Cap 14 - Doutrina Forte

A GLORIFICAÇÃO DOS SANTOS

CAPÍTULO 14

A GLORIFICAÇÃO DOS SANTOS

A glorificação dos santos é o final da corrente de ouro da graça divina que começa com a preordenação e predestinação. Assim lemos em Romanos 8:29 30: “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou”.

Note-se primeiramente que “dantes conhecer” é, como vimos anteriormente, a mesma palavra grega traduzida como “conhecer antes” em 1 Pedro 1:20 (RA), e esse é seu sentido aqui. E o conhecimento de antemão não se refere às ações de certas pessoas, mas em vez disso às próprias pessoas, de modo que por mais que liberemos a imaginação, não dá para ser uma referência à fé prevista. A fé não está em “Qual” (Isso vem discutido no Capítulo 2, sob o ponto II, e no Capítulo 9). E de novo temos de notar que não há espaço para perda ou acumulo entre os elos dessa corrente de graça. Repetidamente a fórmula é “aos quais… a eles”, “aos quais… a eles”, “aos quais… a eles”. As mesmas que o Pai preordenou em Seu conselho na eternidade serão glorificadas na eternidade futura — uma prova simples da segurança eterna de todos os santos de Deus.

Essa cadeia de ouro da graça divina que é composta de elos forjados e inquebráveis é a base da garantia de que “sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito”. (Romanos 8:28) A palavra “para” no versículo 29 mostra isso. Mas não dá para haver essa certeza para a pessoa que mutila, por meio de descrença, um ou mais elos dessa corrente de ouro.

O propósito de Deus para Seu povo é inevitável e certo e completamente glorioso, pois a glorificação eterna é a promessa bendita e inevitável que é estendida ao verdadeiro filho de Deus. Paulo estava disposto a aguentar todas as coisas, não só para que os eleitos fossem salvos, mas também para que eles pudessem obter aquela glória plena que Deus tem para os Seus eleitos, e para a qual Ele os predestinou. “Portanto, tudo sofro por amor dos escolhidos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus com glória eterna”. (2 Timóteo 2:10) E embora essa condição conhecida como glorificação deva ser a maravilhosa condição final e eterna do povo de Deus, porém pesquisaríamos em vão na maioria dos livros teológicos em busca de uma menção a esse termo. E os que realmente o mencionam em geral o fazem apenas do modo apressado, e isso só em conexão com algum outro assunto.

A glorificação é o ponto em que a doutrina da salvação e a doutrina das últimas coisas têm algo em comum, pois olha para além desta vida; olha para o mundo futuro. Esse assunto recebe pouco tratamento nos livros teológicos tipo padrão, e ainda menos atenção nos sermões, mas é rico em importância prática, pois dá aos crentes incentivo e fortalece a esperança deles. — Millard J. Erickson, Christian Theology [Teologia Cristã], p. 997. Baker Book House, Grand Rapids, 49506, 1991.

O autor deste, depois de consultar mais de trinta livros teológicos de escritores de quase todas as escolas filosóficas, só descobriu meia dúzia ou mais que mencionavam essa glorificação especificamente. Sem dúvida, alguns tratavam desse assunto sob os tópicos de “céu” e outros, mas cremos que a frequência com que esta palavra aparece na Bíblia assegura tratamento mais específico do que esse, principalmente porque esse é o alvo para onde se inclinam todas as nossas ambições e ações como cristãos. Andrew Fuller, numa seção de suas Obras sobre “The Heavenly Glory [A Glória Celestial]”, bem diz:

Uma das principais características com que se distingue a religião da Bíblia daqueles sistemas de filosofia e moralidade que muitos querem impor sobre nós em seu lugar é que tudo o que tem a ver com ela sustenta uma relação com a eternidade. O objeto de todos os outros sistemas é na melhor das hipóteses reformar as maneiras; mas essa retifica o coração. Eles aspiram somente a preparar os homens para este mundo; mas essa, embora transmita aquelas disposições que tendem mais do que qualquer coisa a promover a paz, a ordem e a felicidade na sociedade, fixa a paixão de forma suprema em Deus e nas coisas de cima… Esse é o tempo de semear e a eternidade é a colheita. Tudo o que se sabe de Deus e é feito por ele nesta vida prepara para a alegria que está colocada diante de nós. — Works, Vol. III, pp. 725, 726. Sprinkle Publications, Harrisonburg, VA., 1988. (O destaque é meu — DWH.)

A glorificação é resultado da justificação, conforme Romanos 8:30, acima citado, mostra, e assim é garantida pela graça de Deus, que é o poder por trás de todas as ações de Deus lidando com Seus eleitos. É também resultado da eleição e predestinação eterna de Deus, que estão apenas dois elos atrás a mais nessa corrente da graça. Assim, se um homem quiser ter certeza de sua glorificação, ele tem de se certificar de seu chamado e eleição, a única coisa que garante sua rica entrada no eterno reino de glória do Senhor. “Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis. Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”. (2 Pedro 1:10-11) Essa passagem é um contraste do versículo 9. É essa certeza de glória futura que capacita o crente a aguentar tudo o que o mundo possa trazer sobre ele: ele tem uma esperança que olha para além deste mundo e sua glória que logo passa. Alexander Carson diz dos santos:

Se as esperanças deles se confinassem a este mundo, de todos os homens vivos eles, na verdade, seriam os mais miseráveis; pois, embora a sobriedade, a dedicação e outras virtudes da vida cristã os isentem de muitos dos males aos quais outros são expostos, mas as tribulações peculiares às quais são sujeitos seriam mais do que um contrapeso a isso. A maior parte de sua presente felicidade consiste na antecipação de sua glória futura. — The Doctrine of the Atonement [A Doutrina da Expiação], pp. 240 241. Edward H. Fletcher, New York, 1853. (O destaque é meu — DWH).

A glorificação não é a mesma coisa que recompensas, embora as duas tenham relação, pois a glorificação é o destino de toda alma verdadeiramente nascida de novo, embora ela possa não ter feito uma única obra em sua vida cristã que seja digna de recompensa. As recompensas se basearão na nossa fidelidade ao Senhor. A extensão da nossa glorificação poderá ser ampliada por nossa atitude de mais fidelidade e de servir a Deus a partir de motivos certos. Talvez Daniel 12:3 indique isso. “Os que forem sábios [ou ‘mestres’], pois, resplandecerão como o fulgor do firmamento; e os que a muitos ensinam a justiça, como as estrelas sempre e eternamente”. Alguns sustentam que isso apresenta dois graus de fidelidade com graus correspondentes de glória.

