Cap 12 - Doutrina Forte

ADOÇÃO

Capítulo 12

ADOÇÃO

“Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora. E não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo”. (Romanos 8:22-23)

Aqui é-nos apresentada uma doutrina que uma grande maioria dos cristãos entende mal — não só leigos em média, mas também muitos teólogos não a compreendem de forma adequada. Durante muitos anos, as interpretações comuns dessa doutrina têm deixado este escritor perplexo, e quase todas o deixaram descontente, pois parecia tão óbvio que contradiziam algumas outras doutrinas bem importantes da Bíblia, de forma especial a doutrina do novo nascimento. Compreenda! A doutrina da adoção não é a primeira doutrina que um cristão deve aprender; como também não é uma doutrina que um erro condenará a alma eternamente; por outro lado, a doutrina do novo nascimento é tal doutrina, pois tem a ver com o destino eterno da alma, e estar errado com relação a ela é estar em perigo de condenação eterna. Por esse motivo, temos, de forma bem persistente, de nos apegar à verdade do novo nascimento, e jamais permitir que algo corrompa essa doutrina.

Este escritor desejou por um longo tempo escrever sobre esse assunto, apresentando o que ele cria ser o verdadeiro ensino bíblico sobre ele, mas ele sentia sua própria insuficiência de apresentar ela de forma adequada. Por isso, embora visse o erro na interpretação comum, porém ele hesitava em apresentar o que ele cria ser a interpretação certa. Ao mesmo tempo, ele hesitava em discordar de tantos teólogos grandes e devotos do passado, cujas interpretações dessa doutrina por um lado ou contradizem a doutrina da regeneração, ou então por outro lado fazem com que a adoção e a regeneração sejam idênticas. Para ilustrar isso, citamos declaração do Dr. J. M. Pendleton. Fazemos isso, não só para tentar mostrar me melhor desse grande homem, pois não se questiona sua firmeza geral como teólogo batista, mas a fim de mostrar que até mesmo os melhores homens podem ser enganados por colocar termos extrabíblicos nos termos bíblicos, ou por meio de palavras da Bíblia interpretadas fora do contexto em que aparecem. O Dr. Pendleton diz:

…a adoção espiritual é o ato pelo qual Deus toma aqueles que eram por natureza filhos da ira numa nova relação consigo — uma relação de filho — envolvendo o reconhecimento e tratamento deles como filhos. Eles são distinguidos pelo apelo “filhos e filhas” do “Senhor Todo-Poderoso”. (Veja 2 Coríntios 6:18) — Christian Theology (Teologia Cristã), pp. 290 291. American Baptist Publication Society, Philadelphia, 1878.

Deve-se observar que essa definição poderia quase servir como definição de regeneração, de tão perto que é em sentido. A definição do falecido T. P. Simmons, embora fizesse uma diferença entre adoção e regeneração, está também sujeita a objeções. Em seu grande livro sobre teologia, ele diz:

A adoção é um termo legal. É o resultado imediato da justificação. Não é a mesma coisa que regeneração. A adoção nos torna filhos de Deus legalmente, enquanto a regeneração nos torna filhos de Deus na experiência. A adoção traz uma mera mudança de relação legal. A regeneração muda nossa natureza moral. A adoção tem a ver conosco como filhos espirituais e morais do Diabo por natureza. A regeneração tem a ver consco como aqueles que são por natureza vazios de vida espiritual. — Systematic Study of Bible Doctrine [Estudo Sistemático da Doutrina da Bíblia], p. 280. Associated Publishers, Daytona Beach, 1969.

Todos reconhecemos que não somos naturalmente filhos de Deus; mas pelo novo nascimento somos sobrenaturalmente filhos de Deus, e o fato de que somos pelo novo nascimento filhos de Deus, torna desnecessário qualquer processo legal de adoção. Quem já ouviu falar de alguém adotando por meio de um processo legal uma criança que havia nascido numa família? Contudo, é isso exatamente o que quase todo teólogo sustenta ser a adoção. Os grandes esforços de muitos teólogos para distinguir de forma adequada entre adoção e regeneração só servem para mostrar a confusão que uma perspectiva errada da adoção tem ocasionado. Veja os escritos teológicos de J. P. Boyce, R. L. Dab¬ney, John Dick, F. Turretin, Buchanan, e outros.

