o A Causa de Deus e A Verdade: Seção 7 - Salmo 81:13, 14 por John Gill D.D.

A Causa de Deus e A Verdade - Parte I - John Gill D.D.

Seção 7 - Salmo 81:13, 14

“Oxalá me escutasse o meu povo! Oxalá Israel andasse nos meus caminhos! Em breve eu abateria os seus inimigos e voltaria a minha mão contra os seus adversários.”

Esta passagem é produzida pelos Remonstrantes para provar que a graça de Deus na conversão pode ser resistida. Eles [1] também usam estes versículos para argumentar que os santos podem perder a eleição divina. Um autor já falecido [2] declarou que tais versículos são irreconciliáveis com os decretos da eleição e da reprovação, bem como irreconciliáveis com a doutrina da redenção particular de Deus. Este autor ainda afirmou que esta passagem é a prova de que os homens por conta própria têm capacidade suficiente de fazer o que Deus quer que eles façam. Contudo,

I. consideramos ao admitir que as palavras contêm o desejo de Deus para o bem-estar espiritual e a conversão dos homens. Tal desejo só pode ser atribuído a Ele em um sentido figurado, como foi observado na seção anterior. O desejar não pode ser atribuído a Deus no mesmo sentido que é atribuído aos homens, os quais desejam muitas vezes aquilo que eles não têm a capacidade de realizar e, portanto, desejam que seja feito por outro. Já em relação a Deus, não se pode dizer isso dEle sem impugnar a sua onipotência. Quando dizem que Deus deseja, como vamos supor aqui, a conversão e obediência dos homens, esse desejo apenas indica que tal seria bom e agradável a Ele. Contudo, isso não quer dizer que os homens têm a capacidade suficiente de converter a si mesmos, nem de obedecer aos mandamentos de Deus Também não podemos afirmar que é a vontade determinante e efetiva de Deus que cada indivíduo da humanidade seja convertido e venha a obedecer aos seus mandamentos de uma forma aceitável a Ele. Se esta fosse a Sua vontade determinante, todos os homens seriam convertidos e obedeceriam. Assim, a interpretação de tal desejo, por mais universal e extensa que seja, não milita contra a graça de Deus em distinguir, escolher, resgatar e chamar apenas alguns, já que tal desejo declara somente aquilo que Deus aprova, e não o que Ele tem determinado a ser.

II. O desejo pelo bem-estar espiritual das pessoas aqui mencionadas, supondo que é isto que esteja sendo desejado, é só para o povo de Israel, aqueles que professam Deus, e os quais Ele chama de “meu povo”. Ele não se refere a toda à humanidade, ou a cada filho individual de Adão, conforme alguns acham que deveria ser e vão em busca de argumentos contra a eleição, a redenção e a vocação eficaz de alguns em particular. Além disso, apesar de toda a sua perversidade, rebelião e má conduta, seria difícil provar que estas pessoas das quais falamos não foram escolhidas por Deus, redimidas por Cristo, movidas pelo poder da graça divina e finalmente salvas.

III. As palavras, se devidamente examinadas, demonstrarão não conter um desejo e sim uma hipótese ou suposição. Deveria ser lido assim: Se o meu povo tivesse me ouvido, se Israel tivesse andado nos meus caminhos, eu teria, etc. R. Sol. Jarchi interpreta “wl” por “sa”, e R. Aben Ezra por “wlya”, e a Septuaginta por “eij”, todos os quais significam “se”. Da mesma forma é lido no idioma sírio, árabe, etíope, na Vulgata Latina, Junius e Tremellius. Portanto, assim como os [3] Contra- Remonstrantes observaram com razão, não deve ser entendido que estas pessoas tinham a capacidade de obedecer aos mandamentos de Deus, e nem que o obedecer dependia da vontade deles. Similarmente, não podemos afirmar que se o homem guardar a lei perfeitamente, ele será justificado por assim fazer. Portanto, não podemos dizer que simplesmente pelo fato de um homem acreditar que ele poderá ser salvo, a fé agora depende da vontade dele, ou que os homens têm a capacidade de crer. Além disso,

IV. As palavras não devem ser entendidas como se referissem a um trabalho interior de graça salvadora e a conversão, ou à obediência espiritual e evangélica que brota a partir desta obra de graça, com as bênçãos espirituais e eternas que a acompanham. Mas referem-se a uma obediência externa aos mandamentos de Deus, que seria seguida com favores temporais tais como: a subjugação dos seus inimigos debaixo deles, a alimentação deles com o mais fino trigo e o satisfazer deles com o mel extraído da rocha. Devemos ler e entender, neste mesmo sentido, as palavras de Isaías 48:18, as quais geralmente acompanham qualquer discussão destes versículos que agora tratamos em Salmo 81:13-14, pois os de Isaías também devem ser lidos condicionalmente: Ah! Se tivesses dado ouvidos aos meus mandamentos! Então seria a tua paz como um rio, e a tua justiça como as ondas do mar. Tal leitura condicional é evidenciada pelo Targum, a Septuaginta, e as versões em árabe, por R. David Kimchi, Junius e Tremellius. Nenhuma destas passagens têm a ver com o bem-estar espiritual, mas sim o bem-estar temporal do povo de Deus, Israel, como não contém um desejo para a salvação de almas, mas sim uma afirmação de bênçãos condicionadas à obediência aos mandamentos de Deus. A passagem em Oséias 11:8, que às vezes acompanha o tratamento de Isaias 48:18 e Salmo 18:13-14, é também uma forma humana de falar, como R. Aben Ezra observa aqui; e declara a preocupação de um Deus compassivo para o bem-estar temporal de Efraim e Israel, não é uma afirmação retórica de afeto, nem um desejo para o bem-estar espiritual de qualquer um, e muito menos uma afirmação dirigida a toda a humanidade.

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ANOTAÇÕES: [1] Em Coll. Hag. art. 3. 4. p. 216, 219; art. 5 p.15, ed. Bert.

[2] Whitby, pp. 77, 181, 222; ed. 2, 76, 177, 216.

[3] Em Coll. Hag. art. 3. 4. p. 232.

 

Autor: John Gill,D.D.
Tradução: Benjamin G.Gardner 05/2014
Revisão: Charity D. Gardner e Calvin G Gardner, 05/2004
Revisão gramatical: Erci Nasimento 08/2014
Fonte: www.PalavraPrudente.com.br