Cap 24 - O ESPÍRITO SANTO

O DOM DE LÍNGUAS

 INTRODUÇÃO

O interesse pelo dom de línguas tem tido um crescimento fenomenal nos últimos anos. Atualmente multidões reivindicam possuir este dom. Como sempre, os filhos de Deus "provam todas as coisas" (I Tessalonicenses 5:21) por um estudo cuidadoso da Palavra de Deus.

I. O REGISTRO DE LÍNGUAS NA BÍBLIA.

O dom de línguas é mencionado apenas em três livros do Novo Testamento (Marcos 16:17-20, Atos 2:1-13; 10:45-46; 19:6, I Coríntios 12:1 a 14:40). É informativo notarmos que poucos livros das Escrituras mencionam línguas. Entre vinte e uma epístolas do Novo Testamento, nas quais salvação, gozo Cristão, crescimento espiritual, qualificações ministeriais e o trabalho do Espírito de Deus são mencionados, contudo em uma única são mencionadas as línguas. É inexplicável o dom de línguas como é visto no movimento moderno de línguas. (Deveria ser notado que na ocasião em que foram mencionadas as línguas em uma epistola tratava-se de repreensão devido a elevação e o abuso sobre este dom.)

II. A NATUREZA DAS LÍNGUAS.

O dom de línguas era a habilidade sobrenatural de falar em um idioma que não se havia adquirido através de estudo. Não há nenhuma razão Bíblica para acreditar que este idioma era qualquer outra coisa além de um idioma humano existente. Em Atos 2:1-11, os discípulos falaram em idiomas nativos dos muitos judeus estrangeiros presentes em Jerusalém no Pentecostes. Em I Coríntios 14:16 e 23, os Coríntios são advertidos que os indoutos não podiam entender as línguas. Essas declarações seriam sem sentido se as línguas não fossem idiomas humanos já conhecidos por alguns. Em I Coríntios 14:21, Paulo cita uma profecia do Velho Testamento relativa ao propósito das línguas. Esta profecia trata-se do idioma humano que revela novamente a natureza da língua em Corinto.

O conceito moderno de línguas como um idioma divino, ou como fala extática tem uma dupla origem:

A. Quase toda forma de paganismo de tempos primitivos até o presente foi caracterizada como alguma forma de fala extática. Até mesmo em muitas das seitas que negaram os ensinamentos básicos do Cristianismo houve reivindicações para que tivessem o dom de falar em uma língua divina (os Mórmons, Shakers). É desnecessário dizer que os cristãos sempre viram estas atividades como demoníacas (Isaías 8:19).

B. O conceito de línguas Bíblicas como uma forma de fala extática foi introduzido em teologia Cristã pelos teólogos alemães racionalistas. Eles popularizaram a crença de que as línguas Bíblicas não eram idiomas humanos para eliminar a natureza milagrosa do dom.

III. O PROPÓSITO DAS LÍNGUAS.

Nosso Senhor deixa muito claro que as línguas eram um sinal (Marcos 16:17). Quando a igreja de Corinto começou a usar línguas como meio de auto-glorificação, foi-lhes falado que precisavam amadurecer e aprender que as línguas deveriam ser usadas como um sinal (I Coríntios 14:20-22). Deixe-nos examinar este ponto importante com detalhes.

Em I Coríntios 14:21, Paulo cita Isaías 28:11 como prova de que as línguas eram um dom de sinal. Em Isaías capítulo 28, achamos Isaías reprovando os anciões de Judá pelos pecados que eles haviam cometido. Eles não se arrependeram, mas zombaram da pregação de Isaías como se ela fosse inferior ao nível intelectual que eles possuíam (vs. 9-10). Sendo assim Isaías deu a profecia em que Deus falou a eles pelas línguas estrangeiras do exército assírio que estava invadindo. Com isto, Paulo conclui que as línguas são um sinal.

Nós também poderíamos mencionar que as línguas não eram um sinal a todos os incrédulos, mas para incrédulos judeus em particular. Isto é visto em Isaías capítulo 28, e também no Novo Testamento. Em todos os casos registrados no livro de Atos o dom de línguas era um sinal aos judeus. É interessante também lembrar-nos que a igreja em Corinto começou ao lado de uma porta de uma Sinagoga judia (Atos 18:7). Talvez isto explique em parte o destaque do dom naquela igreja.

