Cap 04

PREMISSAS ANTIBÍBLICAS DE VASTO ALCANCE PRESSUPOSTAS COMO ALICERCES DA POSIÇÃO PRESBITERIANA

Dr. W. C. Taylor

Capítulo IV

Arquimedes disse: “Dêem-me um ponto de apoio e levantarei o mundo.” Nosso mui digno paladino do sacramento duvidoso pronuncia como se fossem verdades axiomáticas, por todos confessadas, as teorias mais estupendas que, longe de serem terreno comum e concedido entre batistas e presbiterianos, são para nós a mais franca negação de tudo quanto consideramos mais evangélico. Para nós a sua alavanca não encontra em tais premissas contestadas nenhum ponto de apoio.

a). A mais estupenda teoria que o autor usa constantemente sem vislumbre de prova como premissa de conclusões variadíssima é a suposta exclusão de pessoas não adultas da capacidade de fé e o abismo que ele abre entre o estado religioso de adultos e menores. Esta premissa é contrária à experiência , é paupérrima em discernimento psicológico, é antibíblico, é negada mil vezes pela observação pedagógica e ministerial, é contra o conhecimento prático que todo pai ou boa mãe observante tem a respeito de seus filhos. Em edificar o seu templo doutrinário com premissas dessa natureza o bom do construtor está como que usando madeiras de pinho e essas já carcomidas pelo cupim. Com um empurrão tudo rui por terra.

Primeiro notemos como esta distinção arbitrária é a teoria mais querida do ansioso defensor do batismo infantil. Ele volta repetidas vezes a esta fonte de refrigério, para se animar para novas investidas:

“Mas de quem exige isto o texto (Mar. 16:16)? Não de todos que podem ser salvos, mas apenas de adultos” (p.8).

O texto (Mat. 28:19) só trata de adultos e, portanto, só destes afirma a necessidade de crer para poderem ser batizados e salvos. De crianças nada fala e, portanto, nada exige nem proíbe a elas.” (p. 8).

Na p. 9 fala do absurdo de concluir para crianças de um texto que só visa a adultos. Na mesma página ele dá um silogismo, cuja segunda premissa é:

“Ora, só um adulto pode ter fé.”

Não contesta esta premissa. Na p. 10 ele dá outro silogismo positivo, cuja premissa segunda é: “um adulto pode crer.” E assim em muitos lugares.

Ora, nada é mais largamente repudiado pelo testemunho cristão. Sei, por experiência pessoal da salvação que gozo em Jesus Cristo, que eu a recebi pela fé cinco anos antes de findar minha menoridade, e que por nove anos antes de crer eu era conscientemente um incrédulo, recusando o evangelho e a salvação de Deus deliberadamente, como qualquer outro pecador rebelde. Entendi perfeitamente o evangelho desde que tive seis anos de idade como o entendo hoje, e, se não fosse a inerente depravação do meu coração juvenil, eu teria sido crente naquela idade, como meu irmão o foi com oito anos, sendo batizado com nove anos.

E se o polemista Presbiteriano Independente quisesse ouvir testemunho cristão igual, são milhões de crentes agora vivos que lhe diriam: Eu me converti, me batizei e servi a Cristo na sua Igreja longos anos da minha juventude e mocidade antes de chegar a ser adulto.

Carey Bonner, de Londres, eminente batista e obreiro mundial nas Escolas Dominicais, no seu livro The Christ, the Child and the Church (“O Cristo, a Criança e a Igreja”) nos dá amplo testemunho, sobre isto. 516 ministros evangélicos, em resposta a um questionário, testificaram que no caso de 73% dos convertidos a idade de decisão religiosa é de 18 anos para baixo. 400 ministros testificam que 48% dos convertidos que batizaram eram meninos que vieram da Escola Dominical. O Sr. Bonner dá uma análise de 3.500 casos de conversão: 1,78% dos homens e 2,79% das mulheres foram convertidos com menos de dez anos. De 10 para 11 anos, 3,68%dos homens e 6,15% das mulheres tinham sido convertidos. De 12 para 13 anos, 10,12% dos homens e 16,50% das mulheres tinham sido convertidos; de 14 para 15 anos, 19,63% dos homens e 27% das mulheres se converteram; de 16 a 17 anos de idade, 23,15% dos homens e 23,24% das mulheres; de 18 a 19 anos, 17,11% dos homens e 11,80% das mulheres; de 20 a 21 anos, 9,84% dos homens e 4,03% das mulheres; de 22 a 23 anos, 3,80% dos homens e 3,30% das mulheres; de 24 a 25 anos, 3,18% dos homens e 1,46% das mulheres; de 26 a 27 anos, 1,73% dos homens e 1,09% das mulheres; de 28 a 29 anos, 1,06% dos homens e o,36% das mulheres; de 30 a 31 anos de idade, 0,84% dos homens e 0,36% das mulheres; no resto da vida 4,04% dos homens e 1,90% das mulheres. Estas investigações de tantas conversões em Londres mostram que entre 1.464 mulheres cristãs apenas 9% se converteram depois de adultas; e dos homens apenas 14%. A teoria de nosso irmão, se tivesse sido adotada pelo mundo evangélico, teria devotado ao inferno ao menos 75% dos crentes atuais nas terras evangélicas.

O Sr. Bonner perguntou a 300 ministros: “A que idade foi que o irmão se tornou crente em Cristo como seu Salvador?” Nenhum dos 300 se fez crente depois de chegar a 29 anos de idade; um com 29 anos, nenhum de 24 a 28 anos, vinte e nove de 19 a 23 anos, e de 10 a 18 anos duzentos e setenta. Mas nosso teólogo diria aos seus 270 colegas: “Senhores, é impossível. Os senhores não entendem sua própria experiência de salvação. Só um adulto pode crer em Cristo evangelicamente e ser salvo.”

Dos mesmos ministros, o testemunho foi que, dos que receberam na igreja pela profissão de fé e batismo, 66% entraram antes de ter 18 anos de idade. 212 destes 300 ministros deram a idade normal para conversão com menos de vinte anos de idade.

Num grupo de 25 eminentes missionários, o Sr. Bonner perguntou a idade de cada um quando foi salvo. 24 dos 25 se dedicaram à sua carreira antes de ter 14 anos de idade.

Spurgeon levou cinco longos anos em tremenda luta pela solução de seu problema religioso, de dez a quinze anos de idade, e com quinze anos foi salvo, batizado e logo começou a pregar, e terminou seu primeiro pastorado, começando seu notável ministério em Londres antes de ter 21 anos. E igual devoção a Cristo, longos anos antes de ser adulto, é o testemunho de inúmeros dos mais eminentes ministros na história cristã.

De fato, os melhores crentes de nossos tempos foram convertidos para a plena fé salvadora e batizados sob profissão desta fé muito antes de ser adultos.

O propósito do polemista é transparente como a água. Ele quer obrigar os batistas à escolha entre os dois alvitres: ou batizar crianças e considera-las membros da igreja na infância ou andar toda a religião até que todo o mundo esteja com vinte e um anos para cima. Mas nada nos é mais detestável, mais falso e mais injusto do que semelhante idéia. Nós evangelizamos os nossos filhos menores. E embora o nosso injuriador o contradiga, temos provas sem conta de que eles crêem no Salvador. Queremos crer que muitos filhos de presbiterianos também crêem quando ainda meninos. Aliás, vários filhos de pastores nos afirma isto, alguns sob nossa própria pregação do evangelho.

Agora, que é um adulto? Quem sabe responder? As leis modernas dão aos moços uma emancipação da autoridade paterna com 21 anos de idade, mas podem se casar antes disto. Os judeus, porém, só consentiram terminar a menoridade aos trinta anos. Crê nosso irmão que nunca na Palestina apostólica ninguém creu em Jesus Cristo, nem tinha capacidade de crer até findar o trigésimo ano de sua idade?

Com que cremos, com o corpo ou com a mente e o espírito? Não é fato que vemos corpos com 30 anos nos quais há mentalidades ainda infantis? E não vemos corpos de poucos anos de idade onde imperam mentes argutas, iluminadas, curiosas, investigadoras, cultas na música, na arte, nas letras, conhecedoras da Bíblia a fundo e da humanidade e, - graças e glória sejam dadas ao nosso Deus! – conhecedoras de Deus, em Jesus Cristo, pela fé, a quem conhecendo, possuem a vida eterna?

“Só o adulto pode crer”! Crer o que? Não crêem, na meninice, em aritmética, geografia e francês, alemão, inglês, espanhol, grego, e em datilografia e medicina, e odontologia e pedagogia e agronomia antes de ser adultos, e serão incapazes de crer em Cristo? Eu ensinei grego em dois colégios antes de ter vinte anos, mas incapaz de crer em Cristo??!! Era pastor de uma igreja de 350 membros quando tinha 19 anos de idade, mas me faltavam dois anos ainda de capacidade para crer, hein? E Spurgeon, que sem ter bigode era pastor menino, era crente? Não possuímos a mente mais ativa, a imaginação mais alerta, o coração mais sensível, a vontade mais impressionável e os afetos mais ternos na mocidade? Não é tempo de todos os tempos para crer, e, crendo, ser batizado e servir ao Senhor? Como iremos crer mais facilmente? Quando a mente se fecha de preconceitos, o coração se endurece, a vontade se firma com longos anos de resistência a Deus, os olhos se encontram com as ambições do mundo, da carne e do Diabo? – então é que se pode crer?! Oh! Ilusão fatal e perniciosa! É então que mais dificilmente se poderia crer. Irmão, não proclameis mais essa injúria contra os batistas, nem mais sirvais de pano morno para a procrastinação da incredulidade que arrasta tantos moços para o inferno, que deviam e podiam ter sido salvos.

Não crê o irmão na sabedoria do velho pregador: “Lembra-te também do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias e cheguem os anos em que dirás: Não tenho prazer neles?” E o irmão só acredita que é nos maus dias e nos anos de desilusão que se pode crer?

Quem teve mais capacidade de crer – Miriam que zelou pelo bebê Moisés ou a filha solteira de Faraó? Quem creu mais, a menina cativa em terra estranha que ensinou a Naamã o caminho para Jeová e seu profeta, ou o bárbaro Geazi, adulto que servia ao profeta na cegueira da cobiça? Quem teve mais capacidade de fé em Deus – o jovem pastor salmista Davi ou o gigante adulto Golias? Quem era mais capaz de ter fé – o menino Samuel que conversava com o Altíssimo no seu santuário ou os filhos adultos e adúlteros do velho Eli que violavam as mulheres de Israel na porta da casa de Deus? Quem teve mais inerente capacidade de crer – Daniel, Hananias, Misael e Azarias ou os astutos magos que se balançavam com destreza na política da corte de Nabucodonosor? E. V. S., que prega: “Deixai os meninos, e não o impeçais de vir a mim”, está determinado a impedir e até a negar a possibilidade de um menino ir a Cristo, ser crente?

Mas que diz a Escritura? Houve crentes não adultos? Se houve, pode haver, e há e haverá.

Paulo creu que se pode ser crente sem ser adulto, pois disse que Timóteo tinha nele a fé, que habitou primeiro na avó e na mãe, a fé que nasceu na sua vida de menino (veja-se a discussão do termo adiante) mediante as Escrituras que ele sabia desde a infância “que te podem instruir para a salvação pela fé” (II Tim. 1:5; 3:15).

João escrevia suas Epístolas a meninos, porque conheciam o Pai (I João 2:13). Sua segunda Epístola é enviada a uma senhora e seus filhos. Não sei a idade deles, mas, se eu usasse os métodos que o ilustre pedobatista usa sobre os casos de Lídia, Cornélio, etc., eu juraria que forçosamente havia gente lá que não fosse adulta! Contudo, deixo tais métodos para quem não tiver a verdade ao seu lado. As Escrituras são abundantes sobre a fé de meninos. Não precisamos imitar os que tanto dizem de famílias de quem a Bíblia não diz nada.

O irmão citado, quando lhe convém, quer dar muita ênfase às palavras de Pedro, “Para vós é a promessa e para vossos filhos”, mas a Escritura fica sendo imprensada na teoria dele. “A promessa” do batismo é para “vossos filhos” recém-nascidos, diz ele, embora lhes falte a condição antecedente exigida nas próprias palavras do sermão, “arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado”. Dispensa o arrependimento exigido e insiste em que a promessa é de batismo infantil para os filhos irresponsáveis na sua infância. Então, pula os longos anos da vida desses filhos entre o berço e a varonilidade decreta: “Não. A promessa não é para vossos filhos até que se tornem adultos. Só adultos podem crer.” Nós cremos que nossos filhos podem arrepender-se e que a promessa é para eles, se “o Senhor nosso Deus os chamar”, pelo evangelho e pelo seu Espírito.