Talvez isso seja o que o termo “amplamente” de 2 Pedro 1:11 indique. Pois embora o homem justificado verdadeiramente seja glorificado no reino eterno de nosso Senhor, embora ele entre cheio de dúvidas e temores e com pouco serviço alegre para seu crédito. Contudo, aquele que assegurou seu chamado e eleição com o resultado de que ele serve alegremente seu Senhor na certeza da glória futura, terá ampla entrada, em oposição à entrada infrutífera e sem recompensa do outro.

É evidente em tais textos como 2 Coríntios 4:17 que a perseverança do crente nas tribulações e aflições tem algo a ver com o grau de glória que será dele. Esse versículo diz: “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente”. Como então temos de nos envergonhar por toda a choradeira e reclamação por causa de nossas pequenas e insignificantes inconveniências e desconfortos quando nosso Senhor gracioso nos prometeu que essas situações serão o próprio meio para mais glorificação para nós se as aguardarmos com paciência para que em tudo Deus seja glorificado. Lembremo-nos: Deus não será devedor do homem: o que se faz por Ele será recompensado no devido tempo. “E não nos cansemos de fazer bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido”. (Gálatas 6:9)

A “glória” tem a ver com aquela sublime e inconcebível condição e estado que vem logo após a vida presente, e que, desde Sua ressurreição, agora caracteriza Jesus como o Deus-homem (Lucas 24:26; 1 Pedro 1:11). É isso o que caracterizará todos os santos depois de sua ressurreição (Romanos 8:17 24; Filipenses 3:20 21). Essa é a condição para a qual todos os santos verdadeiros estão se mudando, pois é seu destino predeterminado e prometido (Romanos 8:29 30; 9:23; 1 Coríntios 2:7). Não conhecemos nenhum outro texto que seja mais adequado para nosso estudo desse assunto do que Colossenses 3:4, que diz: “Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória”.

I. A CERTEZA DA GLORIFICAÇÃO.

A glorificação é tão certa quanto a nossa justificação, pois é tanto parte da salvação quanto é a justificação, conforme dá testemunho Romanos 8:30. A glorificação é a condição final na salvação, pois é a redenção do corpo, e é defesa da fé e esperança do santo. Possamos notar de passagem que a Bíblia fala de salvação sob três tempos gramaticais, e assim, sugere as três frases dele: (1) Na conversão, somos libertos da pena de todos os pecados, pois somos declarados justificados por Deus, e isso é tempo passado a partir do momento da fé. Mas a Bíblia às vezes fala do tempo presente da salvação — salvação como um processo progressivo — estamos “sendo salvos”, conforme às vezes diz o tempo grego. Assim, (2) na santificação estamos sendo libertos do poder do pecado que habita o corpo, conforme vamos ficando mais santos e vamos nos dedicando mais ao Senhor. Mas às vezes a Bíblia fala de salvação no tempo futuro — “seremos salvos” — que tem a ver com (3) Glorificação, que é nossa liberdade da própria presença do pecado em nós ao recebermos novos corpos e mentes na volta de nosso Senhor do céu. Não são três salvações, mas em vez disso três fases da única salvação completa que nosso Senhor comprou para todos os Seus eleitos na Cruz. Depois de se referir a 2 Timóteo 1:9; Filipenses 2:12 e Romanos 13:11, A. W. Pink observa.

Ora, esses versículos não se referem a três salvações diferentes, mas a três aspectos separados de uma e a menos que aprendamos a distinguir com clareza entre elas, não poderá haver nada senão confusão e dúvidas em nossos pensamentos. Essas passagens apresentam três fases e estágios distintos da salvação: a salvação como um fato realizado, como um processo presente e como uma esperança futura. Tantos hoje ignoram essas distinções, misturando-as. Alguns defendem uma e argumentam contra as outras duas; e vice-versa. Alguns insistem em que eles já estão salvos, e negam que estejam agora sendo salvos. Alguns declaram que a salvação é inteiramente futura, e negam que sejam em algum sentido já realizada. Ambos estão errados. O fato é que a grande maioria das pessoas que professam ser cristãs não consegue ver que “salvação” é um dos muitos termos abrangentes em todas as Escrituras, inclusive predestinação, regeneração, justificação, santificação e glorificação. — The Doctrine of Salvation [A Doutrina da Salvação], pp. 106 107. Guardian Press, Grand Rapids, 49509, 1925.

A glorificação dos santos é tão certa como a própria glorificação de Cristo, e isso é garantido pois é agora um fato passado e não se pode mudar a história. João 17:22 24 diz: “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um. Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade, e para que o mundo conheça que tu me enviaste a mim, e que os tens amado a eles como me tens amado a mim. Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo”. Observa como nosso Senhor diz no versículo 22 que Ele deu (tempo passado) Sua própria glória a eles. Esse mesmo fato se vê em Romanos 8:30. O conhecimento de antemão e a predestinação no versículo 29 são tempo passado: podemos facilmente ver e compreender isso. E o chamado e justificação no versículo 30 são ambos tempo passado: podemos também facilmente ver e compreender como isso é assim para toda pessoa salva. Mas que a glorificação é também tempo passado é difícil para nós aceitarmos, e somos inclinados a tentar evitar tal entendimento por meio de argumentos. “Com certeza”, raciocinamos, “o Senhor ainda não voltou. Com certeza a ressurreição ainda não ocorreu. Com certeza ainda não recebi meu novo corpo. Como então se pode usar o tempo passado aqui?” Assim por mero raciocínio humano, podemos eficazmente invalidar alguma verdade preciosa de Deus acerca da posição gloriosa que Deus nos deu.

