deste mundo, ela vai dominá-lo. Em ambos os casos, só dá para haver antagonismo contínuo entre as duas naturezas até que uma ou outra seja morta. Mas na própria natureza do caso, a natureza espiritual tendo nascido de Deus, possui vida eterna, e assim não pode morrer, pois o próprio Deus não pode morrer. Assim, haverá guerra contínua no cristão até a morte do corpo, a velha natureza, ou até que o cristão seja redimido na volta do Senhor Jesus do céu.

Esse texto de Gálatas 5:16 18 coloca diante de nós o único caminho de sucesso e felicidade na guerra entre as duas naturezas; a velha natureza tem de ser subjugada completamente diante da nova natureza. Qualquer outro recurso levará a uma morte judicial forçada para o crente, para que sua natureza espiritual não seja contaminada com o pecado (1 Coríntios 5:5).

III. ELES SERÃO SEPARADOS.

Esses dois filhos gêmeos de Isaque e Rebeca estavam juntos apenas enquanto estavam no ventre de sua mãe; esse símbolo se desfaz após o nascimento, pois nenhum símbolo chega a dar um quadro perfeito; se desse, deixaria de ser símbolo, e se tornaria realidade. As duas naturezas estão juntas no cristão apenas enquanto sua natureza carnal está unida à sua natureza espiritual, ou, em outras palavras, até a morte. Portanto, por tanto tempo o cristão terá uma guerra contínua dentro de si mesmo, como Paulo declarou de si mesmo: “Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço. E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim”. (Romanos 7:14-17) Graças a Deus, temos a certeza da separação dessas duas naturezas depois de um tempo, mas durante o intervalo entre então e agora, manifestamos por nossas ações qual delas nós mais favorecemos. Pois não é que Deus poderia nos livrar de nossa natureza carnal pecadora logo que somos salvos, mas somos deixados na terra para lutar com o pecado por um tempo por meio de aflições que provam nosso amor pelo Senhor. Essa vida é o tempo das provas; é o tempo de provas para salvação, e subsequentemente para os salvos um tempo de teste para santificação e serviço.

Nenhum de nós sabe quanto tempo teremos de lutar com essas duas naturezas antes que Deus as separe na morte; só sabemos que temos a responsabilidade de subjugar a natureza inferior debaixo da natureza mais elevada por meio do poder de Cristo enquanto estão juntas. “Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte? Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado”. (Romanos 7:24-25)

Romanos 7:24 se refere a essa separação do corpo que presentemente está numa condição moribunda, e Paulo em outro lugar declara essa mesma coisa quando fala da morte sendo preferível a viver: “Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor”. (2 Coríntios 5:8) “Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor”. (Filipenses 1:23)

A morte é a separação dessas duas naturezas, pois a morte é a separação do corpo da alma e do espírito. O corpo é apenas a casa da natureza espiritual do homem, e é o cúmulo da burrice, então, gastar todo o nosso tempo e esforços ocupados com a casa, e não nos ocuparmos com aquele que habita a casa, mas é isso o que a maioria das pessoas faz. Dão muita atenção ao corpo e seus desejos lascivos, porém nenhuma à alma; mas o corpo na melhor das hipóteses viverá poucos anos antes que volte ao pó da terra, ali para dormir até a ressurreição, mas a natureza espiritual do homem tem de continuar vivendo para sempre num estado consciente em algum lugar.

Há outro lar melhor para o corpo, mesmo enquanto lutamos com suas inclinações pecadoras; o crente tem uma nova casa — corpo — que lhe será dada algum dia, pois ele não é completo num estado sem corpo. Paulo expressou essa esperança quando disse: “Porque sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus. E por isso também gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu”. (2 Coríntios 5:1-2)

O cumprimento dessa esperança será na volta do Senhor Jesus do céu de acordo com a promessa de Filipenses 3:20 21: “Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas”. Assim, a separação das duas naturezas vem a se cumprir somente na morte ou na vinda do Senhor do céu, e até que um ou outro desses eventos ocorra, cada crente terá essa guerra interior, e quanto antes ele compreendê-la, mais cedo ele estará em condições de sujeitar a natureza mais baixa à natureza mais elevada, e com isso viver mais para a glória do Senhor.