O problema todo reside, cremos, no fato de que os homens pegaram o sentido legal da palavra “adoção” e ensinaram o que eles presumiam que a palavra significa, em vez de notar com muito cuidado o que as próprias Escrituras declaram que é o sentido dessa palavra. Que Deus nos conceda entendimento conforme estudamos essa doutrina.

Uma coisa que ajudará nossa compreensão desse assunto é perceber que há uma diferença no que se quer dizer com o termo “filho de Deus [quando adulto]” e “filho de Deus [quando ainda criança]”. Esses termos certamente se referem às mesmas pessoas, exatamente como “discípulo”, “santo”, “crente”, etc., todos se referem às mesmas pessoas, mas os considera com aspectos diferentes. Essa diferença tem a ver com a doutrina que estamos estudando no momento. Observe como Paulo compara o termo “menino” (ou literalmente “bebê”) com “filho” [quando adulto] em Gálatas 4:1 7. O menino, embora no tempo certo herdará tudo o que é de seu pai e seja dona de tudo, não difere de forma alguma de um mero servo, até chegar à fase adulta e receber a herança. Assim, um “menino [quando ainda criança] de Deus” é qualquer um que tenha experimentado o novo nascimento, mas o “filho [quando adulto] de Deus” é aquele que veio a uma compreensão mais elevada e madura de sua posição espiritual do que um mero menino [quando ainda criança]. É instrutivo observar que a adoção sempre lida com filhos [quando adultos], e jamais com meninos [quando ainda crianças], de modo que se separa em tempo desde a regeneração.

I. A EXPLICAÇÃO COMUM DA ADOÇÃO.

A palavra grega traduzida “adoção” é huiothesia, e aparece apenas em Romanos 8:15,23; 9:4, Gálatas 4:5 e Efésios 1:5. É uma palavra composta formada de huios — “filho”, e thesis — “colocar”. Portanto, seu sentido é “colocar como filho”, “dar a alguém a posição de filho”. Em escritos seculares gregos essa palavra era muitas vezes usada no mesmo sentido que usamos a palavra “adoção”; isto é, aceitar alguém que não era por natureza da família e legalmente recebê-lo e tratá-lo como filho por nascimento. Essa era uma prática comum no mundo antigo, porém não há evidência de que isso chegou a ser praticado entre os judeus em sua própria terra. Contudo, muitos deles conheceram essa prática por meio de seu contato com outras nações, e o bebê Moisés foi adotado pela filha de faraó (Êxodo 2:10), e Mordecai adotou sua prima Ester (Ester 2:7).

Entretanto, embora muitas pessoas falem dos crentes como adotados na família de Deus e do fato de se tornarem filhos de Deus por meio da adoção, isso é contrário ao uso bíblico da palavra. Em nosso estudo da Palavra de Deus, temos de consultar, não só o sentido literal de uma palavra, mas também seu uso, para determinar o significado bíblico de uma doutrina. Muitas vezes o uso de uma palavra modificará o sentido de uma palavra a ponto de dar uma nuança diferente de sentido. Ao mesmo tempo, homens são notórios por pegar os sentidos seculares e modernos das palavras e aplicá-las a palavras cujos significados bíblicos antigos eram algo inteiramente diferentes. Tal é o caso ora diante de nós.

Há várias dificuldades insuperáveis contra a interpretação comum da adoção, e será nosso dever examiná-las agora. Primeira, todo verdadeiro filho de Deus se tornou filho, não por algum processo legal pelo qual ele foi “adotado”, mas pelo novo nascimento. Esse é o único jeito de se entrar na família de Deus: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”. (João 1:12-13) “Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo”. (João 3:5-7) “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas”. (Tiago 1:18) “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos”. (1 Pedro 1:3) “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre”. (1 Pedro 1:23) “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus”. (1 João 5:1)

Esses também não são todos os textos que falam do novo nascimento como sendo meio de entrada na família de Deus, pois há muitos mais. Por outro lado, nem um único texto diz ou indica que os crentes são “adotados na família de Deus”. Aliás, a forma verbal dessa palavra jamais aparece no Novo Testamento. Tudo isso é muito importante, e faz a interpretação comum dessa doutrina parecer bem suspeita.