O irmão tem absoluta certeza de que houve nos batizados da casa de Cornélio filhos não adultos? Bem. Pedro nos diz: “Deus, que conhece os corações apresentou testemunho a favor deles, dando-lhes o Espírito Santo, como também a nós, e não fez distinção alguma entre nós e eles, purificando seus corações pela fé” (Atos 15:8). O irmão, na sua adivinhação sobre a família de Cornélio, pode afirmar que houve cinco, dez, quinze filhos menores naquela casa. Não importa. Pedro, que lá estava e provavelmente sabia os fatos que se deram diante de seus olhos, afirma que todos esses cinco, dez ou quinze filhos menores, sem distinção, tiveram naquele dia seus jovens corações purificados pela fé e receberam o dom do Espírito Santo e Lucas nos acrescentou que falaram línguas. A adivinhação do prezado irmão foi demais. Prova precisamente o que o irmão queria negar – nenhum filho menor batizado sem crer, e nenhum filho incapaz de crer ou que deixasse de crer antes do batismo – logo, crentes sem ser adultos.

A Epístola é endereçada “aos santos que estão em Éfeso e fiéis em Cristo Jesus”. Entre os tais havia filhos menores, a quem Paulo exortou: “Filhos, obedecei a vossos pais, no Senhor.” Como iam obedecer “no Senhor”, se só teriam acesso ao Senhor pela fé quando se tornassem adultos?

E, aos pais, Paulo admoesta: “Vós, pais, não provoqueis a ira a vossos filhos, mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor.” Pode um menor se achar “na disciplina do Senhor” sem ser crente?

Igual ensino aos filhos menores há na Igreja de Colossos (3:18). E é exigido em Tito 1:6 que o bispo tenha filhos crentes. Claramente não são adultos ou ele não seria responsável. Mas, o homem que não se tenha interessado na conversão de seus filhos para a fé do evangelho, esse homem não tem lugar no ministério.

Mas, para que ir além? Seria mais difícil escrever em 4 palavras erro tão patente, prejudicial e antievangélico do que na declaração de que “só adultos podem crer”. Mas este erro colossal é pedra de esquina da teoria do batismo infantil que quer limitar aos adultos todos os mandamentos que colocam fé antes do batismo.

Talvez, pensando devagar e muito, nosso irmão veria, se tivesse um pouco de paciência com as crianças que ele é tão vexado em batizar, que estas em breve chegariam à idade de poderem crer em Jesus. Então é que podem obedecer ao mandamento de Jesus como ele o deu, sem multilá-lo, e não obedecê-lo às avessas, pela intervenção presunçosa de seus pais. Demos tempo ao tempo, e todos que chegam à idade de responsabilidade podem crer, e ser batizados depois de crer. E se morrem antes de ser responsáveis, é claro, como mostraremos adiante, que Deus os salvará no céu, sem necessidade alguma de batismo infantil, pois o Justo não irá responsabilizar um irresponsável ou condenar uma alma que nunca pecou. O batismo infantil é um vexame que nasceu na superstição e dura até quando a superstição tiver passado.

b). A premissa fundamental do erro pedobatista e aspersionista é identificar duas coisas inconfundíveis – a dispensação da Lei e a do evangelho, o regime cerimonial e, o de adoração em espírito e verdade, a assembléia teocrática do povo de Israel e as igrejas do Novo Testamento, os direitos nacionais dos que nascem da carne e as prerrogativas espirituais dos que nascem de novo, os ritos ordenados por Moisés e os que Cristo estabeleceu. Ter esta premissa como guia da investigação da Bíblia é botar poderoso ímã do erro ao lado da bússola da vida e desviar-se cada vez mais da rota da verdade.

Nosso irmão presbiteriano não esconde nem disfarça sua teoria. Ei-la nas suas proporções de erro adulto, maduro, encanecido:

“O nosso primeiro argumento se apóia num fato evidentíssimo da religião revelada. Esse fato é que a Igreja cristã é essencialmente idêntica à do Velho Testamento. O cristianismo e o judaísmo são dois aspectos da mesma religião. As suas diferenças correspondem à missão que houve a desempenhar em fases diferentes da história humana, mas não afetam de modo algum a sua identidade essencial como religião divina e imutável.” (p. 14).

“Na Epístola aos Romanos 10:16-24, encontrará o leitor que o judaísmo é comparado aos galhos tirados de uma oliveira, e o cristianismo aos galhos de outra planta, que foram enxertados no lugar vago. A oliveira ou a Igreja de Deus que foi constituída pelo pacto feito com os patriarcas, existe através dos tempos como o tronco e a raiz de onde tiram seiva os crentes das várias dispensações. O judaísmo é, pois, a Igreja Cristã num estágio mais atrasado e o cristianismo é a Igreja Judaica plenamente evoluída e transfigurada. Esta identificação é irrecusável, porque, se, como os batistas afirmam, o judaísmo não era uma igreja, então o cristianismo também não o é, porque, no dizer do apóstolo, os ramos não sustentam a raiz, mas vice-versa. Subjazendo ao que havia de transitório e imperfeito no judaísmo, existiu sempre a Igreja de Deus, a qual não se extinguiu com o advento do cristianismo mas apenas se vestiu de formas novas e mais perfeitas.” (p. 14,15). “Não pode ser maior e nem mais clara a identificação da Igreja Judaica com a cristã.” (p. 15).

Primeiro, como sempre, sejamos bereanos, e examinemos as Escrituras para ver se estas coisas são assim.

O assunto de Rom. 11 é a eleição. O capítulo é tão alheio a assuntos eclesiásticos quanto é o conteúdo do capítulo 13 da 1º Epístola aos Coríntios.

Vejamos. O capítulo começa perguntando: “Digo, pois: Porventura, rejeitou Deus ao seu povo?” A resposta é: “Deus não rejeitou ao seu povo que ele antes conheceu.” Quem é, pois, esse povo não rejeitado? É a Assembléia (“Igreja”) Nacional de Israel? Não é, e nunca foi. O v. 5 mostra que nos dias de Elias já quase a totalidade da Assembléia (“Igreja”) de Israel não fazia parte do “povo”, mas apenas os sete mil que não dobraram o joelho a Baal. “Do mesmo modo, pois, ainda no tempo presente, há um resto segundo a eleição da graça; mas se é pela graça, já não é pelas obras, de outra maneira a graça já não é graça. Pois que? O que Israel busca isso não conseguiu, mas a eleição o conseguiu, e os mais foram endurecidos.” Logo, “a eleição” não é a raça de Israel.

Parece estranho que um batista tenha de instar com um presbiteriano para que creia na doutrina da “eleição da graça” e exorta-lo a não desvirtuar o Capítulo Clássico da Bíblia sobre a “eleição da graça” para dele servir-se a fim de propor uma eleição da carne de um povo nacional íntegro, tendo os privilégios divinos outorgados aos seus filhos na base de um rito sujo. Em semelhante eleição carnal, deveras “graça já não é graça!”

Prossigamos na leitura de Rom. 11: “A Salvação” é que “veio dos gentios”, e não é incorporado numa Igreja Nacional Judaica que evoluísse na Igreja Cristã da atualidade.

Longe de a Assembléia de Israel ser a raiz e o tronco, Paulo afirma que visa a “incitar a emulação os da minha raça, e salvar alguns deles”. Não eram salvos, não faziam parte da “eleição da graça”. A raça não era nem raiz nem tronco.

De que se trata aqui? De ritos e entrada numa organização eclesiástica, e a sucessão de cerimônias na evolução de uma Igreja Teocrática? Nada disso. Mas de salvação pela fé.

Nunca entenderemos Paulo se não reconhecermos, como o eminente presbiteriano Davi Smith, que a eleição da graça era mais estreita do que os judeus supunham, e que havia “uma eleição dentro de outra eleição. Há um Israel segundo a carne e um Israel espiritual”. E este não é nenhuma igreja. O “Israel de Deus” sempre existiu ao lado do Israel segundo a carne. Abraão foi justificado pela fé; e teve, e tem, duas sementes – a raça judaica, sua semente eleita nacional, escolhida como órgão de revelação, e outra semente que são os crentes de todas as raças, de quem Paulo afirma: “Pois os circuncidados somos nós que rendemos culto pelo Espírito de Deus e nos gloriamos em Cristo Jesus e não pomos confiança na carne.”

A raiz é Abraão. O tronco são os crentes eleitos e salvos pela graça, desde os dias de Abraão. Mas da raiz brotou Ismael e logo foi quebrado por ser incrédulo. E ainda brotou Edom e foi quebrado pelo mesmo motivo e restou o tronco do Israel crente. Mas na raça de Israel iam aparecendo renovos incrédulos, repudiados por Deus, o “Viticultor”, como não tendo ligação vital com a raiz de vida. Ficaram alheios à eleição da graça, a qual foi sempre composta do “resto” crente. Os ramos naturais do Israel segundo a carne não tiveram em nenhuma dispensação lugar na eleição sobrenatural que é segundo a graça e cuja realização é mediante a fé. Pois Paulo diz: “Pela sua incredulidade foram quebrados, mas tu pela fé estás firme.” Logo, a árvore, raiz, tronco e galhos são e sempre foram a “eleição da graça”, o povo de Deus, o Israel espiritual, a família de Deus, composta em todas as épocas de crentes. Esta árvore nunca foi igreja nem a sua seiva é água batismal ou sangue da cirurgia eclesiástica chamada circuncisão. Sua seiva é a graça divina que nutre, une e mantém “firme” todo o povo crente através dos séculos.

O erro do nosso irmão é o mesmíssimo erro em que laboravam os inimigos de Paulo e do seu evangelho. Supõe que o nascimento carnal faz do novo rebento um galho da árvore da vida. É falso. Não há distinção na alegria. “Ramos naturais” da raça de Abraão e os “naturais zambuzeiros” gentios são igualmente alheios à oliveira sobrenatural que é pela eleição da graça, da qual todos os ramos são crentes.

Não há, absolutamente, diferença religiosa inerente, de espécie alguma, entre os filhos de crentes e os filhos de incrédulos. Os filhos de crentes tem a mesmíssima natureza que os filhos de incrédulos. A seiva da graça não vitaliza os rebentos da carne. Nem a circuncisão nem o batismo jamais incorporaram no Israel de Deus gente não regenerada. Salvação não é patrimônio adquirido por hereditariedade. O batismo não é para os que “pela natureza são filhos da ira”. “Não queirais dizer dentro de vós mesmos: Temos como pai a Abraão, porque vos declaro que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão”. Os que “nascem da vontade da carne” não tem mais lugar no reino de Deus, no seu estado natural, do que as pedras nas ruas de S. Paulo terão na cidade celeste. Para que, pois, esse ingente esforço de confundir e fundir o naturalismo e o sobrenaturalismo, o crente e o incrédulo, o primeiro nascimento e a regeneração, a graça outorgada em Cristo ao crente e a herança natural da criança na família, a carne e o espírito, a Lei e a graça, o nacionalismo e a espiritualidade, os filhos da ira e os filhos de Deus, Sara e Agar, Sião e Sinai, a Jerusalém atual e a Jerusalém que é lá de cima?! Não pode haver maior desserviço à religião do que confundir, no terreno de assuntos de máxima importância, coisas que Deus separou e distinguiu com nítida clareza.

Agora vejamos a idéia das Escrituras sobre esta noção. A Epístola aos gálatas é a Carta Magna das liberdades evangélicas e torna tudo isso claro, contra os judaizantes, que também confundiam o duplo Israel:

“Dizei-me vós os que quereis estar debaixo da Lei, não ouvis a Lei? Pois está escrito que Abraão teve dois filhos, um da mulher escrava e o outro da livre. Mas o da escrava nasceu segundo a carne, porém o da livre por meio da promessa. As quais coisas são uma alegoria, pois essas mulheres são duas alianças, uma, na verdade, do monte Sinai, que dá a luz filhos para a escravidão, e que é Agar. Ora, esta Agar é o monte Sinais, na Arábia, e corresponde a Jerusalém atual, pois está em escravidão com seus filhos. Mas a Jerusalém que é lá de cima é livre, a qual é nossa mãe. Vós, irmão, sois como Isaque, filhos da promessa.” (Gal. 4:21, 26, 28).

Israel nasceu por determinação especial da providencia divina, nasceu sobrenaturalmente na velhice de Sara. Era filho da promessa. Assim nós nascemos, sobrenaturalmente, na família de Deus. A Jerusalém que é lá de cima (não nenhuma igreja) é nossa mãe. Os que nascem apenas fisicamente são todos os filhos de Agar, filhos da escravidão. Mas isto é negação da tese presbiteriana a respeito dos que “nascem segundo a carne” de pais cristãos.

“Que diz, pois, a Escritura? Lança fora a escrava e o seu filho, porque o filho da escrava não será herdeiro com o filho da livre. Por isso, irmãos, não somos filhos da escrava, mas da livre. Para a liberdade Cristo nos livrou; portanto ficai firmes e não vos sujeiteis de novo a um jugo de escravidão.” (Gal. 4:20 a 5:1).

O batismo infantil é escravidão. Enche a cristandade de “filhos da escravidão” que perseguem e dominam os “filhos da promessa”. Obriga a igreja a subordinar-se ao Estado, ao mundo, as oligarquias e tiranias ambiciosas e interesseiras. Tudo é falso. Nenhum filho de cristão é cristão pelo nascimento segundo a carne e não tem direito nem à igreja cristã nem aos ritos cristãos nem à voz no cristianismo antes de nascer “lá de cima” para a liberdade dos filhos de Deus pela fé.