IV. UMA SERÁ MAIS FORTE DO QUE A OUTRA.

A promessa de prevalecer foi dada a Jacó, que indicava que Esaú deveria ser o mais fraco dos dois, mas Jacó deixou de reivindicar a promessa que era dele por muitos anos e quando ele exerceu a autoridade, ele recorreu a meios inescrupulosos para realizá-la, e ao agir assim, mostrou-se um homem sem honra. Seu motivo para recorrer a tais meios era por que ele não achava que o poder de Deus era suficiente para realizar Seus propósitos e cumprir Suas promessas. É uma pena, há multidões de crentes nascidos de novo que de forma semelhante recorrem a meios inescrupulosos para alcançar crescimento e desenvolvimento espiritual. Infelizmente, há ainda muitos adeptos da teologia dos gálatas até mesmo entre os melhores crentes, pois eles parecem pensar que a obra que Deus começou o homem tem de completar. “Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne?” (Gálatas 3:3) É isso o que os velhos teólogos de uma geração ou duas atrás chamavam de arminianismo — uma dependência excessiva na força da carne. Essa é a tendência acerca da qual os crentes têm de ser prevenidos sempre, pois Paulo também escreveu à igreja de Filipos: “Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne”. (Filipenses 3:3)

A natureza espiritual do cristão é potencialmente mais poderosa, mas na verdade é assim apenas se ele compreende a força de sua natureza má da carne, e se lança sobre o Senhor em busca de força para vencer a carne; o poder soberano de Deus está à sua disposição, mas ele tem de reivindicá-lo pela fé para que funcione em sua vida; tem de haver um andar em submissão a liderança do Espírito para haver vitória sobre a carne e seus mortais desejos lascivos. “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito. Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte. Porquanto o que era impossível à lei, visto como estava enferma pela carne, Deus, enviando o seu Filho em semelhança da carne do pecado, pelo pecado condenou o pecado na carne; Para que a justiça da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito. Porque os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas os que são segundo o Espírito para as coisas do Espírito. Porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz”. (Romanos 8:1-6)

Uma será mais forte do que a outra, mas qual das duas será? Não dá para ser um empate! Essa é como a estória que se conta de um homem que tinha dois cães, um branco e outro preto. Ele comentou com um amigo que eles constantemente brigavam, e quando o amigo perguntou qual ganhava, ele respondeu que o vitorioso era sempre aquele que ele alimentava melhor. Assim é nesse assunto ora diante de nós; qualquer de nossas duas naturezas que alimentemos melhor será a mais forte e prevalecerá sobre a outra. O cristão tem a capacidade de dar vitória à sua natureza espiritual se ele usar os meios indicados e com isso alimentar sua nova natureza. Se ele negligenciar esses meios, então seu velho homem da carne se alimentará das coisas deste mundo e ficará mais forte. É exatamente como disse Paulo: “Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado [isto é, deixar a velha natureza morrer de fome], mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor. Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, para lhe obedecerdes em suas concupiscências [isto é, quando tem forme das coisas do mundo]; Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniquidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça”. (Romanos 6:11-13)

As frases “considerai-vos”, “não reine”, “nem tampouco apresenteis” e “mas apresentai-vos”, todas mostram que o cristão tem a capacidade de decidir o caminho pelo qual a luta será conduzida; a questão será resolvida de acordo com a natureza que ele decidir alimentar. Como então poderemos alimentar nossa natureza espiritual a fim de garantir que será vitoriosa sobre a carnal? De várias maneiras: (1) Lendo a Palavra de Deus, pois essa é comida de santificação. (2) Ouvindo a pregação e ensino da Palavra. (3) Fazendo a vontade de Deus, pois esse é um meio muito importante de crescimento espiritual. É muito importante de conhecer, mas fazer a vontade de Deus é o lado prático, e é isso o que realmente desenvolve crentes fortes. (4) Andando no Espírito; isto é, sendo conduzidos pelo Espírito Santo, pois Ele jamais conduz em veredas mundanas. (5) Pela oração, pois esse é um meio de comunhão com Deus, e quanto mais comunhão temos com Deus, mais O amamos, e menos atração o pecado terá sobre nós. Há muitos outros, mas a maior parte deles está englobada sob um desses meios acima. Que o crente medite nessas coisas, e sem dúvida muitas outras vias frutíferas de crescimento espiritual lhe serão indicadas.

V. O MAIS VELHO SERVIRÁ O MAIS JOVEM.

Esaú era o primogênito, mas ele não era o primeiro aos olhos de Deus; muito antes do nascimento desses meninos, Deus já amava Jacó (Malaquias 1:2 3), e havia determinado que Esaú lhe seria subordinado. Essa era a ordem que Deus há muito tempo seguia, conforme está escrito: “Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual”. (1 Coríntios 15:46) Muitas vezes vemos essa ordem seguida na Bíblia, pois Caim nasceu primeiro, mas Deus escolheu Abel; Saul veio primeiro como rei de Israel, mas quem Deus escolheu como rei de Israel foi Davi; Adão foi o primeiro homem representativo, mas Cristo foi o segundo Adão, e foi a escolha de Deus.

