A Palavra Final de Deus

Capítulo I -Uma Breve História da Revelação Divina

 

A Palavra Final de Deus

 

(Um Estudo da História da Revelação Divina)

Pastor Ron Crisp

2007

Capítulo I - Uma Breve História da Revelação Divina

 

Deus falou? De que modo Ele falou? O que foi que Ele disse? Será que Ele disse tudo o que Ele tinha intenção de dizer? Onde é que nós podemos encontrar um registro acurado de Sua revelação ao homem? Aqueles que procuram conhecer, adorar e servir a Deus não podem evitar essas perguntas.

Os cristãos afirmam que Deus falou em uma variedade de formas. Assim como música e arte são atos de autoexpressão, assim também a criação de Deus é um ato de autorrevelação.

“Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos.” (Salmos 19:1[1]).

“Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou.

Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis;” (Romanos 1:19-20)

Não tivessem os corações dos homens sido enegrecidos pelo pecado, todo vislumbre de florestas, céu e mar seria um sermão.

Até mesmo no coração humano, Deus não se deixou sem testemunho. A consciência, em uma medida limitada, fala da lei de Deus e do julgamento vindouro. Até mesmo o ladrão que justifica sua ambição percebe claramente o mal do roubo quando ele se torna a vítima. No juízo, Deus não terá problema em desmascarar a hipocrisia daqueles que alegam não ter conhecimento do certo e errado.

Os teólogos se referem a tais formas de autorrevelação divina como sendo “revelação natural”. Enquanto que a revelação natural é de todas as maneiras digna do Todo-Poderoso, ainda assim ela falha em ir de encontro à necessidade humana em seu estado caído. A criação clama por um Criador, mas não pode levar os homens a adorá-Lo ou até mesmo a reconhecer a sua existência. A consciência fala da lei de Deus, mas não pode produzir obediência. Nem pode ela ainda encontrar um caminho de perdão para o transgressor da lei. Alguém poderia estudar o volume da natureza por toda a vida e nunca leria:

“Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.” (Romanos 5:8)

Deus, em Sua graça, supriu nossa necessidade. Na revelação, Ele se moveu além do natural, indo para o sobrenatural. Ao comum, Ele acrescentou o especial. Na revelação especial, Deus se revelou a Si mesmo, a Sua vontade e o Seu gracioso plano de redenção através de Jesus Cristo. Esse presente da revelação é suficiente para a salvação e como um guia para a adoração e a obediência.

A Bíblia declara-se ser um registro inspirado e inerrante de revelação especial. Os cristãos aceitam essa declaração. Eles crêem ser a Bíblia a “Palavra de Deus”.

Não é nenhuma surpresa que Deus viesse a produzir um livro. O homem deve ser tratado usando o veículo da linguagem humana. Sendo nossa memória limitada e falível, esse registro precisou ser escrito. Nós precisávamos de um registro acurado, completo e permanente. Precisávamos de um livro! Note as palavras que a profecia coloca na boca de Cristo:

“Então disse: Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito.” (Salmos 40:7)

A história da revelação registrada na Bíblia mostra que a revelação foi de natureza progressiva. A jornada do Éden ao Calvário foi uma jornada longa e cheia de eventos. Com o passar dos séculos, Deus revelava mais e mais de Si mesmo e de Seu plano. O progresso foi esporádico, mas não aleatório. Cada passo foi em direção ao objetivo. Cada palavra foi em preparação para a Sua palavra final. Há cerca de dois mil anos, Deus falou a Sua palavra final. O sol da revelação alcançou o seu zênite.

A epístola aos Hebreus nos dá uma breve declaração disso. Nós poderíamos chamar esses versículos de uma “breve história da revelação especial.”

“Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho,

A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo.” (Hebreus 1:1-2)

João Calvino vai ao âmago da questão nesta breve tabela de Hebreus 1.1-2.

“Deus falou

Antigamente pelos profetas: agora pelo Filho

Então aos pais:                     mas agora a nós

Então em muitas épocas:                agora no fim dos tempos.” [2]

Ao olhar para Hebreus 1:1-2, nós entendemos porque a Bíblia tem duas divisões principais: O Velho e o Novo Testamento. Nos referimos a essas duas divisões da Escritura como sendo “testamentos” porque cada uma delas se centra em uma aliança divina. O Velho Testamento registra a história e os detalhes da aliança que Deus fez com Israel no Monte Sinai. O Novo Testamento fala da história e exposição da Nova Aliança que veio a ser implantada pela morte de Jesus O Cristo.

O Velho Testamento então registra a história e conteúdo de revelação especial anterior à vinda de Cristo. Esta veio em uma variedade de maneiras e através de muitas pessoas. Profetas, sacerdotes, reis, soldados, mulheres e até mesmo crianças ouviram Deus falar. Ele falou a Adão no jardim e a Moisés na sarça ardente. Ele falou a Miquéias sobre Belém, a Isaías sobre o Calvário e a Joel sobre o Pentecostes. Deus falou de Sua criação, Sua santa lei, Sua nação escolhida e dos detalhes de Sua aliança com Israel. Repetidamente, Ele falou de um Salvador por vir, cuja vinda introduziria os últimos dias e uma nova aliança.

Esse período inicial de revelação especial se deu desde a época de Adão e avançou até seu desfecho com o encerramento do ministério do profeta Malaquias. O relato dessa atividade reveladora está escrito pela inspiração nos 39 primeiros livros da Bíblia. Esses livros são aquilo a que chamamos o “Velho Testamento”.