Paulo bem entende a história.

“Mas como, então, o que nasceu segundo a carne perseguia ao que nasceu segundo o Espírito, assim também é agora.”

Os reformadores foram ferozes perseguidores, como a Santa Inquisição. A perseguição nasce sempre na idéia de hereditariedade natural, e conseqüente domínio dos herdeiros carnais sobre a religião. Calvino queimou outro crente. As mãos de Lutero tornaram-se vermelhas com o sangue anabatista. João Knox era tão intolerante como o mais feroz dos papas. Os puritanos acabaram com a liberdade a ferro e fogo. Os pedobatistas da Nova Inglaterra açoitaram a Obadias Holmes e outros batistas na praça de Boston e obrigaram Rogério Williams a fugir para a floresta, num inverno cruel e à mercê dos selvagens. Tudo em defesa do batismo infantil. O batismo infantil incorpora na cristandade, por direito da carne, os filhos do Diabo (João 8:44). Logo, não é estranho que tais ismaelitas, nascidos na escravidão do pecado, zombem dos filhos da promessa e queiram persegui-los. Se o batismo infantil, geralmente abandonado ou suspeito ou desnaturado entre os povos civilizados, hoje em dia como resultado do movimento antipedobatista multissecular, ganhasse de novo a confiança do mundo culto, as liberdades civis e religiosas que gozamos seriam brutalmente postergadas antes do ano 1950 e os ponteiros do relógio do progresso humano voltariam para traz até parar em plena idade medieval, pois o batismo infantil é o âmago do medievalismo e a fonte de sua bárbara intolerância.

“O judaísmo é a Igreja Cristã.” Valha-nos o evangelho! Para Paulo, o judaísmo incrédulo era o selvagem filho bastardo e deserdado da escrava insolente, Agar, que Abraão, em má hora de incredulidade, tornara em união ilegítima e amaldiçoada para fazer vingar, por medida carnal, o que Deus prometera à fé. “A Igreja Cristã” é virgem legitimamente desposada com o Senhor. Mas, agora lemos que Agar é Sara, que Ismael é Isaque, que escrava é a livre pouco evoluída, e a livre é a escrava expandida, que o filho da escrava e o filho da promessa devem ser todos batizados e incorporados na igreja, sem distinção alguma!

O judaísmo aí está. Suas sinagogas proliferam desde de São Paulo até Itacoatiara. São os descendentes das assembléias de Jeová em que Jesus e Paulo evangelizaram. Confraternize a Igreja Presbiteriana Independente com a igreja ainda mais antiga! A igreja judaica e a igreja cristã idênticas! (“Esta Identificação Irrecusável”, p. 15). Pois bem, não a recuseis. Daí a mão fraternal aos judeus e associai os presbiterianos com os filhos de Israel. Proselitai-vos de novo na sinagoga, ou pelo menos confessai que Israel é o tronco e a raiz de que a Igreja presbiteriana é apenas um enxerto desnatural de oliveira brava. Nosso irmão só quer crer nisso enquanto está argumentando contra os batistas. Na vida prática, ele não liga a mínima importância às suas próprias palavras tão alheias ao evangelho. É o primeiro a descrer no que escreveu.

Os apóstolos nunca confundiram o que Cristo nitidamente distinguiu. Eles eram judeus, súditos de uma teocracia. A Lei de Moisés era a lei nacional, reconhecida pelos romanos em todo o Império Romano, entre as colônias judaicas, e encarnada no Estado judaico até a destruição deste em 70 A. C. . Até esta data, os crentes hebraicos tinham de observar a lei cerimonial, todo o complexo sistema sabático, os holocaustos, etc. Paulo afirmou a Tiago, e depois em Roma mesmo, que ele praticara tudo isso com lealdade (como judeus, não como crente, Atos 21:17-26; 28:17). Como cristão, Paulo manteve os cultos, o batismo, a Ceia, o dia do Senhor e toda a vida cristã em nítida distinção de sua vida de judeu, súdito das leis nacionais. Judaísmo e cristianismo viviam lado a lado no primeiro século e ninguém sonhou em identifica-los. Ninguém adivinhou que o batismo e a circuncisão tinham a mesma significação. Os apóstolos batizavam muitos circuncisos e Paulo circuncidou Timóteo por ser judeu e recusou circuncidar Tito, não por ter o batismo se tornado sucessor da circuncisão, mas porque Tito era gentio.

As duas Assembléias existiam lado a lado durante o ministério de Jesus. Ele disse: “Edificarei minha igreja”. A assembléia por Cristo edificada está em deliberado contraste com a Assembléia Nacional de Israel. A rocha em que se funda envolve fé, não circuncisão. Nunca houve identidade nenhuma judaica e cristianismo. O judaísmo nunca foi igreja. A igreja de Cristo nunca foi nacional, nem entre os judeus nem entre qualquer outro povo.

A Epístola aos Hebreus é a formal negação da tese presbiteriana. Aí estão judaísmo e cristianismo em luta tremenda. E a voz profética da Epístola diz que os próprios crentes de raça hebraica tinham de escolher entre o nacionalismo e o cristianismo, entre a raça e a graça, entre o sacerdócio levítico e o sacerdócio de Jesus Cristo, entre os holocaustos do altar e o sacrifício do Calvário. Jesus “sofreu fora da porta”. “Saiamos, portanto, a ele, fora do acampamento, levando o seu opróbrio.” (Heb. 13:12, 18)

A passagem citada ao contrário pelo autor (Heb. 3:2-6) nada fala de igreja alguma. É claro o que é a Casa de Deus, neste contexto – “a qual casa somos nós, se guardamos firmes até ao fim a nossa confiança e a glória da esperança”. Não é nenhuma grei eclesiástica ou cerimonial a Casa de Deus, neste contexto. Todos aqui têm os frutos cardeais do Espírito, da fé, da esperança e do amor. Não é uma raça ou um Estado ou uma nação ou coletividade qualquer que seja composta de judeus e seus filhos circuncisos ou de cristãos e seus filhinhos aspergidos. Todos na Casa tem confiança firme e esperança gloriosa. É o povo regenerado de Deus através dos séculos. Nada de identidade de “Igreja Judaica” e “Igreja Cristã”, invenções modernas enxertadas na passagem para provar o que a passagem nem de longe aborda. Não. Os hebreus crentes tinham que escolher, custasse o que custasse, entre duas coisas que o mui digno reitor quer identificar.

Jesus não permite que identifiquemos o judaísmo com o cristianismo. Mesmo antes de Cristo nascer o judaísmo era falso, em muitas de suas idéias e sua organização carcomida de incredulidade e farisaísmo. Na assembléia nacional, só havia desde Elias e Isaías um Resto, “a eleição da graça”. Nada mais violenta o ensino de Jesus do que procurarmos enxertar o cristianismo no tronco caduco e doentio do judaísmo. Ouçamos o Salvador:

“Ninguém põe remendo de pano novo em vestido velho; porque o remendo tira parte do vestido, e fica maior a rotura. Nem se põe vinho novo em odres velhos; de outro modo arrebentam os odres, e derrama-se o vinho, e estragam-se os odres. Mas vinho novo é posto em odres novos, e ambos se conservam.” (Mat. 9:17).

Ambos se conservam – ontem, hoje e até ao fim. Ambos se conservam agora no Recife, no Rio e em São Paulo. Os odres novos das igrejas do Novo Testamento com o vinho novo da doutrina e do espírito de Jesus Cristo, e os odres velhos do judaísmo e com o velho vinho da circuncisão, do sábado e da lei cerimonial não se identificam. Antes, nunca se confundem. Jesus determinou que se conservem ambos no mundo. Nunca foram e nunca serão idênticos.

Jesus recusou fazer o que Calvino e seus adeptos queriam – coser uns remendos de novos ritos na rotura deixada por cerimônias antigas abandonadas, como o batismo infantil como remendo no pano rasgado pela perda da circuncisão no cristianismo gentio, o “sacramento da eucaristia” (coisa que a Bíblia ignora) em lugar da páscoa, o presbitério presbiteriano em lugar do sinédrio, o dia do Senhor como “sábado cristão” (outra idéia antibíblica que nos escraviza a Moisés), aspersão por batismo, em lugar das aspersões levíticas de água misturada com esterco queimado, etc. Esses remendos Calvino propõe coser nos farrapos do judaísmo para preparar a túnica cristã, para termos uma igreja nacional cristã no molde da suposta igreja judaica, uma teocracia sanguinolenta em Genebra em lugar de Jerusalém. A resposta de Cristo foi: “Para trás, enganado, com teus farrapos e remendos todos! Minha religião não é uma porção de remendos doutrinários e cerimoniais cosidos por eclesiásticos na podre capa do judaísmo. Mas é túnica nova, túnica sem costura, toda tecida de alto a baixo, por mim mesmo, dos fios da pura verdade universal, imutável e eterna. Nela se vestirá o homem novo, na nova dispensação. Edificarei minha igreja – não a assembléia de Moisés – e as portas do Hades não prevalecerão contra ela – como engoliram para sempre a antiga Assembléia de Israel segundo a carne.”

Odres são formas. Vinho é espírito. Nem as formas nem o espírito do judaísmo passaram para o cristianismo. Os odres de Cristo são formas novas, igrejas congregacionais, muitas igrejas autônomas, cooperadoras. Não um só odre, mas um número grande de odres. E dos velhos odres não passa para os novos uma só gota do velho vinho do judaísmo. O Cristo de Caná cria o vinho novo para seu povo e as formas novas correspondem ao espírito novo; e a nova religião, repudiada por todas as veras da alma judaica, se conserva nas igrejas congêneres, e os velhos odres judaicos ainda ali estão cheios do anacrônico vinho do judaísmo. “Ambos se conservam.” Nunca foram idênticos. Nunca se misturaram. Nunca se confundiram, senão na mente dos papas e dos reformadores que querem algo da velha dispensação para lhes justificar os ritos que não tem autoridade cristã e sua intolerância.

Não negamos que nosso Deus é o Jeová de Israel, mas é significativo que o Novo Testamento não lhe preserve o nome divino nacional. Não negamos que a moral do Novo Testamento repete muito do decálogo, como o decálogo repetia muito do que lhe era anterior. Mas negamos que o cristianismo seja a continuação do judaísmo. Negamos a fábula presbiteriana de haver uma só igreja desde Abraão até Calvino. Negamos todos os laços eclesiásticos forjados para agrilhoar o cristianismo nas caducas formas e no espírito cerimonial do judaísmo. “A lei e os profetas duraram até João. Desde esse tempo, o evangelho do reino de Deus é anunciado, e todos à força entram nele. É, porém, mais fácil passar o céu e a terra, do que cair um til da Lei.” (Luc. 16:16-17). “Ambos se conservam”. A Lei é cumprida, realizada, moralmente ampliada e cerimonialmente anulada por Cristo. Mas João Batista é a linha de demarcação entre as duas dispensações. “Até João” durou a Lei – não até o Calvário, nem até o Pentecostes, nem até o sítio de Jerusalém por Tito, mas até João. Com João começa o evangelho. Com João começa o único batismo que já veio do céu, embora os presbiterianos e os fariseus rejeitem o conselho de Deus, não aceitando o batismo de João. Com João começa a nova do reino. Com João se proclama, em sua nitidez, o eterno evangelho do Cordeiro de Deus – “arrependei-vos e crede no evangelho”. Com João se prepara o material para a igreja e a estrada para o Rei e o reino. A nova dispensação é “desde esse tempo” – o tempo do Batista – e é e sempre foi batista em doutrina e prática. Os presbiterianos não gostam do batismo de João porque é claramente imersão e incontestavelmente não foi batismo infantil. Não encontram apoio em João ou aquém de João, por isso, querem voltar à dispensação judaica e buscar nela autoridade para o que de lá importaram para a sua cristandade. Mas Jesus lhes pôs o embargo: “Até João.” Nada da Lei passe para este lado. O evangelho substitui a Lei. E este evangelho do reino se endereça à consciência e todos entram nele “à força” própria. Nenhum se acha no reino pelo nascimento da carne ou a circuncisão da carne ou a aspersão da carne. “Todos, à força, entram nele”, “Os que se forçam são os que o conquistam.” (Mat. 11:12).

A lógica presbiteriana, edificada sobre esta premissa antibíblica, tem sido coerente com esta tese judaica desde os dias de Calvino.

Se o cristianismo é o judaísmo evoluído, nada mais natural do que a teocracia de Genebra, com sua moral e religião forçada, com suas fogueiras, com seu austero farisaísmo sincero, com seu Estado teocrático e sua Igreja estadual. Nunca tal coisa foi vista por Calvino na religião de Jesus Cristo. Foi cata-la nos costumes daqueles que crucificaram a Jesus.