Assim os gêmeos hebreus representam a mesma verdade no cristão, pois sua natureza carnal é a mais velha das duas naturezas, a natureza espiritual nascendo vários anos mais tarde do que a natureza carnal. Mas apesar dessa prioridade de nascimento Deus decretou que “o mais velho servirá o mais novo”. A carne não consegue conduzir o espírito a oferecer alguma adoração agradável ao Senhor, pois “a mente da carne é inimizade contra Deus; visto que não é sujeita à lei de Deus, nem o pode ser; os que estão sujeitos à carne, não podem agradar a Deus.” (Romanos 8:7-8 Tradução livre da Young’s Literal Translation).

Por outro lado, a carne sob a dominação da natureza espiritual pode ser usada para glorificar a Deus. O corpo físico é uma necessidade absoluta na pregação e ensino da verdade; lábios carnais também oferecem orações, e todos os livros bons que já foram escritos, foram preparados por meio de mentes e mãos físicas. Mas essas coisas foram úteis a Deus somente conforme estavam em absoluta sujeição à natureza espiritual, pois dar à carne o controle só leva à corrupção: “Porque o que semeia na sua carne, da carne ceifará a corrupção”. (Gálatas 6:8)

Mas é nesse ponto que tantas pessoas ficam completamente confusas, e acham que podem proceder com seguranças com base em “sentimentos” carnais, mas na melhor das hipóteses os sentimentos são inconfiáveis, e na pior das hipóteses podem ser absolutamente demoníacos. Muitas vezes o homem perdido objetará que “Sinto que estou tudo bem”, mas isso nada significa além de que ele ignora a horrenda ira que paira sobre ele. Às vezes as pessoas — até mesmo pessoas salvas — enquanto estão em pecado, dirão “Não me incomode; estou feliz”. Tudo isso mostra a tolice de se confiar nos próprios sentimentos carnais em vez de se cumprir, em obediência, os mandamentos de Deus. Martinho Lutero bem declarou como segue:

A IMUTÁVEL PALAVRA DE DEUS

Pois os sentimentos vêm e os sentimentos vão,

E os sentimentos enganam;

Minha garantia é a Palavra de Deus,

Em nada mais vale a pena crer.

Embora meu coração inteiro se sinta condenado

Por falta de algum símbolo doce,

Há Alguém maior do que meu coração

Cuja Palavra não se pode quebrar.

Confiarei na imutável Palavra de Deus

Até que alma e corpo se separem:

Pois, embora todas as coisas passem,

Sua Palavra há de durar para sempre.

O cristão jamais pode organizar sua vida na base de seus sentimentos, pois seus sentimentos são puramente carnais em sua origem, e a carne está em rebelião absoluta contra Deus, e estará até que seja separada do corpo na morte, ou até que Jesus volte para dar um corpo novo. Daí, a natureza carnal no cristão, com todos os seus “sentimentos”, tem sempre de ser mantida em sujeição à natureza espiritual conforme a Palavra de Deus lhe dirige.

CONCLUSÃO.

A doutrina das duas naturezas no crente explica muito dos conflitos e aflições internas do cristão. Reconhecer esse fato, e então constantemente alimentar a natureza espiritual garantirá vitória sobre a carne. Temos sempre de nos lembrar, porém, que tal vitória não será algo que a carne gostará; aliás, tal vitória exige a morte prática da natureza carnal. “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências”. (Gálatas 5:24) “Mortificai, pois, os vossos membros, que estão sobre a terra”. (Colossenses 3:5) Jamais é algo agradável crucificar a natureza carnal, e ela lutará, mesmo nas agonias da morte, até o último minuto, mas tal morte é necessária para um andar certo para com Deus.

Esses fatos sobre as duas naturezas no crente também mostram a tolice de se crer em “cair da graça”, esperando alcançar perfeição moral nesta vida, e pondo qualquer confiança na carne. A carne é completamente pecaminosa, e é diabólica em seus desígnios; apesar disso, pode ser sujeita ao espírito no crente, e obrigada a servir como escrava nas coisas espirituais. Pode ser obrigada a fazer bom serviço assim, mas só se estiver em servidão absoluta ao espírito renovado no crente. Todos os crentes precisam, desesperadamente, conhecer e entender essas coisas, e aplicá-las com todo o coração para a subjugação da carne ao espírito. Que Deus nos ajude a agir assim.

 

Tradução: Julio Severo
Revisão e Edição: Calvin Gardner, 05/2014
Autor: Pr Davis W. Huckabee
Fonte: www.PalavraPrudente.com.br