Segunda, alguém se torna um filho de Deus quando crê no Senhor, mas a adoção é ainda coisa do futuro para todos os crentes. Todas as vezes que aparece a palavra “adoção” aponta para um cumprimento futuro, com a exceção de Romanos 9 que é um sentido nacional da palavra. É aí aplicada a Israel, o qual Deus apresentou diante de todo o mundo como Seu “filho” (Êxodo 4:22). Na regeneração, recebemos “o Espírito de adoção” (Romanos 8:15), isto é, o Espírito Santo que testifica da adoção futura, e que nos consola como filhos de Deus. A própria adoção é ainda futura, caso contrário não estaríamos “esperando” por ela (Romanos 8:23). Um número grande demais de pessoas acha, erradamente, que ao receberem o “Espírito de adoção” receberam a própria adoção. Obviamente se “agora somos filhos de Deus” (1 João 3:2), sem termos recebido a adoção (porém aguardando-a), então a adoção não pode ser parte da entrada na família de Deus. Temos ou de desistir dessa interpretação comum, ou então admitir que ninguém agora é filho de Deus, mas temos de aguardar até algum tempo futuro para estarmos certos de que estamos na família de Deus. Mas com quantas outras passagens das Escrituras tal perspectiva provocaria antagonismo? É característica de erro na interpretação que um erro provocará antagonismo com outra doutrina da Bíblia, e se essa doutrina for ajustada para se harmonizar com a interpretação errônea, provocará antagonismo com mais duas doutrinas da Bíblia, que, se ajustadas para concordar com a interpretação errônea, arrancará de harmonia mais quatro doutrinas da Bíblia, e assim infinitamente. Logo que começamos a ajustar as doutrinas da Bíblia para concordarem com uma interpretação, não haverá lugar para parar. As verdadeiras doutrinas, por outro lado, se harmonizarão com todas as outras verdades, pois há uma unidade na verdade, vinda de uma única mente.

Terceira, a adoção tem relação com os “filhos” de Deus não com “meninos” de Deus, e assim espera o tempo em que todos os crentes tiverem alcançado plena maturidade espiritual. Alguém se torna “menino ou menina de Deus” logo que ocorre o novo nascimento, mas muitos crentes jamais fazem muito crescimento espiritual, nem alcançam maturidade espiritual nesta presente vida. Além disso, os crentes só entram no gozo e exercício pleno de sua posição como filhos maduros de Deus depois do tribunal de Cristo, pois isso é necessário para se determinar a extensão de sua herança na era futura. A criação inteira aguarda e geme por esse tempo em que os filhos de Deus serão manifestos diante do mundo inteiro em sua verdadeira glória: “Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus”. (Romanos 8:19, veja também os versículos 21 22) Hoje muitas, muitas pessoas afirmam ser filhas de Deus, mas suas vidas muitas vezes camuflam o que professam ser. Contudo, naquele dia será manifesto quem são verdadeiramente os filhos de Deus, pois cada um receberá posições de autoridade na terra do milênio, enquanto todos os crentes superficiais, os que têm uma fé fingida e os que se enganam a si mesmos serão trancados fora desse mundo glorioso.