Continuando nosso exame sobre o propósito das línguas deveríamos notar que as línguas agiram como um sinal de confirmação para pelo menos três verdades bíblicas diferentes.

A. A veracidade do evangelho.
As línguas eram dadas como uma confirmação da verdade do evangelho (Marcos 16:17-20, Hebreus 2:3-4). Vemos isto ilustrado em Atos 2:1-41.

B. A recepção dos Gentios no reino de Deus.
Em Atos 10:44-48, as línguas agiram como um sinal para confirmar a ocasião em que Deus havia concedido o arrependimento ao Gentios. Isto foi recebido até mesmo como prova pela igreja de Jerusalém (Atos 11:1-18).

Algumas pessoas podem questionar como as línguas poderiam ser um sinal aos crentes judeus levando em conta I Coríntios 14:22. A resposta é que embora aqueles judeus tenham crido em Cristo contudo as línguas agiram como um sinal de outra área na qual eles eram culpados de incredulidade (a Possibilidade da conversão dos Gentios).

C. O julgamento vindouro.
Em Isaías 28:11, as línguas eram um sinal de julgamento. Muitos crêem que as línguas foram uma advertência para Israel sobre a invasão Romana em 70 d.C. que levou a término a existência de Israel como nação durante quase mil e novecentos anos.

Tendo notado o verdadeiro propósito das línguas nós estamos agora em uma posição melhor para lidarmos com alguns dos erros cometidos referentes a este assunto. Nós poderíamos mencionar primeiramente que alguns ensinaram que as línguas foram dadas para auxiliar a pregação do evangelho. Não há nenhuma evidência para esta idéia no Novo Testamento. As línguas como um sinal vindicaram o evangelho, mas nunca foram usadas para auxiliar à pregar isso. Homens como Paulo, poliglotas, parecem não ter tido nenhuma dificuldade de comunicação no Império Romano. Até mesmo em Atos 2:1-41 não há nenhuma evidência de que o dom de línguas agiu diferentemente de um sinal. Veja em Atos 2:6-12, os judeus estrangeiros ficavam pasmos com o dom de línguas. Essas pessoas eram pelo menos bilingües. As línguas não eram dadas de forma que eles pudessem entender o evangelho mas, contrariamente, para que eles pudessem acreditar nele. Muitos daqueles foram convertidos e ficaram na igreja de Jerusalém, contudo a comunicação nunca foi um problema.

Outro conceito falso é o ensino moderno e popular de que as línguas são para a edificação íntima do usuário. Isso, é claro, contradiz o ensino Bíblico sobre o propósito de línguas e também a verdade que dons são sempre para o corpo de Cristo como um todo. É duro acreditar que Deus reteria de muitos (I Coríntios 12:11 e 30) meios de crescimento espiritual. Não há registro de uso particular de línguas no Novo Testamento.

Deixe-nos examinar alguns dos versículos usados para ensinar que as línguas devem ser usadas em oração e adoração privada.

I Coríntios 14:2 - Este versículo não está descrevendo oração. A razão pela qual a língua falada pelo homem e não interpretada, e que "ninguém entende", é tida como evidência de que ele está falando com Deus. Paulo não está discutindo a oração particular mas o erro de se utilizar línguas não interpretadas no culto da igreja. Se eu usasse Espanhol em uma igreja que fala Inglês somente Deus me entenderia e a igreja não seria ajudada.

I Coríntios 14:3-5 - Paulo está falando sobre a superioridade da profecia sobre as línguas em um culto público da igreja. Aquele que profetiza edifica a igreja enquanto que aquele que fala em línguas edifica a si mesmo. Não há aqui nenhum ato íntimo de devoção.

Se um inglês testemunhar em uma igreja russa o seu coração pode ser abençoado mas a igreja não fará proveito disso. Este mesmo princípio era usado no exercício das línguas. Note também que nos versos 4-5 Paulo está discutindo uma situação em que o locutor da língua poderia interpretar suas próprias palavras. O indivíduo que fala em uma língua a qual nem mesmo ele compreende não pode ser abençoado a não ser que alguém interprete-a.