Onde houver presbiteriano em número e poder suficiente, ali vedes união do Estado e a Igreja. O mundo acaba de ver o Império Britânico agrilhoar sobre a Escócia uma igreja presbiteriana sanada de suas divisões, igreja oficial, que vive em parte dos impostos pagos por batistas, católicos romanos e outros que não são presbiterianos. A Holanda tem uma rainha da Igreja Reformada, que faz parte do “Pan-presbiterianismo”, e o mundo viu nas universidades holandesas homens virtualmente ateus ou agnósticos, ensinando como teologia toda a forma de incredulidade e blasfêmia, nas escolas da igreja mantidas pelo Estado, ou nas escolas do Estado cujos mestres eram os teólogos increus de uma igreja com sua força morta pelo adultério com César.

Quando, por um pouco, os presbiterianos dominaram a Inglaterra, João Milton, arauto da liberdade de consciência e de muitas outras convicções batistas, cantou, em sublime poesia, e abominável tirania presbiteriana na Grã-Bretanha, que jurou extirpar “o papismo, a prelazia e os cismáticos”, pelo braço do governo civil. Eis seu veredicto: “O novo presbítero é o velho padre majorado”. Nos campos missionários, a igreja presbiteriana está sempre organizando igrejas nacionais. Tomou para si o nome de Igreja Japonesa, no Império do Mikado. No Canadá, foi a promotora principal da Igreja do Canadá, há pouco fundada. Nos E. U. A., promove toda sorte de união eclesiástica, embora tenha encontrado barreiras invencíveis, devido à penetração dos princípios batistas no seu solo e ambiente.

E qual suprema diferença entre o espírito do ministério batista e o ministério presbiteriano no Brasil? Todo mundo o nota e comenta. O ministro presbiteriano, como o padre, busca posição política. Seus eruditos se abrigam nas escolas do Estado como catedráticos e, se possível for, diretores. Aparentemente, as igrejas presbiterianas nacionais do Brasil (há duas) dão mais ênfase ao sustento próprio do que os batistas. Os batistas preferem ficar mais tempo associados com seus irmãos de outra terra na manutenção do trabalho, a recorrer aos cofres de César para manter seu ministério. Nisto são leais aos seus princípios de separação entre a Igreja e o Estado. Nisto são espirituais. Se um ministro é pago por serviço prestado ao Estado, é sustento próprio da parte do Estado para ser seu funcionário, mas isso não é sustento próprio da parte da Igreja, cujo serviço pastoral se torna possível por uma subvenção política que seu ministro goza. Há tantos ministros presbiterianos no Brasil que como ministros de César e ministros de Cristo formam os elos financeiros da união da Igreja e o Estado, no seu sustento. Isto é um alvo do ministério presbiteriano, em muitos casos. Não é preciso que comentemos a inconveniência do ministério ser político. O público o comenta bastante. Nós apenas mostramos a relação lógica entre a doutrina e a prática presbiterianas. A liberdade humana não está segura nas mãos presbiterianas. Seus mais eminentes chefes ambicionam união com Roma como não a negaram no Congresso do Panamá, e em Montevidéu. Querem união com o Estado. Tem a idéia fixa de uma só igreja no mundo – o neocatolicismo, que terá, mais uma inquisição mais fanática do que a que Torquemada conhecia. A história se repete. Os primitivos prelados eram primeiro regionais, depois nacionais e por último papais. A humanidade faz bem em não enveredar de novo na estrada mundana que trouxe Israel ao Calvário, a Igreja Romana à Inquisição e os Reformadores às fogueiras, à concubinagem com os Estados europeus e à perda de espiritualidade. O Estado judaico não é a Igreja Cristã atrasada, nem a Igreja Cristã é a Igreja Judaica evoluída. Semelhante idéia é porta aberta para o cerimonialismo, o nacionalismo perseguidor e antievangélico e o mundanismo, que confunde num amplexo pecaminoso os impérios de César e Cristo e gera intolerância e a morte da liberdade. É um preço bem caro a pagar pela bagatela de um batismo infantil desconhecido aos apóstolos.

Diz o preclaro historiador Fisher:

“Nenhum estudante de história precisa de ser informado a respeito da soma incalculável de males que foi operado por católicos e protestantes na hipótese errada da validez perpétua da legislação civil mosaica e da confusão do espírito da velha dispensação com o da nova – ignorando o caráter progressivo da Divina Revelação. Os reformadores mantinham que as ofensas contra a primeira tábua da Lei não menos do que as em violação da segunda tábua, estão sob a jurisdição do magistrado. Proteger e promover a religião, suprimir a falsa religião, era a função de seu ofício da mais sagrada obrigação.”

E ele cita Calvino assim:

“Visto que os defensores do papado são tão amargos e audazes em prol de suas superstições, e que na sua fúria atroz derramam o sangue de inocentes deve isto envergonhar os magistrados cristãos pelo fato de estarem estes possuidores de tão pouco espírito na proteção da verdade certa.” As medidas repressivas de magistrados católicos eram para ser emuladas pelas autoridades protestantes (History of the Reformation, p. 223, 224).

A vida procede da doutrina. Calvino não foi mau homem. Sua doutrina confusa e falsa o tornou intolerante, inquisidor, perseguidor e inimigo ferrenho da liberdade de consciência.

Ninguém, pense que igual doutrina possa prevalecer hoje em dia sem iguais conseqüências. Daí a necessidade perpétua da voz batista na vida dos povos para manter que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus nas coisas que são de Deus, e a César nas coisas que são de César.

O sistema eclesiástico de Calvino era um compromisso entre o luteranismo e o zuinglianismo, entre o romanismo e o evangelho, entre o judaísmo e o cristianismo, entre o Velho Testamento e o Novo, entre o espiritual e o carnal, entre a Igreja e o Estado, entre o sacramentalismo e a espiritualidade. Por causa do empecilho desta atitude, Calvino tornou-se autor de uma confusão propositada e seus discípulos balançam a vontade entre os dois extremos.

Seu ilustre seguidor, que no Brasil combate os batistas com tanta intensidade, faz uma ingênua confissão, neste sentido (p. 16):

“É tempo, agora, de dizer ao leitor porque levamos tanto a peito deixar provado que a Igreja cristã e a judaica são, no essencial, uma e a mesma. É que daí surge, como verdade necessária, o batismo infantil.”

Pois bem. Confessa-se que há propósito nessa confusão deliberada. Calvino tinha a mente mais brilhante e lógica da Reforma pedobatista. Bem viu que não podia preservar e sacramento romanista querido na Reforma, pela autoridade ou norma do Novo Testamento. Logo, refugiou-se no judaísmo e aí buscou tudo quanto desejava de sacramento carnal, união da Igreja e Estado, solidariedade da família sob a autocracia do pai, perseguição da consciência alheia, fogueira, presbitério com poder legislativo e executivo sobre o povo cristão, igrejas nacionais, etc., etc.

Para se valer deste privilégio – de buscar autoridade no ritualismo mosaico para tudo que quer reter ou introduzir no cristianismo sem a autoridade de Cristo e do Novo Testamento – o folheto “Controvérsia Batista” adota uma figura esquisita e anti-histórica:

A entrada única do velho templo judaico era acanhada e feia, a do magnífico palácio cristão, porém, é bela e grandiosa. Sendo, todavia, o edifício o mesmo, apenas transformado, todos os que tinham direito de entrar pela velha porta podem agora usar-lhe a nova e magnífica entrada (p. 17).

A figura é um quadrúpede de sete pernas! Que templo que só tenha tido uma entrada? O m. d. escritor está caluniando Salomão, Zorobabel ou Herodes? Em que sentido é a cristandade um palácio? Por que critério artístico se declara “bela”, “grandiosa”, “nova” e “magnífica” a cerimônia insulsa de molhar a testa de uma criança revoltada com gritos e protestos ? E se o edifício é o mesmo e a entrada é franqueada a todos que jamais tinham direito de entrar, por que não se fraterniza com os judeus de hoje e por que não tem aí sua corte dos gentios, onde todos podem chegar livremente sem cerimônia alguma?

Ah! O subterfúgio eclesiástico conveniente, astucioso e falaz! Chega o “sabatista” a Calvino e pergunta: “Sr. Reformador, deve se reter a guarda do sétimo dia no cristianismo?” Bruscamente vem a resposta: “Absolutamente, não. O templo é transformado.” Protesta Castalion: “Calvino, não se devem perseguir ou queimar ou banir do Estado os cidadãos por questões de consciência”. “Erras, mestre Castalion. Tu mesmo serás banido, pois o templo exclusivo do judaísmo e do cristianismo é o mesmo”. Chega um romanista e pergunta: “Sr. Reformador, não somos justificados pelas obras?” O sábio de Genebra fica horrorizado. “Deus nos livre. O templo é transformado.” Chega um anabatista e estranha que se finja aceitar criancinhas inconscientes numa igreja professadamente evangélica. Mas que terremoto isso desencadeia: “Para a fogueira, blasfemo anabatista! O templo é o mesmo.” Vem um sacerdote, com seus paramentos, e indaga: “no templo há sacerdotes paramentados e altares onde oferecem o sacrifício a Deus?” Calvino rasga as vestes e lança poeira no cabelo: “Ah! Peste negra! Queres perpetuar o que Deus acabou quando rasgou o véu de cima para baixo? O templo é transformado.” Mas ainda ousamos perguntar, porque o irascível reformador volta ao Velho Testamento, para achar em suas aspersões de água misturada com esterco animal queimado, etc., sua norma cristã de batismo. A resposta que recebemos é: “Para o cárcere, cabeçudo filho da anarquia! O templo é o mesmo.”

Já vimos que é sem o consentimento de Cristo que se cosem farrapos de novas cerimônias sobre as velhas roupas do judaísmo ou se introduz o novo vinho de Cristo nos velhos odres mosaicos. Agora passemos a examinar outras deslealdades à verdade cristã que são as premissas escolhidas para alicerçar as conclusões pedobatistas.

c). Premissa fundamental e predileta do sistema eclesiástico de Calvino é a sua frouxidão no emprego dos termos igreja e reino: “Igreja local, igreja nacional, igreja invisível, Igreja Presbiteriana Independente”. Tudo numa santa confusão.

E, para tornar tudo ainda mais incompreensível, essa igreja nunca definida e discriminada é ainda mais confundida com o reino de Deus nos céus e na terra. Há quem goste da confusão porque nela é fácil achar escapatória e se desviar da responsabilidade pela atitude tomada. Mas é lastimável verter o cristianismo em confusão. Não conheço um sistema de doutrina com mais rodeios e esforços para evitar uma franca posição coerente do que o calvinismo, no seu aspecto eclesiástico. Há presbiterianos que são espirituais e quase batistas, em sua atitude evangélica, e podem citar Calvino como autoridade; e há outros sacramentalistas, intolerantes e eclesiásticos ferrenhos, e se apóiam plenamente em Calvino.

Mas observemos essa confusão concretizada na “Controvérsia Batista”:

Esta frase (reino dos céus), como é sabido, significa não só o reino invisível, lá onde Deus habita, mas o reino visível, aqui na terra, a Igreja (p. 17).

As sete parábolas do cap. 13 de Mar. são sobre “o reino dos céus” e todas lhe fazem atribuições tais que não se compadecem exclusivamente com a idéia do céu, mas sim da Igreja” (pg. 31).

A frase que vimos estudando é empregada pelos escritores sagrados nos seguintes sentidos: 1º céu, 2º Igreja invisível, 3º Igreja visível.

O que é dito porém, do céu como reino espiritual de Deus, pode sempre ser dito da Igreja invisível e vice-versa. A Igreja visível, porém, pelo fato de conter uma parte da invisível e a representar, ipso facto, contemplada nas duas primeiras classes de passagens. De modo que a expressão “reino dos céus” abrange sempre as idéias de céu e Igreja” (pg. 3).

Igreja judaica = Igreja cristã = Igreja visível que representa a Igreja invisível = reino = céu. Eis uma corrente com todos os elos quebrados, pois não há igualmente nem identidade em nenhuns destes casos.

Já mostramos que o judaísmo nem é igreja. Já salientamos que há milhares de igrejas independentes e não uma só. Nunca se ouviu de haver uma igreja invisível antes de Lutero (assim Fisher). É tolice. Não há tal coisa. Supõem-se que abrange todos os salvos no mundo. Mas nenhum salvo neste mundo é invisível. Como, pois, será invisível uma sociedade cujos membros componentes são visíveis? Não passa de uma ficção eclesiástica, absolutamente desconhecida à Palavra de Deus e nunca sonhada até que Lutero teve de inventar um catolicismo de nova espécie para servir de substituto ao catolicismo dos papas. Igrejas visíveis há milhares, mas não são compostas unicamente de salvos, mesmo quando tenham este alvo, pois são falíveis, e nelas pode entrar um Judas ou um Simão Mago, por engano. Igreja e reino são termos bem distintos que a Bíblia nunca identifica ou confunde. Interpretar o reino dos céus de Mat. 13 como sendo a igreja é péssima exegese. Forçosamente, o campo da igreja se enche de trigo e cizânia. A rede da igreja pega peixes maus e bons, indiscriminadamente, e a distinção entre o mundo e a cristandade é obliterada, pois é proibido separa-los até ao fim do mundo.