Quarta, não dá para se aceitar a interpretação comum porque, como declara nosso texto, a adoção tem relação com a redenção do corpo (Romanos 8:23), não com a redenção da alma. Aliás, a alma jamais entra diretamente nesse assunto. É por isso que pode haver o uso e aplicação nacional dessa palavra (Rom. 9:4), pois Israel como nação recebeu fisicamente a posição de filho de Deus apesar do fato de que de longe a maioria da nação naquela época era de descrentes que morreram por causa de sua descrença (Hebreus 3:15 19). Esse é também o motivo por que a adoção é sempre mencionada como algo futuro para o crente — porque a redenção do corpo, que é o que é a adoção, é ainda futura para os crentes; Deus “nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade”. (Efésios 1:5) E assim isso é certo, mas estamos ainda “esperando a adoção” (Romanos 8:23), embora tenhamos recebido “o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai.” (Romanos 8:15) Se podemos julgar pelo contexto aqui, o clamor de “Aba, Pai” é parte de nosso gemido ocasionado pelas fragilidades e fraquezas de nossos corpos de barro, e mediante o Espírito assim clamamos desejando a adoção, a redenção desses corpos frágeis, pobres e pecadores. É de pouco admirar, então, que Davi dissesse: “Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar”. (Salmo 17:15)

Quinta, a adoção se distingue da redenção da alma em Gálatas 4:4 6: “Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, Para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai”. Aí se mostra que a adoção é resultado da redenção da alma, e assim obviamente não é a mesma coisa da redenção, nem mesmo ocorre ao mesmo tempo dela. Esse texto sozinho é fatal para a teoria de que a adoção ocorre quando somos salvos, pois a frase “recebermos” mostra que a adoção é ainda futura depois que alguém é redimido. Aliás, todas as referências à adoção apontam para o futuro, e mostram que ainda não ocorreu para ninguém.

II. A EXPLICAÇÃO CORRETA DA ADOÇÃO.

O Dr. B. H. Carroll chega mais perto de estar correto acerca dessa doutrina do que a maioria dos teólogos, mas até mesmo ele errou num ponto sobre isso. Em seus comentários sobre Romanos, ele diz:

Isso nos leva à palavra “adoção”. O que é adoção? Etimologicamente, é aquele processo legal pelo qual alguém, não um membro natural da família, se torna legalmente membro da família e herdeiro. Há três tipos de adoção que o apóstolo discute nessa carta:

(1) A adoção nacional, Romanos 9:4: “Que são israelitas, dos quais é a adoção”. Muitas vezes no Antigo Testamento Israel é chamado de Filho de Deus, a nação como nação sendo seu povo particular.

(2) A adoção da alma do homem justificado, Romanos 8:15: “Recebestes o Espírito de adoção”.

(3) A adoção de nossos corpos quando são redimidos do túmulo e glorificados, Romanos 8:23: “Esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo”. — An Interpretation of the English Bible [Uma Interpretação da Bíblia em Inglês], Vol. 14, p. 160. Broadman Press, Nashville, 1947.

Cremos que o Dr. Carroll está correto em tudo, exceto num ponto, pois receber o Espírito de adoção não é a mesma coisa que receber a própria adoção, e na medida em que nenhum texto declara que somos “adotados quando cremos”, nem que a adoção tenha alguma aplicação à salvação da alma, cremos que estamos indo além do que está escrito se sustentarmos três tipos de adoção. Sustentamos, pois, que a palavra “adoção” tem duas e somente duas aplicações, a saber, (1) Um sentido natural de Israel, que era, como nação colocada por Deus como Seu filho, e assim reconhecida por todas as nações vizinhas. (2) Um sentido individual, do corpo do crente, que será manifesto diante do mundo inteiro como filho de Deus na ressurreição e exaltação dos santos.

O que se quer dizer, pois, com esse termo? Cremos que o Dr. W. E. Vine expressa o sentido dessa palavra quando diz:

Deus não adota crentes como filhos; eles são gerados como tais pelo Seu Espírito Santo por meio da fé. A adoção é um termo envolvendo a dignidade do relacionamento dos crentes como filhos; não é uma introdução na família pelo nascimento espiritual, mas uma introdução na posição de filhos. Em Romanos 8:23 a adoção do crente é apresentada como ainda futura, já que inclui a redenção do corpo, quando os vivos serão transformados e aqueles que dormiram serão ressuscitados. — Expository Dictionary of New Testa¬ment Words [Dicionário Expositivo das Palavras do Novo Testamento], pp. 31-32. Fleming H. Revell Company, Westwood, N. J., 1966.