Na grande maioria das vezes, avaliamos pela aparência, e somos tão sujeitos ao tempo e espaço que achamos difícil compreender que nosso grande Deus está acima tanto do tempo quanto do espaço, e Ele não está sujeito a nenhum dos dois. Ele considera a glorificação dos santos como passada porque em Sua mente e propósito é tão certa quanto se já tivesse sido feita. Duvidamos disso em geral porque aceitamos o humanismo — tentamos sujeitar o propósito de Deus às ações do homem em vez de reconhecermos a capacidade soberana de Deus de fazer tudo o que Ele quer onde quer que Ele queira fazê-lo sem nem mesmo pedir um simples “com licença” ao homem. Aliás, pelo fato de que Deus não está sujeito ao tempo e espaço, todas as coisas são para Ele como se só houvesse um grande presente, algo que nós criaturas do tempo e espaço não podemos visualizar e compreender.

O texto em Colossenses 3:4 mostra que a glorificação do santo é tão garantida quanto a volta do Senhor Jesus Cristo, pois diz “quando”, não “se Ele aparecer”. Não é uma questão de se o santo será glorificado, mas só uma questão de quando. Não há incerteza em nada com o Senhor, pois Ele sabe todas as coisas, e Ele controla todas as coisas. Não há possibilidades inesperadas com Deus, como há com o homem, pois Ele faz tudo o que Ele tenciona fazer. “Lembrai-vos das coisas passadas desde a antiguidade; que eu sou Deus, e não há outro Deus, não há outro semelhante a mim. Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade. Que chamo a ave de rapina desde o oriente, e de uma terra remota o homem do meu conselho; porque assim o disse, e assim o farei vir; eu o formei, e também o farei”. (Isaías 46:9-11) Deus tencionar algo e então não fazê-lo se cumprir não refletiria na capacidade da Sua Divindade. Pois implicaria que ou Ele não tinha a sabedoria de antever todas as possibilidades e fazer-lhes espaço para eles. Ou que antevendo todas elas, Ele não tinha o poder de resolver os seus problemas. Ou que, tendo tanto a sabedoria quanto o poder, Ele apesar disso mudou de ideia acerca do que Ele queria fazer. Mas os atributos divinos da onisciência, onipotência e imutabilidade são contra todas essas suposições.

A certeza da volta de Cristo, e a subsequente glorificação dos santos, é apresentada em Filipenses 3:20 21: “Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas”. A palavra aí traduzida “esperar” significa literalmente esperar e aguardar, em confiança e expectação, algo. Note como essa mesma palavra grega é usada no mesmo sentido básico em todas as sete vezes em que aparece em Romanos 8:19,23,25; 1 Coríntios 1:7; Gálatas 5:5; Filipenses 3:20 e Hebreus 9:28. Com a possível exceção de Gálatas 5:5, todas essas passagens olhem para com a grande esperança do cristão — a volta do Senhor Jesus para completar sua salvação. E mesmo Gálatas 5:5 pode ter essa mesma aplicação, pois foi falado por, e dirigido a, aqueles que já estão salvos, de modo que essa espera da justiça pode se referir ao reino de justiça de Cristo em que os santos terão parte. Embora uma palavra diferente seja usada em 1 Tessalonicenses 1:10, porém essa é a mesma ideia. É na volta de Jesus que Sua vontade, conforme expressa em João 17:22, se cumprirá.

A glória para a qual Cristo foi exaltado não é assunto de especulação ociosa, no qual nenhum interesse temos. Em sua fala ao seu Pai, ele disse, em alusão a seus discípulos, “Eu dei-lhes a glória que a mim me deste”. Daí, embora soframos com Cristo e por Cristo neste mundo, podemos nos regozijar na esperança de sermos glorificados com ele. — J.L. Dagg, Manual of Theology [Manual de Teologia], p. 207. Sprinkle Publications, Harrisonburg, VA., 22801, 1982.

De novo, a glorificação para o povo de Deus é tão garantida quanto a Palavra de Deus, pois Sua integridade se fundamenta em que Ele guarda a Sua palavra. Ele promete que assim será, e assim, não poderá ser de outro jeito. Virá a todos os que buscam glória por meio da verdade, mas a todos os que rejeitam a verdade, só indignação, ira, tribulação e angústia (Romanos 2:6 11). “O qual recompensará cada um segundo as suas obras; a saber: A vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, honra e incorrupção; Mas a indignação e a ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e obedientes à iniquidade; Tribulação e angústia sobre toda a alma do homem que faz o mal; primeiramente do judeu e também do grego; Glória, porém, e honra e paz a qualquer que pratica o bem; primeiramente ao judeu e também ao grego; Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas”.

No que se refere ao juízo e recompensa, Deus é totalmente imparcial e não respeita nem faz acepção de pessoas. Mas é um grande erro tentar aplicar tal princípio a Deus em todas as situações, e manifesta ignorância das Escrituras, pois em várias áreas Ele realmente faz acepção de pessoas, conforme declaram muitas passagens das Escrituras, principalmente onde há o assunto de eleição, salvação ou qualquer questão envolvendo aliança de Deus (veja Gênesis 4:4; Êxodo 2:25; Levítico 26:9; 2 Reis 13:23; Salmo 74:20; 138:6, e outros). E, na medida em que Deus é a fonte de todos os dons bons e perfeitos (Tiago 1:17), e é Aquele que distingue uma pessoa de outra (1 Coríntios 4:7), vê-se comumente na vida essa acepção de pessoas. Por exemplo, nem todos os homens têm as mesmas vantagens na vida ou fisicamente, mentalmente, moralmente, psicologicamente, espiritualmente, pois todos não são dotados com as mesmas capacidades e talentos, e as oportunidades variam de pessoa à pessoa. Só isso, mesmo que não houvesse tantas Escrituras declarando o contrário, seria suficiente para refutar a ideia de que Deus jamais faz acepção de pessoas em qualquer área. Uma análise de todos os textos que declaram que “Deus não faz acepção de pessoas” revelará que esse termo só é aplicado com relação ao juízo, e no juízo final não se verá graça nenhuma, mas só pura justiça condenatória que cobra tudo o que é devido dos pecadores.

Na eleição e salvação Deus respeita e faz acepção de algumas pessoas acima de outras, pois a própria palavra “eleito” indica que alguns foram escolhidos e outros foram deixados. Uma eleição universal é uma contradição de termos. A própria primeira vez em que a palavra “respeito” aparece na Bíblia (e as primeiras vezes são sempre importantes, e são muitas vezes as mais decisivas) em Gênesis 4:4 5 mostra que Deus teve respeito tanto por Abel quanto por sua adoração, mas não por Caim e sua adoração. Esse texto e os outros citados acima nesse aspecto mostram com clareza que Deus realmente respeita e faz acepção de uma pessoa sobre outra em assuntos da Sua graça. O motivo disso é que a graça é sempre incondicional, do contrário não é graça. Os homens mais sábios reconheciam essa verdade, e oravam para gozá-la (1 Reis 8:28). Só em juízo e recompensas, repetimos, deve Deus lidar imparcialmente com os homens; todas as Suas ações em graça, pelo motivo de que não notam algum mérito ou valor na criatura, têm de respeitar ou fazer acepção de pessoas.