Ora, sendo o campo o mundo, como diz Jesus, e sendo a rede o reino nominal, a esfera de profissão cristã, como bem interpreta Scofield, não deve haver perseguição para separa-los. Deixemos isto a Deus. Mas não sendo nem o campo nem a rede idênticos com as igrejas de Cristo, conservemos estas puras, como manda o Novo Testamento (I Cor. 5:9-13). Essa interpretação de Mat. 13 mata a disciplina correcional e a moral nas organizações cristãs e explica porque em muitos lugares os presbiterianos são chamados por outros evangélicos “católicos mansos”, porque o povo não vê diferença na vida de romanistas e presbiterianos, nesses casos onde não há disciplina para os maus. Mesmo nosso irmão, quando fala de disciplina correcional, refere-se ao ofensor como “suspenso”, mas afirma que ele é ainda membro da igreja (p. 22). Suspenso mas ainda membro! Como isto é moralmente mole em comparação com a linguagem de Jesus: “considera-o como gentio e publicano”, e o solene ato de Paulo e da igreja em Corinto, entregando o ofensor a Satanás para destruição da carne! É precisamente esta identificação da igreja com o reino, generalizada por Agostinho, que torna a Igreja Romana cheia de bons e maus, mundo e celibato, Lampião e Padre Cícero, larápios e meretrizes. É a mesma confusão eclesiástica que tornou necessário no Império Alemão do Kaiser que, para seguir a carreira de meretriz em Berlim, fosse mister ter certificado do batismo infantil. Nunca uma interpretação falsa desmoralizou tanto a cristandade.

Os batistas concordarão com os católicos ou protestantes em que em umas poucas passagens do Novo Testamento há referência a uma igreja universal. O vocábulo se usa figuradamente, diz Broadus, por se contemplar todos os crentes como se fossem uma grande congregação do Senhor. De fato seremos uma congregação perante o trono de Cristo um dia, portanto, a coletividade cristã se pode considerar potencialmente uma igreja. Mas esta igreja, como diz o Dr. Mullins não é uma organização. Ela não tem pastores nem bispos nem igrejas locais componentes nem presbíteros nem sínodos nem Alianças Batistas Mundiais nem reuniões pan-presbiterianas nem denominações nem sacramentos. É uma concepção figurada e espiritual, e nunca se confunde nem com o “reino de Deus”.

Mas se objetará: Se o reino de Deus é composto de todos os crentes e também o é a igreja universal, porque não são idênticos? Porque são concepções diferentes do mesmo povo. O pai, a mãe e os filhos podem constituir, ao mesmo tempo, a firma comercial Fulano e Cia., e a família Fulano; mas nem por isso família = firma comercial. Reino é um termo imperial, monárquico e geralmente se refere ao domínio de Cristo na vida dos regenerados (em Mat. 13 abrange os súditos professos, a cristandade, a esfera de profissão de cidadania do Império de Jesus Cristo). É o cristianismo real, verticalmente considerado, sob a monarquia absoluta da autoridade de Jesus na consciência e na vida de seus súditos regenerados. Igreja é um termo democrático e mesmo usado no sentido universal, é o cristianismo democraticamente contemplado a comunhão igualizadora dos santos, o cristianismo horizontalmente considerado, uma congregação de irmãos, que de fato se reunirá na glória em pleno pé de igualdade perante Jesus Cristo, seu único Bispo e Pastor, Sacerdote, Senhor e Rei. Ora, confundir tudo isso é empastelar a tipografia da verdade. É igualar igreja, reino e céu e encher a mesa das bodas do Cordeiro de gente imunda, sem as vestes nupciais.

d). Outra premissa que serve para alicerçar o argumento pedobatista é sua pesada doutrina da solidariedade religiosa da família, e sua ferrenha hospitalidade ao “individualismo”, que deixa a cada um a responsabilidade de crer, batizar-se e obedecer aos mandamentos de Deus, livre, voluntária e inteligentemente por sua própria responsabilidade.

Ouçamos suas declarações dessa solidariedade:

Quem pode negar que os filhos, assim como herdam as vantagens e desvantagens intelectuais, físicas e até sociais, dos seus progenitores, refletem-lhes também sempre a feição moral enquanto menores e, quase sempre, depois de adultos?

No segundo mandamento, Deus declara, formalmente, que imputa aos filhos a maldade dos pais até a terceira geração e até mil gerações imputa-lhes a justiça dos seus progenitores. Se a obediência aos mandamentos traz bênçãos sobre mil gerações, como pode a fé em Jesus, que é resumo de toda a obediência religiosa (João 6:28,29) deixar de passar dos pais aos filhos, ao menos na primeira geração? (p. 24).

Do pacto da graça estabelecido com Abraão, Deus fez entrar formalmente a descendência desse crente. “Creu Abraão a Deus e isto lhe foi imputado por justiça.” Recebeu depois a circuncisão como selo dessa justiça e o mandamento de que seus descendentes (homens) fossem circuncidados ao oitavo dia.

É evidente que os meninos israelitas tinham direito ao rito do concerto, porque, em virtude da solidariedade que há entre pais e filhos, eram naturalmente participantes da fé de Abraão. Não tinham fé pessoal, mas tinham a fé dos pais e só assim se explica que pudessem, receber um rito que era o selo da justiça da fé.

Enquanto menor, a personalidade do filho está enfeudada ou é representada pela do pai.

O que o pai é socialmente ou religiosamente, isso o filho é.

Emancipado, porém, pode quebrar essa solidariedade e ser, moral ou religiosamente, coisa muito diferente do pai. Mas se os filhos dos israelitas participavam da fé de seus pais, então os filhos dos crentes também participam hoje, porque “os que são da fé são filhos de Abraão” (Gal. 3:7) (pg. 25).

1. Notemos logo no princípio que são abismalmente diferentes as doutrinas: “Os que são da fé são filhos de Abraão”, de Paulo, e “os que são filhos de Abraão são da fé”, do reitor do Seminário Unionista. Non sequitur.

2. Nosso bom irmão protestante gosta da versão de um padre, a pior de todas as versões no vernáculo. Mas nem essa má tradução interpreta o segundo mandamento como “imputando maldade”, ou “imputando justiça”. Tudo isso foi fabricado no arsenal presbiteriano independente. Não há vislumbre de tal linguagem em Bíblia alguma.

O que há no segundo mandamento é que as sucessivas gerações de idolatria acumulam o castigo divino e bebem o cálice da ira divina quando este estiver cheio – “visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem”. Todas as três ou quatro gerações eram daqueles que aborreciam a Deus. Mas a punição divina da idolatria demora. Três ou quatro gerações viverão um século ou mais. A pena desse século de idólatras vai se acumulando. Mas não se insinua, nem por sonho, que se um pai era idólatra e seus filhos não usaram de imagens, todavia, lhes seria “imputada à maldade” dos pais e seriam castigados por pecados alheios.

Quanto aos bons, também se trata de “mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos”. Não é um pai amante a Deus e sua “justiça imputada” aos seus descendentes por 3.000 ou 4.000 anos (mil gerações). Mas a continuidade de amor e obediência a Deus por mil gerações traz bênçãos através de todas elas. Nada de arbitrariedade aqui, abençoando maus filhos pela sua solidariedade com bons pais, ou castigando bons filhos pela sua solidariedade com seus maus pais, mas bênçãos e maldições em base da plena imparcialidade moral e responsabilidade pessoal.

Moisés repete o decálogo em Deuteronômio e diz que Deus “usa de misericórdia para com milhares dos que o amam e guardam os seus mandamentos”. Nada de “imputar justiça” ou “imputar maldade” na base da solidariedade da família. Mas “a alma que pecar essa morrerá.”

Não é estranho que um teólogo presbiteriano fabrique Escritura a seu gosto? Tudo isto é adiantado no opúsculo “Controvérsia Batista”, como se fosse a pura verdade, quando, pelo contrário, é mera invenção de uma causa perdida e sem defesa na Bíblia.

3. E que distância temos atravessado desde o ponto em que só adultos podem ser crentes até ao estado do argumento em que é conveniente que todos os filhos presbiterianos tem fé na infância e todos os judeus tinham a fé contemplada no pacto da graça – ao oitavo dia de idade, dia oficial da circuncisão! “Tem fé” mas “não tem fé pessoal”. Pode haver maior confusão no emprego de linguagem?

Com todas as veras da alma negamos a possibilidade de haver uma fé não pessoal.

4. Considerai como a Escritura por nosso irmão fabricada prova mais do que ele quer. Ele inventou uma “justiça imputada” a mil gerações. Logo, todos os descendentes de um crente por trinta mil anos devem ser considerados justificados!

É demais. Os próprios presbiterianos ficariam revoltados contra tamanho absurdo: “Se a obediência aos mandamentos traz benção sobre mil gerações, como pode a fé em Jesus que é o resumo de toda a obediência deixar de passar dos pais aos filhos ao menos na primeira geração?” Que fuga pavorosa! A frágil obediência dos israelitas, parcial, acanhada e primitiva, dava para abençoar mil gerações, mas o “resumo de toda a obediência”, em plena época evangélica, acaba seu efeito “na primeira geração”. Então, vai assim enfraquecendo? Antes deve valer para dez mil gerações, e ser motivo do batismo infantil do descendente do ilustre presbiteriano que nascer daqui a 300.000 anos.

5. Negamos que “Deus fizesse entrar formalmente a descendência” de Abraão “no pacto da graça”. Nem entrou nesse pacto o primeiro descendente de Abraão, Ismael. Nem é verdade que “os meninos israelitas. Nem é verdade que “os meninos israelitas eram naturalmente participantes da fé de Abraão”. Paulo declara categoricamente: “Nem todos os que são de Israel, são israelitas, nem por serem descendência de Abraão, são todos filhos” (Rom. 9:6,7). A solidariedade, pois, não é na base da carne, solidariedade de famílias, e ninguém jamais foi participantes de fé alheia. Todo o cap. 4 da Epístola aos Romanos é uma afirmativa de que só o crente é contemplado no pacto da graça. Judeu e gentio, sem distinção de solidariedade de família, são herdeiros da promessa tão somente pela fé, não pela hereditariedade da carne, “... para que fosse ele pai de todos os que crêem, ainda que não sejam circuncidados” (Rom. 4:11). Nunca nenhum ser humano gozou da salvação prometida no pacto da graça, sem fé pessoal. “Por isso procede da fé para que seja segundo a graça”, e se procede da fé, não procede da solidariedade, que nada tem a salvação de quem quer que seja.

6. Toda essa linguagem é de Ashdod – “solidariedade”, “personalidade enfeudada”, fé não pessoal, “personalidade representa pela do pai”. Tudo isso é medievalismo. Nenhuma sílaba disso se acha no Novo Testamento. E o vocábulo é estranho porque as idéias por ele expressas são estranhas ao evangelho da graça.

Ah! Preconceito eclesiástico! Até que extremos nos queres conduzir? Em que mundo tens vivido para pensar que, “o que o pai é socialmente ou religiosamente, isso o filho é?” Nunca leste do bom sacerdote Eli, cujos filhos perversos adulteravam na porta do tabernáculo, violando as mulheres de Israel que vinham adorar? Absalão foi social e religiosamente um fac simile do caráter de Davi? Basta investigar as listas dos reis de Judá e Israel para ver quão pouco influi a solidariedade da família na santidade. Roboão, o imprudente, é filho de Salomão, o sábio, e perde quase todo o reino, pela sua presunção. De Abião lemos: “E ele andou em todos os pecados” de seu pai, mas de seu filho, Asa, lemos em I Reis 15:11: “Asa fez o que era reto aos olhos de Jeová, como o fizera Davi, seu pai... Tirou da terra os sodomitas e removeu todos os ídolos que seus pais tinham feito”. Do bom Jeosafá, o mau Jeorão foi filho. Joás, neto da perversa Atalia e filho do fraco idólatra Acazias, foi forte, bom e leal a Deus. Seu filho, Amazias, era bom mas fraco e cabeçudo e ficou cativo em Israel por um combate fútil que provocou em vã glória, e afinal foi assassinado pelos seus súditos. Seu filho foi castigado por Deus que o tomou leproso por causa da idolatria que tolerava. Filho de leproso era Jotão que “fez o que era reto aos olhos de Jeová”. Acaz começou bem, logo se desviou para a idolatria, voltou para Deus, alma vacilante parecida com seus antecedentes maus e bons e divergentes de todos. O filho desse idólatra é Ezequias, o bom rei, o qual teve por filho Manasses, o abominável.

Outrossim, a solidariedade abrange todos os filhos, não apenas o sucessor do pai. E o mesmo pai teve, tem e terá filhos bons e maus – Caim e Abel, Ismael e Isaque, Esaú e Israel, Simeão e José, Salomão e Absalão, e assim por diante. Em alguns casos, esses irmãos de caráter tão divergente eram gêmeos. Tomé, um dos apóstolos, era chamado Dídimo, que significa gêmeo. Mas o outro gêmeo não foi apóstolo.