O Dr. C. I. Scofield também diz disso:

A adoção (huiothesia, “colocar como filho”) não é tanto uma palavra de relacionamento como de posição. A relação do crente com Deus como filho resulta do novo nascimento (João 1:12, 13), ao passo que a adoção é o ato de Deus pelo qual alguém que já é filho é, por meio da redenção, colocado na posição de um filho adulto (Gálatas 4:1 5). A presença do Espírito concretiza isso na experiência presente do crente (Gálatas 4:6); mas a plena manifestação da posição de filho do crente aguarda a mudança da ressurreição e a transformação dos santos, que se chama “a redenção do nosso corpo”. (Romanos 8:23; 1 Tessalonicenses 4:14 17; Efésios 1:14; 1 João 3:2) — Scofield Reference Bible [Bíblia de Referência Scofield], nota referente a Efésios 1:5. Oxford University Press, New York, 1945.

O Senhor nos deu muitas grandes e preciosas promessas e garantias, entre as quais está a garantia de que “agora somos filhos [literalmente ‘crianças’] de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser”. (1 João 3:2) Mas embora sejamos agora filhos de Deus, ainda não recebemos nossa herança, nem fomos manifestos e adquiridos por Deus diante do mundo como Seus filhos adultos. A vida presente é, para o crente, um tempo de preparo para ele entrar em sua herança; Deus está no momento nos testando para ver até que ponto estamos dispostos a ser fiéis com as coisas que Ele nos confiou. Estamos sendo testados, não só quanto à nossa fidelidade com as coisas materiais, mas também quanto à nossa fidelidade com nosso tempo e talentos. Não só temos de retornar ao Senhor aquela parte de nossas posses materiais que pertencem a Ele, mas temos também de “remir o tempo” (Efésios 5:16), e ser “bons despenseiros da multiforme graça de Deus”, com relação à cada dom que se recebe dEle (1 Pedro 4:10) Nossa fidelidade nesta vida presente decidirá a grandeza de nossa herança na vida futura, conforme está escrito: “Quem é fiel no mínimo, também é fiel no muito; quem é injusto no mínimo, também é injusto no muito. Pois, se nas riquezas injustas não fostes fiéis, quem vos confiará as verdadeiras? E, se no alheio não fostes fiéis, quem vos dará o que é vosso?” (Lucas 16:10-12)

Muitas vezes os crentes desculpam sua infidelidade dizendo que sua infidelidade é apenas nas coisas pequenas, que eles seriam fiéis se alguma tarefa grande lhes fosse dada, mas conforme mostra o texto acima, Deus testa mediante coisas pequenas, pois esse é o melhor teste; por exemplo, se alguém entregasse um níquel (moeda de cinco centavos) a uma pessoa e lhe pedisse para guardá-lo em segurança para ele, ela provavelmente não ficaria preocupada demais com isso, por causa da insignificância intrínseca do níquel; mas se alguém entregasse o diamante Kohinoor, a pessoa tomaria cuidado com a jóia por causa de seu valor intrínseco. Mas o Senhor quer que sejamos fiéis com o que temos, simplesmente porque Ele o entregou a nós, e não porque pensamos que a coisa em si é valiosa. Esse teste em coisas pequenas decidirá a posição do crente no mundo futuro, pois revelará sua atitude para com o Deus que confiou essas coisas a ele.

O que a adoção é, vem declarado em termos claros em Romanos 8:23; é “a redenção do nosso corpo”. Todos temos a presente consciência da presença do pecado em nossos corpos mortais, e assim é claro que o corpo não foi redimido quando a alma foi; se esse fosse o caso, não estaríamos ainda “esperando” a redenção. A adoção então envolve a ressurreição e renovação dos corpos dos santos, como vem declarado em 1 Tessalonicenses 4:16 17. Os corpos mortos dos santos do passado ressuscitam primeiro, então os corpos dos santos vivos são instantaneamente transformados na semelhança do corpo glorificado de Cristo, e eles serão manifestos diante do mundo como na verdade filhos de Deus. Hoje, a maioria das pessoas no mundo ocidental são membros de alguma igreja, e o mundo presume que todos são filhos de Deus, mas naquele dia, grandes multidões serão deixadas para trás com a declaração do Senhor em Mateus 7:23: “Nunca vos conheci”, soando em seus ouvidos. Assim a ressurreição se chama “a manifestação dos filhos de Deus” (Romanos 8:19), pois na primeira ressurreição apenas os salvos ressuscitam. As Escrituras pois dizem acerca deles: “E são filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição”. (Lucas 20:36)