Deus se comprometeu a dar glória a toda alma salva porque ela é salva. Isso envolve graça, em que há respeito e acepção de pessoas em todo exemplo. Mas Deus também se comprometeu a recompensar todo serviço (corretamente motivado) feito para Ele, aumentando essa glória inicial. E pelo fato de que envolve serviço e recompensas Deus não respeita e não faz acepção de pessoa, mas o baseia na fidelidade das atitudes certas (Romanos 2:7,10). Esse é um ponto em que temos de “distinguir corretamente a Palavra da verdade”, e não apenas papaguear alguma frase bíblica indevidamente aplicada que se encaixe em nossos preconceitos. As Escrituras falam claramente sobre esse assunto. Qual será a nossa resposta?

II. A BASE DA GLORIFICAÇÃO.

Qualquer coisa que não tenha uma base adequada é vã esperança. O crente não é arbitrariamente e infundadamente glorificado, mas a glorificação lhe é garantida na base da associação com o Cristo glorificado. Não há tal coisa como glória fora de Cristo, mas somos predestinados a nos tornamos semelhantes à imagem de nosso Senhor.

O processo de santificação, que é prosseguido durante a vida presente, se completa quando os santificados são perfeitamente preparados para o serviço e gozos do céu. Nessa obra do Espírito, inclui-se a ressurreição do corpo, e a adaptação dele para ser conforme o corpo glorioso de Cristo. Havendo sido predestinados para sermos conforme a imagem do querido Filho de Deus, a proposta obra da graça não se completa até que apareçamos em glória, com nossos corpos como o glorioso corpo do Redentor. Há muito os santos na terra anseiam essa conformidade perfeita e a esperam como a consumação de seus desejos e esperanças: “Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar”. (Salmos 17:15) — J.L. Dagg, Manual of Theology [Manual de Teologia], p. 300 301. Sprinkle Publications Gano Books, Harrisonburg, VA., 22801, 1982.

Colossenses 3:4 enfatiza essa unidade com a vida de Cristo quando diz: “Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória”. Nossa glorificação depende de possuirmos dessa vida divina que nos é concedida na regeneração (2 Pedro 1:1 4). Colossenses 1:27 com clareza declara isso: “…Cristo em vós, esperança da glória”. “Esperança” nas Escrituras é um termo mais forte do que a moderna palavra, que geralmente quer dizer pouco mais do que um mero desejo sem nenhuma certeza de receber o alvo dessa esperança. A esperança bíblica, por outro lado, é a expectação fortemente baseada do bem futuro, porque se baseia numa promessa divina. Assim, Cristo habitando em nossos corações pela fé é a evidência do novo nascimento, e é a base de nossa expectação da glória futura.

Notamos sob a divisão precedente que nossa glorificação é tão certa quanto nossa justificação, pois Romanos 8:30 mostra que a glorificação se baseia na justificação. Deus tem uma ordem em tudo e o homem não pode anular essa ordem. A ordem de Deus no tempo é (1) Chamado. (2) Justificação, e (3) Glorificação. “…aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou”. A glorificação é um resultado da justificação, e não pode existir sem ela, pois esse versículo não deixa espaço ou para ganho ou perda de pessoas entre os elos dessa corrente. As mesmas pessoas — os eleitos de Deus — estão na fase do conhecimento de antemão e predestinação como estão na fase da glorificação, e vice-versa. As mesmas pessoas que são chamadas deverão ser glorificadas, pois foram justificadas, que é prova incidental da segurança dos santos.

Mas alguém sem dúvida objetará que: “Como é que pode ser isso, pois a maioria das pessoas que ouvem o Evangelho não responde ao convite de Deus?” Verdade, mas essa objeção se baseia numa ideia errada do sentido de “chamado” aí. Presume-se que “chamados” se refere somente ao convite geral para a salvação. “Chamado” se usa em dois sentidos na doutrina bíblica da salvação: (1) O chamado geral do Evangelho, que todos os homens rejeitam até que o Espírito Santo opere em seus corações para vivificá-los a fim de capacitá-los a ouvir, prestar atenção e responderem a ele. (2) O chamado eficaz do Espírito Santo pelo qual os homens nascem de novo e são capacitados com isso a se arrependerem, crerem e responderem ao convite de Deus. Todos os eleitos respondem a esse chamado, pois Deus opera eficazmente, “vivificando aqueles que quer” (João 5:21), sem nenhuma resposta do pecador até que se complete a regeneração. A cooperação da vontade humana não é parte disso (Romanos 9:15 16), pois estando espiritualmente morta não tem a capacidade de nenhuma ação espiritual certa até que o Espírito de Deus a vivifique. Assim ninguém chega a se salvar apenas pelo chamado geral do Evangelho, mas todos são salvos aos quais vem o chamado eficaz. É o poder perfeito de Deus que torna esse segundo “chamado” eficaz. Romanos 8:30 e outros textos fazem referência a esse chamado, onde o termo é usado nesse sentido especial. Esse “chamado” é “para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo”. (2 Tessalonicenses 2:14) E precisamos notar no versículo precedente que isso se baseia na escolha soberana de Cristo, conforme Romanos 8:29 30. O crente em Cristo recebe a glória de Cristo de forma futura na salvação, pois a glorificação se baseia na salvação, sendo realmente parte dela.

Para nos informar quem a possuirá, e sobre que base, se chama herança. Indicando claramente, que ninguém, senão os filhos de Deus, a gozarão: pois um servo, em si mesmo, não pode herdar. Temos, pois, de ser os filhos do Altíssimo, por adoção e regeneração, antes que possamos com justiça gozar o patrimônio celestial. — Abraham Booth, The Reign of Grace [O Reino da Graça], p. 269. American Baptist Publication Society, Philadelphia, sem data.