Muitas vezes, o próprio caráter do pai, por ser muito saliente, provoca o oposto no filho. Os mais eminentes inimigos do alcoolismo tem sido alguns filhos de bêbados. O marcial Abraão teve um pacifista por filho. Samuel, o justo juiz e profeta, teve filhos que aceitaram peitas e se subordinaram. O filho do ciumento Saul foi Jônatas, o generoso. O bom sacerdote Arão teve filhos rebeldes, como Nadabe e Abiu, que Deus consumiu um fogo destruidor. A mãe do Salvador era crente, seus filhos eram incrédulos por todo ou quase todo o ministério terrestre de Jesus, se bem que os vejamos convertidos depois da ressurreição de Cristo.

Nosso colega crê demais na hereditariedade. As investigações modernas salientam a herança que o filho recebe da mãe talvez mais do que a que recebe do pai. Logo, não é uma fonte única, mas duas fontes independentes que se fundem na herança do filho. Alias, muitas fontes.

Outrossim, a hereditariedade da saltos. Dotes de um bisavô, ou de uma bisavó, aparecem no bisneto, tendo sido latentes por duas gerações. Meus filhos, exceto um, tem olhos azuis, embora ambos pai e mãe tenham olhos pardos. (Avô paterno e avó materna tem olhos azuis.) cabelo ruivo às vezes salta duas ou três gerações e reaparece. Tudo isto, a ciência moderna investigou e reduziu a lei. E estas não nos deixam escravizados à teoria de que “o que o pai é socialmente ou religiosamente, isso o filho é”, pois lá na linha de longa hereditariedade antecedente há bom e há mau , de que um descendente traz possibilidade de natureza inata. Nosso organismo é uma carruagem em que passeiam todos os nossos antecedentes.

Também o ambiente influi mais do que a solidariedade domestica. A inevitável derrota dos Macabeus , mas por iniciativas desleais internas do que pela pressão militar exterior, mostra a fraqueza da solidariedade para garantir os destinos de um povo. Os libertadores são individualistas. Seus filhos prendem o povo de novo na solidariedade escravizadora, da qual novos surtos de individualismo produzem salvadores e juízes, e por esses saltos de individualismo a família humana progride.

Há na outra América uma organização chamada “O Berço” (The Cradle), fundada por uma boa mãe que teve compaixão dos filhos ilegítimos ou enjeitados ou de outra maneira infelizes e igual compaixão teve de mães estéreis, cujos seios ardiam no anelo materno. Ela estabeleceu “O Berço”. Aceita crianças bastardas, filhas de paixões abomináveis de que não tem culpa, filhas de divorciados e de outros infelizes ou perversos. Ela só entrega ao lar sem filhos uma criança sadia (os que são congenitalmente contaminados de moléstias incuráveis ficam em outro departamento da instituição). Pois casais santos recebem em seu lar filhos da perversidade e os criam no temor de Deus, enquanto outros pais santos deixam sua própria carne e ossos degenerar em inominável perversidade, julgando que basta a hereditariedade e a aspersão infantil para garantir a sorte do filho. O filho de um dos mais nobres soberanos calvinistas na história foi roubado por desumanos jesuítas, e criado no mais crasso jesuitismo. A glória diabólica da Sociedade de Jesus (sic) é precisamente sua sagacidade em saber que o ambiente anula a hereditariedade. Daí o êxito da Contra-reforma, por jesuítas que se tornaram mestres dos príncipes da Europa. Daí a confiança das democracias iluminadas na educação popular.

A doutrina de nosso irmão vai bem com o fatalismo que é característico de calvinistas extremistas, mas é o desespero dos infelizes. Se o irmão fosse missionário na Índia, com suas castas de ferro, pregaria que “o que o pai é socialmente ou religiosamente, isso o filho é?” Seria bom indu, mas cristã impotente. O evangelho é a palavra da esperança de Jesus Cristo que desmente toda a solidariedade de famílias ns laços do pecado e oferece a salvação do indivíduo, independente de pai, mãe, tribo, casta ou nação. A doutrina do opúsculo antibatista é doutrina de desespero, doutrina antievangélica, doutrina confortadora de todas as tiranias, as quais só temem o individualismo. É bom riscar esse nome “Independentes, e escrever Presbiterianos Solidários. “Independente” de que? Se o filho é forçosamente solidário com o pai maçom!

Tudo isto procede da confusão que o autor faz da dispensação legal e da evangélica, querendo que sejam a mesma. Solidariedade de Israel havia na base da família e nação, porque Deus era a cabeça de ambas, na teocracia. Mas quando a teocracia foi a pique no cativeiro, surgiu sob Ezequiel e Jeremias o individualismo, a responsabilidade pessoal diretamente a Deus, a qual é a pedra angular do evangelho. Assim prepararam os profetas do cativeiro o terreno para a nova dispensação que se aproximava.

Ezequiel encontrou na gíria popular um provérbio de solidariedade calvinista; mas não foi do agrado de Deus.

“De novo veio a mim a palavra de Jeová, dizendo: Que quereis vós dizer, usando na terra de Israel deste provérbio: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos estão embotados? Pela minha vida, diz o Senhor Jeová, não tereis mais ocasião de usardes deste provérbio em Israel.Eis que todas as almas do pai, assim também a alma do filho é minha; a alma que pecar essa morrerá?” (Ezequiel 18:1-4)

Quão diferente a idéia do profeta da nova aliança da do bom teólogo que ambiciona confundir a nova e a velha aliança! Para este, “a personalidade do filho é enfeudada na do pai”. Mas para aquele, a alma do filho é direta e pessoalmente responsável a Deus, não ao pai. A alma dos filhos presbiterianos é de Deus, e nenhum pai presbiteriano tem o menor direito de praticar sobre eles um rito que Deus não estabeleceu e que lhes rouba o privilégio e o dever de obedecer por si ao mandamento de ser batizados. O batismo infantil é uma ofensa contra a criança e contra Deus. Rouba a ambos direitos inalienáveis na vida da criança. O pai que açambarca tais direitos das almas na sua família é usurpador de funções religiosas sublimes na vida alheia: toma o lugar de Deus na consciência de seus filhos, o que não é pecado leve, mas sim grandemente presunçoso. O hindu casa seu filho com uma criança por este nunca vista. Não é mais invasão dos direitos futuros dos noivos do que determinar-lhes a vida religiosa sem aguardar a decisão de suas consciências iluminadas pela Palavra de Deus. Ah! Tirania doméstica, sectária! Tu transformas o marido e pai num déspota eclesiástico, e o lar numa inquisição!

Ezequiel continua por todo aquele capítulo 18 combatendo a solidariedade religiosa de pai e filho e afirmando em alto e bom som o individualismo como a essência da nova aliança, a responsabilidade pessoal na moral e na religião.

Falando do justo, o profeta diz:

“Se ele gerar um filho que se tornar salteador... acaso viverá ele? Não viverá. Cometa todas estas abominações; certamente morrerá, o seu sangue será sobre ele. Eis que se este, por sua vez, gerar um filho que, vendo todos os pecados cometidos por seu pai, tema e não faças coisas semelhantes... este não morrerá por causa da iniqüidade de seu pai, certamente viverá... Contudo, dizei: Por que não leva o filho a iniqüidade do pai? Quando o filho fizer o que é de equidade e justiça, e guardar todos os meus estatutos, e os cumprir, certamente viverá. A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniqüidade do pai. Nem o pai levará a iniqüidade do filho. A justiça do justo será sobre ele, e a impiedade do ímpio será sobre ele”.

Individualismo mais amplo, a linguagem humana seria incapaz de afirmar. Parece que o profeta previu que no século XX, na culta cidade de São Paulo, um teólogo da velha aliança ia inventar uma Escritura que “imputasse” aos filhos “a justiça” ou “a maldade” dos pais. Através de longos séculos, lança-lhe contestação cabal.

Ezequiel por sua vez, seguia o gigante arauto da Nova Aliança, que era Jeremias:

“Naqueles dias dirão mais: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram. Mas cada um morrerá pela sua iniqüidade; todo homem que comer uvas verdes, a esse é que lhe ficarão botos os dentes. Eis que vem os dias, diz Jeová, em que farei uma nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá, não segundo a aliança que fiz com seus pais no dia em que os tomei pela mão para os tirar da terra do Egito (essa minha aliança eles a invalidaram, ainda que me desposei com eles, diz Jeová). Mas esta é a aliança que farei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz Jeová: Imprimirei a minha lei no seu interior, e as escreverei no seu coração; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo; não ensinará mais cada um ao seu próximo, dizendo: Conhece a Jeová, porque todos me conhecerão desde o menor até o maior deles, diz Jeová (Jer. 31:29-34).

Nada de a “Igreja” de Israel ser idêntica com o novo regime. Nosso irmão parece ignorar que desde os profetas do cativeiro, os homens de Deus anelam por uma religião pessoal imediatamente responsável a Deus. Mas ele volta a beber a solidariedade da família, sua “Igreja” Nacional, seu presbitério tribal, suas aspersões, sábado, tudo quanto a Epístola aos Hebreus, que é um comentário sobre a prometida Nova Aliança de Jeremias e Ezequias repudia como “antiquado, envelhecendo”, caduco (Heb. 8:13). “Todos me conhecerão, desde o menor até o maior.” O menor não fica “enfeudado” no maior e por ele representado, mas tem seu próprio conhecimento de Deus pessoal, a quem obedece individualmente por si. A lei de Deus já não é um decálogo gravado em pedras, mas é implantada no coração do indivíduo, na sede de seus afetos, onde estão as saídas da vida. Uma lei escrita no íntimo do pai não penetra no íntimo do filho. Deus faz sua obra regenerada, pessoalmente, em cada um a fim de que todos o conheçam “desde o menor até o maior deles, diz Jeová.”

Jesus, certamente, aceita e ilumina o individualismo da Nova Aliança. No presbiterianismo, a família é a unidade, segundo sua norma. No evangelho, é o indivíduo. Jesus disse: “De ora em diante, haverá numa casa cindo pessoas divididas, três contra duas, e duas contra três; estarão divididos: o pai contra seu filho e o filho contra o seu pai, a mãe contra sua filha, e a sua filha contra sua mãe; a sogra contra sua nora, e a nora contra sua sogra” (Luc. 12:51-53). A consciência impera. Sua cidadela está na alma de cada pessoa. Ninguém lhe pode invadir o território ou debelar a autoridade. Jesus assim quer: “Vim causar divisão entre o filho e seu pai” (Mat. 10:35). O individualismo é a espada do evangelho. “A religião dos nossos pais” é o brado de dogmas falsos que temem a luz da investigação. “Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim.” Quem enxerga nessas responsabilidades pessoais do discipulado – cada indivíduo seguindo diretamente a Cristo embora essa lealdade o leve ao seu Calvário de divergências de pai ou mãe ou esposo ou esposa ou de qualquer ente humano querido – quem enxerga ali o dogma hodierno da solidariedade? Não existe em o Novo Testamento. Todos os homens são reis sobre o trono de sua consciência, e Deus é sobre todos e Cristo assim “alumia a todo o homem”.

Paulo continua a mensagem de Jesus: O cap. 14 da Epístola aos Romanos é o capítulo da tolerância, baseada na liberdade do individualismo. “Quem és tu que julgas o servo alheio?” É a repreensão de Paulo a quem quiser solidariedade no terreno de costumes religiosos, onde não temos mandamentos de Cristo. Por que bulir na vida alheia? “Para o seu próprio amo está de pé ou cai; mas ele estará firme, porque poderoso é o Senhor para o firmar”. “Tu, porém, por que julgas a teu irmão?... pois todos comparecemos perante o tribunal de Deus... Assim, pois, cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus”. Chega um crente aspergido na infância para dar conta de sua vida. Indaga-se-lhe por que nunca obedeceu ao mandamento do batismo. “Oh! Senhor! Eu era enfeudado na personalidade de meu pai. Ele me disse que eu fora batizado na infância. Nunca te pude obedecer sem repudiar a autoridade de meu pai, por isto não procurei fazer o que Cristo mandou”. Eu antes quero ser banido e morrer na mendicância do que forçar meus filhos a serem obrigados a assim testemunhar, envergonhados de si e de mim, no dia do juízo final. Irmão crente pedobatista, não roubes ao teu filho seus direitos na religião cristã, impondo teus preconceitos como grilhões sobre sua vida juvenil. Tal ofensa é mesquinha em espírito, mas grande e grave nas conseqüências sobre a vida do filho.

A solidariedade é um vocábulo horrendo na religião. É o termo predileto hoje em dia de todo jesuíta, demagogo, comunista, politiqueiro ou eclesiástico que queira explorar a massa popular para estabelecer qualquer sistema de domínio sobre a cerviz do povo. Solidariedade, explorada para fins partidários ou sectários, é o assassínio da liberdade pessoal, é a arma predileta de toda casta de conspiradores contra a civilização, o cristianismo e a liberdade humana. Abramos os olhos ao perigo.