A adoção é a terceira e última fase da salvação para os eleitos de Deus. Essas três fases são: (1) A salvação da alma da pena do pecado, que entra em vigor para o indivíduo quando ele confia seu destino eterno ao Senhor. É uma transação instantânea, e é acima da consciência e compreensão humana, e só é conhecida pelos seus efeitos. (2) A salvação da vida do poder da presença do pecado mediante um processo de santificação diária. É um processo contínuo que prossegue por toda a vida do crente. (3) A salvação do corpo da presença do pecado, que é uma transação instantânea que ocorre na ressurreição, e se chama “a adoção”. Isso às vezes se chama “santificação consumada” pois é o ato final nas ações redimidas de Deus para com o homem.

A adoção, embora se refira especificamente à redenção do corpo, envolve e inclui muitas outras coisas também, pois marca um período de transição em outro nível mais elevado de vida para o santo. Portanto, passamos a considerar:

III. AS CONSEQUÊNCIAS DA ADOÇÃO

É algo infeliz que tantas pessoas tenham feito esse assunto todo virar para trás; muitos acham que a posição de filho é a consequência da adoção, mas o reverso é a verdade: a adoção é o resultado abençoado de se nascer na família de Deus, pois Cristo veio “para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos” (Gálatas 4:5), de modo que a adoção é o efeito, não a causa, da posição de filhos.

Romanos 8:23 nos conta um dos resultados principais da adoção, isto é, o recebimento de um corpo novo e glorificado que corresponderá à nossa alma redimida. É por esse objetivo que atualmente gememos, ansiando o cumprimento dessa esperança que a presença do Espírito cria dentro de nós. Paulo faz referência a gemido nessa mesma conexão em 2 Coríntios 5:1 6 onde ele diz: “Porque sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus. E por isso também gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu; Se, todavia, estando vestidos, não formos achados nus. Porque também nós, os que estamos neste tabernáculo, gememos carregados; não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida. Ora, quem para isto mesmo nos preparou foi Deus, o qual nos deu também o penhor do Espírito. Por isso estamos sempre de bom ânimo, sabendo que, enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor”.

Com isso é evidente que Deus preparou corpos imortais para cada um de Seus santos, e que não dá para nós recebê-los enquanto estamos em casa em nossas velhas habitações corrompidas. É por esses corpos imortais que gememos, muitas vezes sem ter consciência do motivo por que estamos gemendo, sabendo apenas que não estamos felizes em nossa presente condição, e desejando algo melhor. Não é só pela morte e separação desse presente corpo mortal de barro que gememos, pois isso nos deixaria como mero espírito nu, mas desejamos que a mortalidade de nosso atual corpo corrompido seja tragada pela imortalidade daquele corpo celestial. Que Deus realizou isso por nós é testificado pela presença do Espírito Santo, que é o “penhor” — o depósito ou garantia — dado a nós até o término dessa transação.

Outra consequência da adoção, que vem declarada no último versículo das Escrituras acima, é que com a vinda da adoção, nós “estaremos sempre com o Senhor”. (1 Tessalonicenses 4:17) A adoção marcará nossa transição de mortais para imortais (1 Coríntios 15:50 53), e nos tornará dignos de estar eternamente na presença do Senhor, pois Ele “transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas”. (Filipenses 3:21)

Mas o fato de estarmos para sempre com o Senhor envolve mais do que mera presença física com Ele; envolve o fato de sermos coparticipantes com Ele na herança do Pai, pois “O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados”. (Romanos 8:16-17) A entrada em nossa herança é um aspecto importante da adoção, pois não só temos uma herança reservada no céu para nós, mas também somos reservados pelo poder de Deus para essa herança, conforme está escrito: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, Para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós, Que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo”. (1 Pedro 1:3-5)