A glorificação também se baseia em nossa posição como crentes, pois somos predestinados a sermos aceitos no amado Filho de Deus, conforme declara Efésios 1:5 6. “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, Para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado”. A beleza da glorificação está não em nós e em nossos esforços, mas totalmente em Cristo e em Sua beleza espiritual que foi colocada sobre nós, conforme Ezequiel 16:14 representa de modo belo. “E correu de ti a tua fama entre os gentios, por causa da tua formosura, pois era perfeita, por causa da minha glória que eu pusera em ti, diz o Senhor DEUS”. De modo geral Israel, e também os gentios, não conseguiram de forma alguma entender essa verdade.

É tanto por meio da vida ressurreta e glorificada de Cristo, quanto por Sua morte sacrificial, que somos aceitos diante do Pai, pois Sua justiça nos é imputada conforme Romanos 4 testifica de forma tão abundante. E Romanos 5:10 diz claramente: “Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida”. É por isso que aqueles que negam a ressurreição de Cristo não têm nenhuma esperança de vida e glória eterna, pois negam aquilo que é parte integral da salvação e glorificação do santo. Somente na vida de Cristo há vida e luz para os homens (João 1:4), e é aos que receberam essa vida e luz que se dá a promessa de participar da glória de Cristo. A justiça imputada de Cristo é aquela que, sozinha, torna os homens dignos de serem aceitos diante de Deus e de entrarem em Seu reino. A justiça humana jamais é suficiente, pois os fariseus e escribas eram as pessoas mais legalmente justas na terra, mas nosso Senhor advertiu Seus discípulos em Mateus 5:20 de que eles precisavam mais do que essa justiça para serem aceitos no reino de Deus. “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”.

A vinda de nosso Senhor em majestade gloriosa à terra é apresentada em Apocalipse 19:11 13, e o versículo 14 nos mostra quem são Seus companheiros. “E seguiam-no os exércitos no céu em cavalos brancos, e vestidos de linho fino, branco e puro”. Esse simbolismo é explicado no contexto imediato, pois o versículo 8 diz: “E foi-lhe dado que se vestisse de linho fino, puro e resplandecente; porque o linho fino são as justiças dos santos”. Na base do versículo 7 “já a sua esposa se aprontou”, alguns crêem que a justiça no versículo 8 é uma justiça pessoal, não imputada, mas uma palavra no versículo 8 refuta isso. “Garantido” é a palavra grega comum para “dado”, de modo que claramente a justiça que caracteriza os santos é uma justiça imputada — o único tipo que qualquer pessoa pode ter.

Assim, quer eles sejam considerados como indivíduos ou coletivamente como a esposa do Cordeiro (versículo 7 8), ou militantemente como um exército (versículo 14), a glória deles é um resultado da justiça imputada de Cristo. Mas não só por isso, pois conforme notamos sob a primeira divisão, a glorificação do crente se baseia no poder onipotente de Deus, em Sua onisciência, e na verdade em todos os Seus atributos gloriosos. Abraham Booth observa:

Portanto, sua felicidade é permanente como a perfeição divina que eles adoram e gozam; e garantidos para suas próprias mentes abrangentes além da possibilidade de dúvida. Isso torna a condição deles supremamente gloriosa. Isso constitui o céu, aliás. E além disso, e se os limites das capacidades deles eternamente se ampliassem, e eternamente recebessem medidas maiores de glória? Pois a Deidade é uma fonte infinita de bem-aventurança; e vasos finitos poderão se expandir eternamente, e se encher eternamente, naquele oceano da total suficiência divina. — The Reign of Grace [O Reino da Graça], p. 284. American Baptist Publication Society, Philadelphia, No date.

Rastreando até o fundamento máximo, a glorificação dos santos se baseia na graça de Deus conforme indica Efésios 1:3, 10. “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo… De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra”. Esses dois versículos estão ligados pelos versículos interpostos que detalham como a graça trabalha para trazer essa bênção espiritual até nós. A glorificação, como o chamado e a justificação, tem de ser baseados na graça de Deus, já que nenhum de nós pode reivindicar merecer mesmo que seja a menor parte dessas bênçãos espirituais.

III. O TEMPO DA GLORIFICAÇÃO.

Quando é que poderemos esperar que essa experiência maravilhosa ocorra? E onde deverá acontecer? Muitas pessoas acham que ocorre logo que morremos, quando passamos para o céu. Isso é incorreto, embora seja correto dizer que alguém que morreu “entrou na glória”, pois a frase descreve a presença de Deus, aonde vamos quando morremos (Eclesiastes 12:7; 2 Coríntios 5:8). Contudo, não descreve a condição dos santos no céu enquanto eles estão aguardando o episódio final em sua redenção. Há um sentido em que aqueles que morreram em Cristo foram aperfeiçoados. Dagg diz:

Além dessa perfeição final, à qual os santos são ensinados a aspirar, há fases em seu progresso às quais o nome perfeição é, num sentido subordinado, aplicado nas Santas Escrituras. Os santos fora do corpo, agora na presença de Deus, embora não tenham alcançado a ressurreição do corpo, são apesar disso chamados “os espíritos dos justos aperfeiçoados”. Eles são livres do corpo da morte, livres do pecado, livres de todas as tribulações e tristezas deste mundo, e estão presentes com o Senhor, e no gozo de seu amor. — Manual of Theology [Manual de Teologia], p. 301. Sprinkle Publications Gano Books, Harrisonburg, VA., 22801, 1982.

A citação mencionada aqui é Hebreus 12:23. E como prova do que Dagg diz dessa “perfeição” sendo usada apenas num sentido subordinado, e não num sentido absoluto, temos apenas de notar a negação anterior de perfeição absoluta naqueles que ainda não alcançaram a ressurreição. Depois de ter enumerado muitos que haviam triunfado pela fé no Senhor, Hebreus 11:39 40 diz de todos eles que eles não haviam ainda sido aperfeiçoados. “E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa, Provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós não fossem aperfeiçoados”. O aperfeiçoamento, ou consumação, final e absoluto, como muitas vezes a palavra grega quer dizer, dos santos, ocorrerá tudo de uma vez só quando todos os santos de todas as épocas forem glorificados juntos. E fazemos essa declaração com esta exceção: estamos inteiramente cientes de que havia alguns santos do Antigo Testamento que, junto com Cristo, constituíam as primícias da ressurreição (Mateus 27:51 53). Não temos nenhuma explicação para isso, exceto aceitá-la como revelação verdadeira dos fatos. É o negócio de Deus cuidar de tudo o que está envolvido nisso.