Solidário vem do latim solidus, na sua etimologia, e a concepção de solidariedade visa a tornar um bloco de homens num sólido inconsciente, capaz de ser jogado pela mão do régulo, chefe, superior, demagogo ou prelado que se valer da terrível força. Como as gotas de água se congelam num bloco de gelo, como as partículas de aço se fundem numa espada, como a argamassa se torna dura nos blocos de concreto armado, como as vidas minúsculas se solidificam no recife, assim todos os exploradores de idéias fixas querem solidificar castas e classes, raças e nações, famílias e partidos, sociedades e religiões, capital e proletariado em meros sólidos inconscientes, a ser jogados pelos seus ambiciosos dirigentes contra outros blocos de seres humanos igualmente explorados e arregimentados para a luta fratricida.

Por ora,o mundo ainda goza de certa liberdade, porque há tantas solidariedades em conflito que nenhuma triunfa. Esta força, todos a querem explorar. E quem ontem era solidário a alguém, hoje chama os incautos para serem “solidários” com ele. A solidariedade é espada de dois gumes que, caindo na mão de qualquer sábio ou tolo, é usada a seu gosto e jeito, para ferir ou intimidar. Quando é usada pelo pai para intimidar a consciência do filho para não obedecer a Cristo, é uma rebelião perversa, como o é quando usada por ditador para proibir a liberdade religiosa, por um chefe de partido para coibir os direitos de livre ação dos cidadãos em obediência e gozo das leis e liberdades pátrias ou por um jesuíta ou comunista ou demagogo ou fascista, para transformar homens que Deus fez livres e responsáveis em meros blocos da carne humana a serem atirados, qual bomba de dinamite, para destruir as vítima de sua ira e vingança. A idéia solidariedade inconsciente, nas mãos de ambiciosos de toda espécie, é o maior perigo atual no horizonte da religião, da civilização e da ordem.

Qual a alternativa da solidariedade? A Bíblia usa uma de duplo aspecto. Um é a unidade. Os batistas lealmente sustem as unidades da vida – Um não solidário, é o termo bíblico. Mas de todas estas unidades reconhecemos uma só cabeça suprema, que é Jesus Cristo. Consideramos a família um organismo, uma unidade. Mas Jesus é a cabeça de todo homem (I Cor. 11:3). A família é um organismo de que o homem é a cabeça, em sentido secundário, subordinado à suprema chefia de Jesus Cristo. Os filhos obedecem “no Senhor” e, se houver conflito entre a vontade do pai e a vontade de Deus, obedeçam a Deus. A mulher se submete ao marido, mas é ordenada a se casar “no Senhor” (I Cor. 8:31), e lhe é permitida separação, se for tão somente assim que se possa viver em paz (I Cor. 7:11-15). Ela não seguirá ao marido para a incredulidade ou a desobediência a Deus, mas é de consciência livre e responsável.

Assim com o Estado. Os magistrados são ministros de Cristo. Temos as mais solenes e religiosas obrigações de obedecer às leis, pagar os impostos e servir à pátria. Mas, se alguma autoridade humana manda o que Deus proíbe ou proíbe o que Deus manda, nós reconhecemos Deus como a suprema cabeça do organismo civil, obedecendo-lhe em preferência aos homens. Assim com todos os organismos da raça, classe, condição de vida ou igreja. Jesus é a única cabeça infalível. “Toda a autoridade é-me dada no céu e na terra”. Nenhuma autoridade, pois, ouse reduzir o indivíduo a um átomo num bloco, servil, pois ele é personalidade e personalidade é a maior glória deste universo, o laço que une Deus e o homem, numa vida comum. O homem precisa, pois, ser individualmente responsável ao seu Deus e, quando Deus se revela, ele responde: “Fala, Senhor, teu servo atende”, e não aguarda a opinião de pai ou mãe, padre, padrinho, político ou eclesiástico, laborista ou capitalista, patrão ou público, mas corre pressuroso para fazer a vontade de Deus. Quando morrer este espírito, morrerão o cristianismo, a civilização e a liberdade. Mas o presbiterianismo é desleal a este espírito e começa sua deslealdade no próprio lar. Enquanto a criança é envolta nas faixas infantis, também fica envolta em faixas eclesiásticas que a prenderão na vontade dos pais quando já tiver passado a ter consciência própria e ser responsável a Deus.

A segunda parte da alternativa que o cristianismo oferece em lugar da solidariedade é a cooperação de homens livres. Cooperar é palavra e idéia do Novo Testamento. Consiste em seres livres operarem juntos – cooperarem. As Epístolas de Paulo estão cheias desta doutrina.

Eis o nosso programa:

Da unidade domésticas, eclesiásticas, civis e da raça, Jesus é a cabeça e lhe daremos leal obediência e a todos que tiverem autoridade e a exercerem lealmente sob ele. Mas nenhum homem mandará na consciência alheia, no que toca às relações entre esta e seu Deus. Isto é individualismo cooperador e ordeiro, a pedra de esquina da liberdade das democracias modernas, e a essência do evangelho de Jesus Cristo.

Disse o Dr. Edgar Y. Mullins, em “Os Axiomas da religião”:

O leitor há de notar que o que nós estamos sustentando é que a doutrina da competência da alma em matéria de religião, numa perfeita dependência de Deus, é a significação histórica dos batistas. Podemos descrever a posição batista, nas suas várias relações, da seguinte forma: A significação bíblica dos batistas é o direito de interpretação particular das Escrituras e de obediência às mesmas. A significação dos batistas, em relação ao indivíduo, é a liberdade da alma. A significação eclesiástica dos batistas é a regeneração dos membros da igreja e a igualdade e sacerdócio dos crentes. A significação política dos batistas é a separação entre a Igreja e o Estado. Mas, compreendendo todos os pontos atrás mencionados, como uma grande força agressiva na história cristã, distinta de todas as outras e mantendo-se sem o auxílio de nenhuma delas, a doutrina da competência da alma em matéria de religião, em subordinação a Deus, é a significação histórica distintiva dos batistas.

O Protestantismo é Também Incoerente

Vamos agora ocupar-nos do principio batista, da competência da alma sob o ponto de vista religioso, na sua relação com o protestantismo em geral. As considerações que temos a fazer são, já se vê muito diferente das que apresentamos relativamente ao catolicismo romano. Mas as igrejas que adotam o batismo infantil ou o episcopado sobre qualquer forma não estão, em certos pontos importantes, em conformidade com o princípio do Novo Testamento. Estas coletividades representam, de fato, um cristianismo dualista. Procuram conciliar o principio romano da incompetência com o antitético principio da competência. Ao insistirem sobre a doutrina da justificação pela fé, reconhecem o principio da competência; mas, pelo fato de manterem o batismo infantil ou o episcopado, admitem o principio oposto. O batismo infantil priva a criança de seu privilégio de iniciativa individual, no que respeita a salvação, e põe nas mãos dos pais ou padrinhos a impossível tarefa de cumprir por outro um ato de obediência religiosa. Semelhante modo de ver as coisas é como um machado posto à raiz da obediência, e destrói a sua natureza essencial.

O protestantismo corrente procura, por conseqüência, harmonizar dois princípios diametralmente opostos. Há, por outras palavras, dois modos de entrar em uma igreja episcopal ou presbiteriana. Um é mediante a obediência pessoal. O candidato a membro de igreja que não foi batizado declara que crê nestes e naqueles pontos, que implicam, já se vê, na justificação pela fé em Cristo. É recebido e batizado em virtude desta sua profissão de fé, e, portanto, obedece por si próprio. Outro, que foi batizado na sua infância, também solicita a admissão na igreja, e é recebido em virtude desse batismo. No primeiro caso, o candidato obedeceu pessoalmente, no segundo, os seus padrinhos obedeceram por ele. Os dois princípios são fundamentalmente opostos. Não é de admirar, portanto, que as igrejas pedobatistas tenham grandes dificuldades em explicar a posição que ocupam na igreja as crianças batizadas. São membros da igreja, ou não são? Os congregacionais da Nova Inglaterra discutiram o assunto durante muito tempo, no período da colonização, e nunca chegaram a uma satisfatória solução do problema.

As mesmas dificuldades existem hoje em todas as denominações pedobatistas. A posição, na igreja, das crianças batizadas, por qualquer forma que seja encarada, é uma contradição à doutrina da justificação pela fé e da obediência pessoal, que as mesmas igrejas sustentam. É que no primeiro caso afirma-se a competência da alma sob o ponto de vista religioso – isto é, que é justificado pela fé e obedece pessoalmente; e no segundo nega-se essa competência, pois que se batiza a criança e os pais ou os padrinhos é que ficam com a responsabilidade da obediência.

O princípio do Novo Testamento de competência da alma é também violado em todas as organizações eclesiásticas que adotam o episcopado e qualquer outra forma de oligarquia eclesiástica.

Terminando as nossas observações sobre a relação da doutrina da competência da alma sob o ponto de vista religioso com as idéias das igrejas pedobatistas, é-nos apenas necessário notar que estas adotam num ponto e contradizem noutro um princípio que atinge a sua plenitude na constituição batista. Os batistas têm-se conduzido numa perfeita coerência com esse princípio. O seu fim é conseguir que á humanidade seja restituído o cristianismo primitivo em toda a sua integridade.

(Preferimos que o leitor investigue a “Enciclopédia e Dicionário Internacional” sobre a história da idéia da solidariedade, ou as obras como “The Ideals of France”, por Cherles Ceste, Charge du la Cours de Littérature et de Civilization Americaines à lá Sarbonne. Ali ele verificará que o termo solidariedade se popularizou na França e no Brasil pelo sistema de pensamento de Augusto Comte. Lenine é quem mais soube explorar a idéia, em tempos modernos. Muitos crentes brincam com o vocábulo, não sabendo que estão brincando com a dinamite. Nem o termo nem a idéia filosófica que o acompanha fazem parte alguma do evangelho.

e). O destemido paladino do sacramento dos irresponsáveis não popa esforços, mas explora todos os ramos de conhecimentos religiosos, buscando munições para sua controvérsia contra o batismo bíblico. Assim, ele se aventurou no terreno de criticismo textual e “ouviu dizer” que existia uma passagem em uma tradução antiga que afirma o batismo das crianças de Lídia.

Sobre à casa de Lídia, o autor cita um tal Fairchild (p. 37), que diz que Tishendorf afirma que a versão Peshitto diz que Lídia “foi batizada e todas as crianças de sua casa”! Se o Peshitto dissesse, seria mera curiosidade textual, uma lição nula, ao par de algumas lições de versões orientais, que declaram: “Jesus foi gerado por José”. Mas a declaração do tal Fairchild é falsa. Tischendorf não diz semelhante coisa nem coisa alguma sobre o assunto nem dá versão alguma entre todos da antiguidade que varie assim do texto aceito. Descansa na minha mesa a obra magistral de Tischendorf.

Aí tendes absolutamente tudo que Tischendorf dá sobre o assunto – (Novum Testamentum Graece ad antiguíssimos testes denuo recensuit apparatum criticum omni studio perfectum apposuit commentationem isagogicam praetexuit Constantinus Tischendorf – Editio Octava Crítica Maior, Volume II. Lipsiae Gresecke et Devrient 1872). É o padrão universalmente aceito de criticismo textual em todos os seminários teológicos e rodas universitárias, a edição autorizada e final, publicada na Alemanha.

Para explicar tudo quanto Tischendorf tem nesta pequena nota exigiria outro opúsculo maior do que este. Não é mister. O leitor mais leigo na matéria pode ver que Tischendorf nem tem a palavra Peshitto nem abreviação da mesma. Contudo, ele cita esta versão como idêntica com o texto que é seguido nas versões portuguesas e em todas as versões siríacas, Peshitto e Harkleana. Peshitto significa em siríaco a mesma coisa que Vulgata entre os latinos: e o Peshitto, diz Tischendorf, por este sinal, não tem variação alguma. Tischendorf dá as variações mais pequeninas, mesmo às diferenças de uma letra. Logo, não teria deixado sem menção a suposta variação importante do Peshitto. O tal Fairchild, alegado ser ex-batista, ou era ignorante ou era propositadamente inventor de testemunho ás ordens do freguês eclesiástico. O comentário, “Expositor’s Greeck Testament”, na parte sobre Atos, é da autoria do pedobatista R. J. Knowling. Ele é, porém, um pedobatista que diverge da norma sectária, a qual afirma tudo que sua seita deseja e nega tudo quanto lhe seja prejudicial aos dogmas. Este eminente professor em King’s College, Londres, diz in loco: “Talvez Evódia e Sintione e as outras mulheres de Fil. 4:2,3 fizessem parte da família de Lídia, a qual talvez empregasse no seu negócio muitos escravos e mulheres emancipadas”. Dois “talvez” interessantes. Por isto, se vê que um pedobatista imparcial, quando começa a adivinhar o que a Bíblia não revela, pode tão facilmente povoar a casa de Lídia com escravas e empregados em seu negócio como de crianças de peito. Renan é citado na mesma obra, p. 345 como suponho que Lídia era esposa do Apóstolo Paulo. A imaginação humana não tem fronteiras. Mas a séria exegese da Bíblia não edifica doutrinas sobre imaginações. É ousadia afirmar que uma negociante, que falava em “minha casa”, tivesse filhinhos da idade desejável para servir aos propósitos da propaganda pedobatista quando não se ouve coisa alguma da existência de um marido e nem se sabe se ela era casada, viúva ou solteira. Atribui a uma senhora ter filhinhos quando nem há evidência de ela ter marido é o auge de presunção inconveniente.

f). Além do seu errado criticismo textual, o zeloso autor pedobatista lança do criticismo radical para servir aos fins do seu sacramento. Nas ps. 20, 21, lemos:

“Era crença de que cada religião ou povo tinha um deus que só era poderoso na área em que se reconhecia sua divindade. A religião, pois, era local e o culto da família tinha de ser adotado pelo escravo se ele não quisesse ficar sem a proteção de um Deus e sem religião.”