Quando a adoção vir a se cumprir, entraremos, como parte da nossa herança, na administração da terra milenial, pois durante esses gloriosos mil anos do reino de Cristo na terra sobre o trono de Seu pai Davi, toda função governamental da terra será preenchida por um dos santos glorificados, e nosso próprio Senhor será rei sobre toda a terra naquele dia (Zacarias 14:9). Imagine a glória da terra naquele dia em que ela conhecerá uma paz e fecundidade que jamais conheceu antes. Naquele dia “O deserto e o lugar solitário se alegrarão disto; e o ermo exultará e florescerá como a rosa”. (Isaías 35:1) Como é maravilhoso saber que conforme nos diz Apocalipse 3:21; 5:10; 20:4, 6; 22:5 e outras passagens, reinaremos com Cristo. É maravilhosamente verdade que “As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, E não subiram ao coração do homem, São as que Deus preparou para os que o amam. Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito”. (1 Coríntios 2:9-10) E é a revelação dessas coisas para nós por meio do Espírito que faz com que “gemamos em nós mesmos, esperando a adoção”. Deus nos criou para coisas melhores do que as coisas que este presente mundo maligno tem a oferecer, e Ele nos predestinou para essas coisas, conforme está escrito: “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade”. (Efésios 1:5) Paulo era um homem salvo quando escreveu isso, e aqueles aos quais ele escreveu eram pessoas salvas, mas tanto ele quanto eles estavam tão longe de ser já adotados que Paulo disse que eles estavam predestinados para a adoção, mas ainda estavam aguardando por ela.

A adoção lida com a herança dos filhos de Deus, em vez de sua salvação, e é por isso que tem sempre uma perspectiva futurista; olha para o reino milenial quando seremos recompensados como filhos de Deus de acordo com nossa fidelidade; então seremos colocados em posições de autoridade como filhos espiritualmente maduros de Deus.

Nossa fidelidade decidirá nossas posições durante o reino de mil anos de Cristo na terra, mas a partir do momento que chegarmos a Apocalipse 21 até o fim, não se fará distinções, pois esse tempo marca a entrada na eternidade onde não há distinções. Por mil anos, os santos redimidos e glorificados serão recompensados com posições de autoridade conforme sua fidelidade enquanto estavam no mundo, e isso será recompensa mais do que suficiente para o crente mais fiel. Mas conforme mostra Apocalipse 21:1 3, todas as diferenças sumirão com o desaparecimento da velha terra, e com o surgimento dos novos céus e nova terra, e ali só se verá Deus e Seu povo redimido. E ainda mais explícito é Apocalipse 21:7: “Quem vencer [veja 1 João 5:4,5 para ver a quem se refere], herdará todas as coisas; e eu serei seu Deus, e ele será meu filho”.

Ainda não recebemos a adoção, mas recebemos o Espírito de adoção e o Espírito Santo é o penhor, ou depósito, de nossa herança, e Ele não só nos garante que somos agora filhos de Deus, mas também a glorificação final de todos os crentes juntos. “Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes em temor, mas recebestes o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai. O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados. Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada”. (Romanos 8:15-18) Certamente a palavra “glória” nesse último versículo é importante aqui; antecipa o que nos espera como filhos glorificados de Deus. Na medida em que nossa fidelidade a Deus decidirá o tamanho de nossa herança, cremos que não há melhor jeito de concluir do que com a pergunta: Até que ponto você está sendo fiel ao Senhor?

 

Tradução: Julio Severo
Revisão e Edição: Calvin Gardner, 05/2014
Autor: Pr Davis W. Huckabee
Fonte: www.PalavraPrudente.com.br




 

Tradução: Julio Severo
Revisão e Edição: Calvin Gardner, 05/2014
Autor: Pr Davis W. Huckabee
Fonte: www.PalavraPrudente.com.br