Nosso Senhor gracioso revelou “as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou”. (Romanos 9:23) E é o fato de que Ele os preparou antes para a glória, e glória para eles, que a glorificação foi colocada no tempo passado em Romanos 8:30. Mas o crente não pode ser fisicamente glorificado até o julgamento de Cristo, pois é ali e naquela época que o grau de sua glória será decidido, conforme mostra 2 Coríntios 5:9 10. “Pois que muito desejamos também ser-lhe agradáveis, quer presentes, quer ausentes. Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal”. Mas esse julgamento ocorre na volta de Cristo à terra, após a Grande Tribulação, conforme diz Mateus 16:27: “Porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as suas obras”. Sua vinda então será com poder e grande glória (Lucas 21:27), e Ele se sentará no trono de sua glória (Mateus 19:28). A glória será a característica principal desse grande evento.

O grau da glória de uma pessoa dependerá da fidelidade de seu serviço, e assim, recompensas entram nesse assunto, e essas recompensas deverão ser distribuídas na vinda de Cristo. Mas considere: tanto as ações boas quanto más praticadas por cristãos têm consequências que não terminam, como as ondulações que uma simples pedra atirada num lago deixam, e não dá para se saber plenamente as consequências totais de um ato por várias gerações. Daí, só no julgamento de Cristo, quando todas as ações humanas forem avaliadas, os homens saberão as consequências totais de qualquer ato determinado, bom ou mau, e assim se saberá devidamente os graus de recompensa.

A ordem divina de tudo isso vem apresentada em 1 Tessalonicenses 4:16 17. “Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor”. Aí vemos: (1) A vinda de Cristo do céu com um alarido, e com a voz do arcanjo, e com a trombeta de Deus. (2) A redenção do corpo (Romanos 8:23), pois os corpos dos santos mortos são ressuscitados (Isaías 26:19), então os corpos dos santos vivos são transformados sendo instantaneamente renovados (1 Coríntios 15:51). (3) Esse será nossa ajuntamento juntos com Ele (Salmo 50:3 5; 2 Tessalonicenses 2:1), a bendita esperança de todos os crentes (Tito 2:13). (4) O momento das recompensas será depois disso (Mateus 16:27; Apocalipse 22:12). (5) Esse momento de recompensas incluirá o direito de governar sobre toda a terra como reis e sacerdotes (Salmo 149:5 9; Apocalipse 5:9 10; 11:15 18).

Claramente o tempo da glorificação dos santos será na época da própria entronização de Cristo sobre toda a terra. O que confirma isso é a parábola que Jesus ensinou em Lucas 19:12,15. “Disse pois: Certo homem nobre partiu para uma terra remota, a fim de tomar para si um reino e voltar depois… E aconteceu que, voltando ele, depois de ter tomado o reino, disse que lhe chamassem aqueles servos, a quem tinha dado o dinheiro, para saber o que cada um tinha ganhado, negociando”. Aí está (1) A Volta. (2) A Autoridade para Reinar. (3) As Recompensas. Não dá também para se entender isso como um presente “reinado da igreja” como foi o popular ensino do passado. A. W. Pink bem diz desses versículos:

Aí aprendemos que a volta de Cristo e Sua recepção do “Reino” são inseparavelmente conectados. Não só as Escrituras claramente refutam a afirmação de que Cristo está agora reinando, mas também não dá para se ajustar as condições presentes com essa descrença. Como é absurdo dizer que Cristo está agora reinando sobre a terra quando o mundo descrente inteiro despreza e rejeita Sua autoridade. — The Redeemer’s Return [A Volta do Redentor], p. 108. Calvary Baptist Church Book Store, Ashland, KY., No date.

Na base desse fato, os crente são ensinados na oração modelo a orar “Venha o teu reino” (Mateus 6:10), pois a vinda do Reino de Cristo será a realização das esperanças e desejos de todos os santos também, pois marcará a entrada deles na glória de Cristo em toda a sua plenitude. Mas esse próprio dever de orar isso torna evidente que o Reino ainda não chegou à terra, caso contrário o dever de orar teria sido revogado.

Não sabemos quais profecias ainda restam para se cumprir antes da volta do Senhor, e nossa consequente glorificação. Talvez não haja nenhuma para se cumprir, mas só a soberana vontade de Deus segura esse grande evento porque Seu tempo ainda não chegou. Embora Deus nos tenha chamado já para ter parte nessa glória, porém Ele declarou que isso só ocorrerá depois que tivermos “sofrido um tempo” (1 Pedro 5:10), pois nosso sofrimento aumentará nossa apreciação dessa glória quando aparecer. Aliás, mostra-se que há uma correlação entre nosso sofrimento com Cristo, e nossa glorificação junto com Ele (Romanos 8:17): “…se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados”. E 2 Timóteo 2:11 12 diz: “Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos…” A disposição de sofrer por amor a Cristo é uma prova da nossa fidelidade e amor a Ele, bem como nos ensina a apreciar a glória quando vir. A. J. Gordon diz:

Essa frase repetida na parábola que segue a das dez virgens — “Bem está, bom e fiel servo. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei” — parece indicar a natureza da herança dos santos. Reinar com Cristo sobre a terra durante o milênio inteiro, o posto deles em Seu reino manifesto será de acordo com a fidelidade deles durante o tempo de Sua ausência. No julgamento das nações que agora segue, eles serão associados com seu Senhor — “Não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo?” (1 Coríntios 6:2) — e em sua proximidade dEle em honra e autoridade consistirá a grandeza de sua recompensa. — Ecce Venit, p. 271. Hodder and Stoughton, London, 1900.

Assim, se torna uma questão de grande importância perguntar a nós mesmos, sobre quanto estamos dispostos a sofrer por amor ao Senhor, à luz de Sua promessa de recompensar a todos os que sofrem por Seu amor. Um ponto importante é, que Ele determinou nos permitir sofrer por um tempo para Sua glória, que é em si um dom de Sua graça, conforme mostra Filipenses 1:29. “Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele”. Assim, aqueles que estão indispostos a sofrer por Cristo tentam frustrar a própria razão para a aparente demora de Sua volta para glorificá-los, e os próprios meios do aumento de sua própria glorificação.