“O escravo judeu não era, pois, circuncidado contra a vontade, mas recebia isso como um privilégio que o colocava religiosamente ao lado do seu senhor e lhe permitia adorar e buscar a proteção do Deus do lugar, já que seu deus não dominava ali.”

“Por este motivo, deixava de adorar deuses falsos para servir, de coração, ao verdadeiro Deus.”

A ultima sentença é a menos lastimável. Mas este “Deus verdadeiro” é anteriormente classificado como “Deus do lugar”. Negamos que Jeová fosse um Deus nacional, tribal ou local, no pensamento de Abraão, Moisés ou os profetas.

O assunto de que se trata é de somenos importância. (O escravo de um judeu tinha de ser circuncidado, mas o escravo de um cristão não tinha de ser batizado. Duas medidas e dois pesos) . O ponto é que não há sacrifício demasiadamente grande e grave, se por ele se conseguir justificar o sacramento infantil. Deus fica reduzido a uma deidade local, para justificar a teoria sacramentalista. Isto é uma deslealdade à teologia conservadora e Bíblica. E é insustentável.

g). Outra bela lógica do ilustre pedobatista é o argumento do silêncio. De fato, todos os argumentos tirados da Bíblia sobre o batismo infantil têm de ser argumentos do silêncio pois a Bíblia é silenciosa sobre o assunto em sessenta e seis de seus livros componentes, e em cada sílaba dos mesmos, desde Gênesis 1:1 até ao Apocalipse 22:21.

Concordamos em que há esse silêncio, na Bíblia, sobre o batismo infantil – nenhuma controvérsia sobre o assunto. O mesmo fenômeno se nota sobre muitos elementos do presbiterianismo – presbíteros leigos, sínodos a assembléias gerais sobre as igrejas, sacramentos, sábado cristão, o batismo como selo, um presbitério para governar igrejas, igreja cristã nacional, igreja invisível, membros não comungantes das igrejas, união da Igreja com o Estado e Batismo em lugar de circuncisão. A Bíblia ignora tudo. Não há controvérsia nem menção de espécie alguma de tais coisas. Nisto Calvino e os papas andam na mesma canoa. A chamada “barca de São Pedro” e a de São João Calvino tem nome idêntico – Silêncio na Bíblia. Sua única autoridade é silêncio. Deus não fala dos “sacramentos” que ensinam e praticam. No mesmo versículo onde Calvino encontra o apoio do silêncio ao batismo infantil, o m. d. reitor do Seminário pedobatista encontrará apoio bíblico para a missa, os sete sacramentos, o papado, o culto aos mortos, o purgatório, a Santa Inquisição, o celibato do clero e tudo mais que quiser.

Com franqueza, só nos resta admirar a moderação do teólogo presbiteriano. Quão parco é o seu uso da autoridade bíblica do silêncio da Bíblia! Ele poderia incluir com o batismo infantil toda a demais bagagem de Roma com igual razão. Mas ele é modesto, digamos em seu abono. Só invoca o silêncio da Bíblia para cobrir as invenções eclesiásticas de Calvino ou as que Calvino tomou emprestadas dos papas.

A Bíblia é silenciosa sobre muita coisa: De que nacionalidade era Cristóvão Colombo? Quem foram os primeiros descobridores da América? Quem inventou o aeroplano? Quem descobriu o pólo norte? Tem razão a teoria de Einstein? E quem inventou o batismo infantil? A razão é simples. Todas essas questões surgiram depois de João escrever o último Amém da Palavra de Deus. Não são assuntos de interesse apostólico.

h). Nada tendo a seu favor nos escritos de Pedro, Paulo e João, o fértil defensor do batismo infantil foge para Agostinho, Cipriano, Orígenes e Ireneu. Francamente, a opinião destes quatro homens nenhum valor tem, perante os batistas, para definir doutrina apostólica ou testificar a prática dos apóstolos. O primeiro viveu no quarto e quinto século da era cristã. O segundo era do terceiro século. Basta saber que ele era autos da famosa e maldita doutrina do inferno – “Salus extra ecclesiam non est”, “Fora da igreja há salvação”. O terceiro é do fim do segundo e princípio do terceiro século, teólogo errático e vacilante, que todas as hostes da cristandade consideram hereje em muita coisa. Ireneu morreu em 190, quase um século depois da morte do último dos apóstolos, 160 anos depois da morte de Cristo, 122 anos depois da morte de Paulo. Quanta vaidade herética não se inventa num século! Esses homens não são testemunhas do século apostólico. Boa parte dos chamados escritos de Ireneu são apócrifos. Suas idéias são escravizadas ao sacramentalismo e eclesiasticismo. O fato de ele talvez ter conhecido alguém que conheceu o velho João está longe de nos desculpar, se responsabilizar o apóstolo João por todas as heresias e extravagâncias de Ireneu.

O opúsculo não cita palavra alguma desses três africanos e Ireneu. Apenas afirma o que quer. Se citasse as palavras do quaterno, as examinaríamos. Mas, na falta de seu testemunho, nos limitamos a dizer que tais testemunhas nem precisam ser ouvidas quando temos em nossas mãos o Novo Testamento. Se não há autoridade de Cristo e os apóstolos a citar a favor do batismo infantil pouco adiantará a defesa da cerimônia por cem “padres” da África e Gália, cujos erros crassos ajudaram a evolução do romanismo.

i). Chegamos, agora, a examinar mais uma suposição gratuita, que envolve uma interpretação contraditória e inverossímil da bíblia – I Cor. 7:10-14:

“Aos casados, porém, dou mandamento, não eu, senão o Senhor, que a mulher se não separe do marido (mas se ela se separar, fique sem casar, ou reconcilie-se com seu marido) e que o marido não deixe a sua mulher. Aos outros, porém, digo eu, não o Senhor: Se um irmão tiver mulher incrédula, e esta consente em morar com ele, não a deixe; e a mulher que tem marido incrédulo, e este consente em morar com ela, não deixe o marido. Pois o marido incrédulo é santificado na mulher, e a mulher incrédula é santificada no marido; de outra maneira os vossos filhos seriam imundos, mas agora são santos. Mas, se o incrédulo se separa, que se separe; em tais casos não está escravizando o irmão ou a irmã; mas Deus vos tem chamado em paz. Pois como sabes tu, ó mulher, se salvarás a teu marido? Ou como sabes tu, ó marido, se salvarás a tua mulher?”

Cito o contexto amplo porque o leitor por ele verá que esta passagem nem de longe aborda o assunto do batismo infantil. Há três fenômenos iguais:

Mulher incrédula santificada.

Marido incrédulo santificado.

Filhos (de idade não declarada) santos.

Sanctificatus est vir infidelis.

Sanctificata est mulier infidelis.

Sancti sunt ... (filii)

A Vulgata

Claramente, o caos dos três não é diferente. Os versículos subseqüentes mostram que esse marido santificado incrédulo ainda não foi salvo, pois Paulo incentiva a mulher a ainda viver com ele para salva-lo. A mulher santificada incrédula também não foi salva, não foi batizada, não tem direito de ser membro de igreja, comungante ou não comungante; nada disso está no remoto pensamento do apóstolo. Um pagão coríntio santificado na incredulidade, embora não seja salvo! Claramente, esta santidade nada tem com a salvação ou o batismo.

Então em que esfera é que o casal e seus filhos são santificados? Claramente, no lar. As relações domésticas não dependem da salvação. São santas perante Deus, independentemente da questão de fé. É isto que o apóstolo afirma aqui. Mais nada. O lar é legal. Os filhos são santos, isto é, legítimos diante de Deus e dos homens. O apoio divino está também sobre o casamento de incrédulos e os filhos de todos os casados são santos, quer sejam pagãos, cristãos, maometanos ou ateístas. Todos os maridos civilmente casados são santificados na sua relação monógama com a esposa. A esposa é santificada na sua relação com o marido, e os filhos são legítimos e a filiação é santa; tem o pleno apoio da ordenança divina.

Ora, há tanta razão de batizar o marido pagão santificado quanta há de batizar seu filho pagão santo. Não há diferença alguma. Os casos são idênticos.

A passagem não aborda o assunto de crianças. Um filho de 20 anos ou de 50 anos ou de 70 anos é tão santo, neste sentido, como um filho de um ano. Paulo nada diz sobre a idade dos filhos. A passagem nem de longe menciona nem batismo nem infantes nem batismo infantil nem salvação. Esta santidade é das relações civis e domésticas do lar. A igreja e seus ritos não estão no horizonte da passagem.

j). A última hipótese que examino é a suposição de que quando o Novo Testamento fala de filhos, são filhos recém-nascidos. Na passagem que acabamos de examinar, nada há sobre a idade dos filhos. Se um marido incrédulo pode ser santificado, um filho adulto pode ser santo – e é santo, no mesmo sentido.

Mas quando um intérprete pedobatista lê tais passagens, ele vê (entre as linhas) as faixas, rendas, berço e ama de uma criancinha e o carinho materno da boa progenitora, que tira o bebe do berço e o apresenta a um pastor presbiteriano. Ele vê (também entre as linhas, pois nada disto está escrito nelas) um cálice de água e ouve como doce música às palavras do credo de Calvino e a formula da aspersão infantil. Logo, está provado pela Bíblia. A Bíblia falou em filhos. Tudo mais, a imaginação fértil pedobatista forneceu e acrescentou à Palavra de Deus. Como o viajante sedento vê através das ondas do calor do deserto a miragem de lagoas e mares de água doce e refrigerante, assim o pedobatista enxerga o batismo infantil em qualquer uso da palavra filho em o Novo Testamento.

Primeiro, ouçamos o apóstolo Pedro:

“Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão de vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois para vós é a promessa e para vossos filhos e para todos os que estão longe, a quantos chamar o Senhor nosso Deus.”

Sobre isso lemos na “Controvérsia Batista” (p. 34).

Nas citadas palavras de São Pedro, não há desacordo sobre os judeus adultos (vós) e os gentios (os que estão longe) podem receber a promessa; o que é mister determinado é se a palavra – “filhos” inclui crianças ou só indica descendência adulta.

Outra vez aparece à idéia fixa desta arbitrária separação de adultos e crianças, introduzida em toda a discussão pedobatista! O autor redondamente se engana. Não há batista inteligente no mundo que queira limitar a promessa a adultos!

1. A promessa não é de batismo. Não há intérprete sério que ousaria assim definir a promessa. Portanto, não sendo prometido o batismo infantil, o versículo não vem ao caso nesta discussão.

2. Estes filhos, sejam adultos, sejam crianças – absolutamente não importa – se são da idade e inteligência de “receber promessa”, e de ser “chamados” por nosso Deus pelo seu evangelho, então podem aceitar a promessa, receber a salvação, gozar o dom do Espírito e inteligentemente batizar-se, e não precisam ser adultos para “receber” e “ser chamados”.

3. Que promessa será essa? Claramente está relacionada com o dom do Espírito Santo e sua obra divina nos corações. A única promessa citada no discurso de Pedro é:

“Vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos mancebos terão visões, e sonharão vossos anciãos.” (Atos 2:17).

Aí há uma promessa da obra especial do Espírito Santo. O versículo 33 diz que Jesus, “tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou o que vedes e ouvis”. Eis a promessa, e ele emprega a própria palavra que estamos estudando – filhos – e promete algo a estes filhos.

Que será? Batismo infantil? Mil vezes não. “Vossos filhos e vossas filhas profetizarão”. Esta promessa era para judeus e gentios e seus filhos que Deus chamasse para serem seus profetas. Uma criança recém-nascida profetiza? Se não, não é contemplada na promessa. Mas Samuel profetizou com poucos anos de idade, e Filipe tinha sete filhas que profetizavam. E os profetas da época apostólica eram numerosíssimos.

4. O próprio contexto da passagem exige arrependimento antes do batismo e afirma que todos os batizados receberam com alegria a Palavra, antes do batismo.

É mister ter forte propósito para ver nesta passagem de chamada divina e responsabilidade humana um vislumbre do batismo de inconscientes e irresponsáveis.

 

Autor: Dr William Carey Taylor
Fonte: www.palavraprudente.com.br

Digitação: Daniela Cristina Caetano Pereira dos Santos - 23/08/05

Revisão: Luis Antonio dos Santos - 24/08/05