I Coríntios 14:14-15 - Paulo está falando aqui sobre oração em uma língua desconhecida, mas apenas para reprovar a prática. A oração deve ser administrada com entendimento (vs. 15). Isso proibiria a idéia de orar em uma língua em que não se entende. A palavra battalogeo traduzida como "vãs repetições" em Mateus 6:7, são meios para "balbuciar sem pensar". A pessoa nunca deve orar desta maneira.

I Coríntios 14:27-28 - Paulo não está recomendando aqui a prática de falar em língua intimamente. O seu propósito é proibir o uso de línguas sem interpretação na igreja. Estes preceitos eram usados por homens de Deus em dias anteriores para reprovar a prática Católica Romana de administrar adoração religiosa em latim. Os homens podem orar em qualquer idioma que eles entendem em secreto. Eles não devem orar em um idioma que eles não entendem nenhum lugar. Em público eles devem falar em um idioma inteligível pela igreja ou então as suas palavras devem ser interpretadas.

O conceito pentecostal das línguas como sendo uma ajuda à devoção particular é contrário a tudo o que a Bíblia ensina sobre línguas.

IV. A REGULAMENTAÇÃO DAS LÍNGUAS.

As desordens acontecidas em Corinto fizeram que Paulo estabelecesse algumas regras. Esses regulamentos devem ser seguidos por todos os que pensam ser espirituais (I Coríntios 14:37-38).

A. Tudo deve ser feito de maneira ordenada - I Coríntios 14:32-33; 40.

B. As línguas não devem ser buscadas - I Coríntios 12:18.
A igreja, como um todo, deve desejar que os melhores dons (aqueles que edificam) possam ser encontrados entre os membros (I Coríntios 12:31). As línguas foram um dos menores dons (I Coríntios 14:5).

C. As línguas devem ser interpretadas - I Coríntios 14:28.

D. Só uma pessoa pode falar a cada vez - I Coríntios 14:27 e 30.

E. Em qualquer culto somente três pessoas podem falar em línguas - I Coríntios 14:27.

F. As mulheres não podem falar na igreja - I Coríntios 14:34-35.

G. Não devem ser proibidas as línguas - l Coríntios 14:39.
Paulo teve receio que o seu ensino sobre a inferioridade das línguas como um dos meios de edificação da igreja fizesse que elas fossem proibidas. (Este versículo obviamente não seria atual se as línguas houvessem cessado. As Igrejas Batista têm todo o direito de proibir a imitação moderna deste dom).

V. A CESSAÇÃO DAS LÍNGUAS.

Em I Coríntios 13:8, fomos instruídos que as línguas cessariam. Isto provavelmente aconteceu em 70 d.C., quando Israel como uma nação perdeu sua existência incorporada. O dom definitivamente cessou entre 95-96 d.C., quando as Escrituras foram completadas. (Para maiores informações veja a lição dos dons temporários).

VI. AS LÍNGUAS HOJE

Alguns podem estar perguntando-se como nós explicaremos o fenômeno moderno de falar em línguas encontrado no movimento Pentecostal. Por estas "línguas modernas" contradizerem a Bíblia no ensino relativo à sua natureza, propósito, duração, e regulamento elas não podem ser de Deus. Deus não contradiz a sua Palavra (I Coríntios 14:37, Mateus 5:17-18). A experiência moderna de línguas pode ter várias explicações.

A. Podem ser falsas.

B. Podem ser psicologicamente induzidas.
Ao contrário do Novo Testamento os defensores das línguas modernas ensinam as pessoas como falar em línguas. Muito disso parece ser uma forma de auto-hipnose, na qual o cérebro entra em curto circuito e começa a falar sem parar.

C. Podem ser de inspiração demoníaca.
Muitos são os acontecimentos em demônios falam através dos possuídos. Os cristãos sempre viram a fala extática dos pagãos como tendo procedência demoníaca. Quando a pessoa considera algumas das doutrinas e dos frutos do mal que saiu do Pentecostalismo fica óbvio que demônios realmente estão ativos. (Isaías 8:19).

 

Autor: Pr Ron Crisp
Tradução: Albano Dalla Pria
Revisão e Editoração: Calvin Gardner
Fonte: www.palavraprudente.com.br