Quando ocorrerá a vinda de Cristo, e a glorificação dos santos? Não se fixou nenhum tempo definido, e é tolice tentar marcar datas. O que é importante é estar atento ao cumprimento dos eventos que marcam a aproximação do grande evento, e ter cuidado para que sejamos sempre preparados para não termos vergonha de nos encontrar com Ele em Sua vinda.

Queremos nos livrar da ideia de que há uma data que o Senhor fixou para Sua vinda. Sem dúvida Deus sabe o tempo exato quando ocorrerá. Mas a coisa para marcarmos é que não ocorrerá porque chegou determinada data fixada. Esse é o jeito que ajustamos todos os nossos assuntos humanos, fixando datas, e então fazendo as coisas nessas datas, a menos que comprovem ser impossíveis. Esse não é o jeito aqui. E quanto mais claramente isso for fixado em nossas mentes, melhor entenderemos os planejamentos de Deus. O tempo da Vinda é fixado como o tempo da colheita é fixado, isto é, ocorrerá quando as coisas estiverem maduras. Esse é o princípio que determina o tempo. — S.D. Gordon, Quiet Talks About Our Lord’s Return [Conversas Tranquilas acerca da Volta de Nosso Senhor], p. 177. Fleming H. Revell, New York, 1912.

Em harmonia com isso está a palavra que nosso próprio Senhor falou em Mateus 25:13: “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do homem há de vir”. Temos de estar atentos aos sinais dos tempos (Mateus 24:32 34) e esses sinais nos darão uma ideia geral do tempo da volta de nosso Senhor à terra, e de nossa glorificação com Ele.

IV. A ASSOCIAÇÃO NA GLORIFICAÇÃO.

O texto em Colossenses 3:4 mostra isso nas palavras “então também vós vos manifestareis com ele em glória”. Romanos 8:17 de modo semelhante diz: “E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e coerdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados”. Essa associação na glorificação se baseia no fato feliz de que o plano e propósito de Deus sempre foi transformar todo crente verdadeiro na semelhança da imagem de Jesus Cristo, conforme mostra Romanos 8:29. “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos”. Isso está ligado ao fato de Jesus “trazendo muitos filhos à glória”, assim santificando-os para que eles sejam todos um com Cristo mediante as ações de Deus (Hebreus 2:10-11).

“A ressurreição de Cristo é tanto nosso exemplo quanto nossa prova" (1 Coríntios 15:20; 1 Pedro 1:3). Primeiro, demonstra que a obra é possível para Deus. Segundo, demonstra a suficiência e aceitação da satisfação de Cristo pela culpa de Seu povo: mas a morte física é pois uma parte de nossa penalidade: e só veremos nossa restauração quando formos dotados com os benefícios dessa compra. Terceiro, as Escrituras mostram tal união entre Cristo, O Cabeça e Seus membros; que nossa glorificação deve resultar como a dEle resulta (1 Coríntios 6:15). — R.L. Dabney, Lectures in Systematic Theology [Palestras na Teologia Sistemática], p. 836. Baker Book House, Grand Rapids, 49506, 1985.

Vários termos usados sobre glorificação sugerem ou indicam essa associação com Cristo nesse evento grandioso. A glorificação se chama “a liberdade da glória dos filhos de Deus,” em Romanos 8:21, sugerindo com isso que como Cristo, o preeminente Filho de Deus, é livre de toda fraqueza, e as limitações da carne mortal, assim Seus irmãos também serão. Chama-se “a adoção” em Romanos 8:23, sugerindo nossa posição como filhos adultos de Deus com Jesus Cristo: temos parte em Sua herança com Ele. Chama-se também “a redenção do nosso corpo”, nesse mesmo texto. Isso não só mostra o que é a adoção na Bíblia — a colocação dos filhos adultos de Deus sobre sua herança — mas também mostra que nossos corpos físicos serão redimidos da mortalidade e transformados na semelhança de Seu corpo glorioso e imortal (Filipenses 3:21). É exaltação com Cristo, pois exatamente como Ele foi altamente exaltado depois de ter se humilhado para fazer a vontade do Pai na encarnação (Filipenses 2:5-¬11), assim todo crente verdadeiro tem de se humilhar de modo que ele possa ser exaltado no devido tempo. Veja 1 Pedro 5:6, onde essa exaltação está certamente vindo “no devido tempo”.

Logo antes dessa declaração, Pedro havia falado de ser participante da glória futura. No versículo 1 ele disse: “Aos presbíteros, que estão entre vós, admoesto eu, que sou também presbítero com eles, e testemunha das aflições de Cristo, e participante da glória que se há de revelar”. Ele falou disso como certo porque é certo para todos os crentes, pois eles não podem perder sua salvação, e consequentemente não podem deixar de ser glorificados. O grau da glorificação pode variar por causa de infidelidade, mas não o fato dela. Temos a garantia de que seremos glorificados por causa de Cristo em nós, conforme Colossenses 1:27 declara: “…Cristo em vós, esperança [expectação] da glória”. A ressurreição do corpo, que é a glorificação, é parte integral da salvação, e assim, a glorificação do corpo é absolutamente garantida pela salvação da alma. B. H. Carroll com acerto observa em suas notas sobre Romanos 8:

A plenitude da salvação em nós é a regeneração da alma, sua santificação máxima e a ressurreição e glorificação do corpo. Sempre foi impossível satisfazer os anseios de um coração humano com a esperança da salvação da alma apenas. Está impregnado na própria constituição de nosso ser que nós ansiamos a revivificação do corpo… Daí, a ressurreição dos mortos se torna no sistema cristão uma doutrina importante, conforme aprendemos na carta aos Coríntios: que nossa fé é vã, nossa pregação é vã, estamos ainda em nossos pecados, nossos pais pereceram e os apóstolos de Deus são testemunhas falsas, se os mortos não ressuscitam. Isto é a conclusão dessa doutrina da salvação em nós — An Interpretation of the English Bible [Uma Interpretação da Bíblia em Inglês], Volume XIV, p. 169, 170. Broadman Press, Nashville, 1947.