Nessas revelações preliminares, Deus estava preparando o caminho para a Sua palavra final. Ao dar Sua santa lei, Deus expôs o pecado do homem e sua necessidade de um Salvador. Profecias messiânicas asseguraram que quando Jesus viesse, Ele teria o testemunho delas às suas reivindicações. Os tipos, ofícios, cerimônias, e mesmo o povo do Velho Testamento, ilustraram conceitos e produziram uma linguagem que possibilitou que nós entendêssemos a Pessoa e a Obra de Cristo.[3] Tendo, no tempo de Malaquias, dito tudo, a não ser Sua palavra final, Deus não disse nada mais por quatrocentos anos.[4]

Ao irmos para o segundo período de revelação especial, nós novamente observaremos o “mini esboço” dado em Hebreus 1:1-2.

“Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho,

A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo.”

A palavra final de Deus veio a nós através de Jesus Cristo. Sua vinda é tão significativa que ela dividiu tanto o calendário histórico quanto a nossa Bíblia. Cristo Jesus é o antítipo de todos os tipos da velha aliança, o assunto dos profetas e o objeto da fé futurística de Israel.

          Tão grande foi a revelação feita através do Filho, que Ele é chamado: “O Verbo”.

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

Ele estava no princípio com Deus.” (João 1:1-2)

“E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (João 1:14)

Quem pode considerar completamente a glória dAquele que podia verdadeiramente dizer “Eu Sou a luz do mundo”?[5] Que verdade poderia ser adicionada à revelação dAquele que é “a verdade”?[6] Será que a teologia do “Deus manifesto em carne”[7] precisa de acréscimos?

A vida de Cristo na terra é nosso único exemplo perfeito. Outros devem ser seguidos apenas na medida em que eles seguem a Cristo. Seus ensinos são a essência de toda a verdade do Novo Testamento; o botão a partir do qual a flor da exposição apostólica desabrochou. Sua obra salvadora são as “boas novas” a serem proclamadas a todos. Ele é a completude da revelação de Deus nesta era; Ele é a palavra final de Deus.

Quão belamente isso foi expresso pelo saudoso F. F. Bruce em sua exposição de Hebreus 1:1-2:

“O estágio principiante da revelação foi dado em uma variedade de formas: Deus falou em Suas poderosas obras de misericórdia e de julgamento, e pelos Seus servos, os profetas, fez conhecido o significado e o propósito dessas obras; eles foram admitidos em Seu conselho secreto e conheceram seus planos antecipadamente. Ele falou em meio a tempestade e trovões a Moisés, e em uma voz mansa e delicada a Elias. Àqueles que não atentaram às águas brandas de Siloé, Ele falou através do transbordamento do Eufrates. Sacerdotes e profetas, sábios e poetas foram, em suas diversas maneiras, Seus porta-vozes; ainda assim, todos os atos sucessivos e diversos modos de revelação nas eras antes à vinda de Cristo não se somaram a ponto de completar a totalidade daquilo que Deus tinha a dizer. Sua palavra não foi completamente expressa até quando Cristo veio; mas quando Cristo veio, a palavra falada nEle foi de fato a palavra final de Deus. Nele todas as promessas de Deus vão de encontro com um correspondente “sim!” que sela o seu cumprimento ao Seu povo e evoca deles um correspondente “amém!” A história da revelação divina é um relato de progressão até chegar a Cristo, mas não há progressão além dEle. É ‘no fim da época’ que Deus falou em Cristo e, por esta expressão, nosso autor quer dizer mais do que só “recentemente.” É uma tradução literal da expressão hebraica que é usada no Velho Testamento para estipular a época em que a palavra dos profetas seria cumprida, e o seu uso neste versículo significa que a vinda de Cristo, ‘de uma vez por todas no fim da época’, (Hebreus 9:26, RSV[8]) inaugurou aquela época do cumprimento. Os porta-vozes anteriores de Deus eram Seus servos, mas para a proclamação de Sua última palavra ao homem, Ele escolheu Seu filho[9].



[1] A não ser anotação em especial, todas as referências são da ACF (Almeida Corrigida Fiel) da Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, São Paulo, 2007.

[2] João Calvino, New Testament Commentaries; (Comentários do Novo Testamento) A New Translation (volume on Hebrews and I and II Peter) trans. W. B. Johnson (Grand Rapids: Eerdmans Publishing Co., reprint 1974) p.5.

[3] Considere isso na próxima vez em que você pensar em Cristo como o cordeiro de Deus, um sacrifício pelos pecados, ou nosso grande Sumo Sacerdote.

[4] O período de tempo entre o encerramento do Cânon do Velho Testamento e a vinda de Cristo é normalmente referido como “os quatrocentos anos de silêncio.”

[5] “Falou-lhes, pois, Jesus outra vez, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida.” (João 8:12)

[6] “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (João 14:6)

[7] “E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória.” (I Timóteo 3:16)

 

[8] “for then he would have had to suffer repeatedly since the foundation of the world. But as it is, he has appeared once for all at the end of the age to put away sin by the sacrifice of himself.” Hb 9.26, Revised Standard Version - Fonte: http://quod.lib.umich.edu/cgi/r/rsv/rsv-idx?type=DIV1&byte=5433128

[9] F. F. Bruce, The Epistle to the Hebrews (Grand Rapids: Eerdmans Publishing Co., 1973) p.2-3.

 

Autor: Ron Crisp 2007

Tradução: Eduardo Alves Cadete

Edição e formatação: CGG 06/2012

Revisão Gramatical: Robson Alves de Lima 06/2012

Fonte: www.palavraprudente.com.br