Paulo também foi inspirado a mostrar essa mesma coisa em 2 Timóteo 2:10: “Portanto, tudo sofro por amor dos escolhidos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus com glória eterna”. Assim, quer judeu ou gentio, todos os vasos de misericórdia — isto é, todos os que Deus misericordiosamente determinou salvar — Ele também preparou para a glória. Romanos 9:23 24 diz: “Para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou, Os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?”

Exatamente como Deus o Pai e Deus o Filho, sendo um, compartilham as coisas que são comuns a cada um, assim também o santo, sendo associado com Cristo, compartilha Sua glória que o Pai deu a Ele. João 17:21 22 revela: “Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um”. Nossa glorificação então se fundamenta na nossa ligação com Cristo por meio do novo nascimento, e é garantida pelo poder onipotente de Deus. A incredulidade pode perguntar: “Como é que pode ser isso?” (Veja 1 Coríntios 15:35). Mas as Escrituras respondem: “Pelo poder de Deus, que é absoluto”. Filipenses 3:21 diz em termos claros: “Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas”. Não há espaço para dúvida nesse assunto se Deus é Deus, e se estamos ligados a Ele por meio da fé salvadora em Seu Filho, Jesus Cristo.

Além do mais, a ligação do crente com Cristo na glorificação se vê em tais textos como 2 Timóteo 2:12; Apocalipse 1:6; 5:10; 2:26 27, e Salmo 149, que falam que os santos reinarão juntamente com Cristo sobre toda a terra no Reino Milenial. A glorificação também envolverá nossa posição como reis e sacerdotes sobre toda a terra. Pois durante o governo milenial de Cristo todo posto do governo civil, e toda posição religiosa, será ocupada por aqueles que não só nasceram de novo, mas também que possuem novos corpos e mentes que são incapazes de erros em julgamento e justiça. É por isso que será um reino de perfeita paz e justiça (Salmo 85:9 11; Isaías 32:17 18). Então a confiança dos santos em Cristo será sustentada diante do mundo inteiro, e Satanás não mais dará honras e riquezas mundanas aos homens maus para fazer parecer que o mal é proveitoso. Com esse aspecto da glorificação se mostrará que Deus abençoa aqueles que confiam nEle e obedecem a Ele, e que ninguém perde permanentemente ao servir a Deus. E de forma semelhante, que seguir Satanás, embora possa parecer temporariamente proveitoso e agradável nesta presente era má, ainda envolverá a perda das glórias da era vindoura, e depois disso, perda eterna.

Quem pode imaginar a realização bendita dessa promessa? Por dois mil anos os santos têm (mais ou menos) vivido como estrangeiros e peregrinos na terra. Muitos deles têm sido difamados, isolados, perseguidos e martirizados. Eles foram até Cristo “fora do arraial, levando o seu vitupério”. (Hebreus 13:13) Mas agora eles serão ricamente recompensados. Eles sofreram “com Ele” e agora eles também serão “glorificados juntos”. (Romanos 8:17) E então se manifestará plenamente que “as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada”. (Romanos 8:18) — A. W. Pink, The Redeemer’s Return [A Volta do Redentor], p. 299. Calvary Baptist Church Book Store, Ashland, KY., sem data.

Uma das mentiras sutis de Satanás com que ele desvia muitas almas sinceras, é a mentira de que é um custo elevado demais ser cristão. Instilou-se na mente carnal de milhões que temos de agarrar o que pudermos agora, pois o futuro é incerto. Mas com essa mentira os homens são enganados e levados a perder essa esperança gloriosa que é estendida como absolutamente certa para todos os santos verdadeiros de Deus, e eles trocam uma glória eterna por um brilho berrante da glória falsa e decadente de alguns minutos da terra. Eles acham as mentiras de Satanás mais fáceis de crer do que as promessas de Deus porque eles são descrentes no coração, e eles estão só fazendo o que lhes vêm naturalmente. E as pessoas não compreendem que, já que pertencem a Deus por direito de criação se não por direito de redenção, é um ato de adultério espiritual amar o mundo (1 João 2:15).

O tempo do homem na terra é desgraçadamente curto — até mesmo quando ele vive além de seus ordenados setenta anos (Salmo 90:10) — e assim Satanás convence o homem de que ele tem de agarrar tudo o que pode, enquanto pode. Mas a verdade é, a vida presente é o tempo da prova e preparação para o mundo futuro — um mundo glorioso para todos os que são dignos dele mediante justificação, santificação e glorificação. Mas quem pode mesmo imaginar a glória do mundo futuro, pois não só envolverá glória inconcebível, mas até mesmo crescimento na capacidade de gozá-la e apreciá-la. Numa descrição do céu, A. H. Strong diz:

O céu envolverá libertação da deficiente vida física e tudo o que a envolve, bem como os restos de mal em nossos corações. O descanso, no céu, será de acordo com o serviço, uma atividade sem cansaço, um serviço que é liberdade perfeita. Seremos perfeitos quando entrarmos no céu, no sentido de sermos livres do pecado; mas cresceremos até maior perfeição depois, no sentido de uma existência maior e mais completa. — Sys¬tematic Theology [Teologia Sistemática], p. 1031. Fleming H. Revell, New York, 1954.

Mas tragicamente, muitos falham na prova do que é mais importante para eles, e por meio de egoísmo, que sempre leva ao fracasso, eles perdem o bem máximo. A prova principal que vem aos homens durante esta vida presente é: “O que você fará com Jesus Cristo, o Filho de Deus? Você se arrependerá do pecado contra Deus, e alegremente confiará no Seu Filho para ser seu soberano Senhor e Salvador? Ou você tentará fazer tudo com as próprias forças?” Milhões diariamente confiam em sua própria capacidade, e assim, colocam-se sob a maldição de Deus por causa de sua incapacidade de perfeitamente estarem à altura dos requisitos (Gálatas 3:10), mas essas tentativas são um ato de adoração a si mesmo, que é idolatria, e assim, trazem a maldição de Deus (Jeremias 17:5). Qual será sua condição eterna, querido leitor? Será glória eterna com Cristo ou vergonha eterna com Satanás e todos os outros rebeldes? Tudo depende de se você está ligado com Cristo por meio da fé em Sua obra redentora.

 

Tradução: Julio Severo
Revisão e Edição: Calvin Gardner, 05/2014
Autor: Pr Davis W. Huckabee
Fonte: www.PalavraPrudente.com.br