Cap 12

ASPECTOS DEVOCIONAIS DO BATISMO

Dr. W. C. Taylor

Capítulo XII

Que pena é a controvérsia sobre o lindo símbolo da ressurreição do Salvador, escurecendo por séculos, como ainda escurece para milhões, a mensagem divina que a Trindade assim materializou, em reclamo visível das verdades da redenção, perante a consciência humana! O batismo nunca foi designado por Deus para servir aos fins de superstição ou controvérsia sectária, mas sim para ser um ato de sublime dedicação a Jesus Cristo. É um voto inesquecível de santidade. E nenhum homem sincero e espiritual se contentará em meramente aliar-se com um lado das controvérsias infelizes sobre o assunto, as quais, sem exceção, nasceram da superstição pagã. Uma vez aceitando, pela investigação imparcial, o que seja o batismo bíblico, ele se afastará do espírito controversial e, com reverência e humildade, se aproximará do ato por Cristo ordenado, para praticá-lo inteligentemente em seu espírito devocional. Volvamos, pois, nosso pensamento para que o que o batismo fala ao coração humano e ao Espírito divino que nos salvou e encerrou neste símbolo gloriosa mensagem que devemos testemunhar aos homens e sentir profundamente.

1. O batismo é o divino memorial à ressurreição do Salvador sepultado. Torna perpétua a evidência do túmulo vazio de José de Arimatéia onde jazera o Filho de Deus crucificado. Mais duradouro do que o bronze ou o granito, mais tocante do que a música de Miserere ou um coro de Aleluia, mais compreensível do que a lógica, mais simples do que um axioma, mais católico do que o alfabeto, mais atraente do que a argumentação persuasiva e eloqüente, mais majestoso do que as pirâmides, mais patriótico – no patriotismo do reino de Cristo – do que o juramento à bandeira da parte do soldado da República, mais vibrante apelo à consciência do que a música marcial dos clarins, mais doce na sua devoção do que um ósculo santo, o batismo preserva e proclama o fato triunfal do evangelho. O batismo não salva o pecador, mas salva o evangelho. Onde se conserva e entende o batismo bíblico, se conserva o evangelho na sua pureza. Mas onde o batismo degenera na superstição ou comodismo, o evangelho se perverte e se perde. É o testemunho da voz da história.

O batismo se pratica em todos os climas – tendo sido mais fielmente preservado nos climas de intenso frio – em todas as nações, em todos os séculos, em todas as circunstâncias imagináveis. Ele não precisa de intérprete, pois sua linguagem não está presa a nenhuma língua. “Não há fala, nem palavras; não se lhe ouve a voz. Por toda a terra estende-se a sua linha, e as suas palavras vão até aos confins do mundo.” Ele silenciosamente fala da ressurreição, porque é ressurreição. É o divino drama que demonstra aos povos o artigo supremo da nossa fé: “Mas agora Cristo foi ressuscitado dentre os mortos.”

Um Cristo morto não nos salva. Sem o túmulo vazio ao terceiro dia a paixão do Calvário é oca tragédia. Cristo “ressuscitou para nossa justificação.” Um Cristo ignominiosamente repudiado por homens, e cujo brado “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?” nos deixaria na negra desconfiança e desespero, não nos inspira a fé, não nos regenera, e, quanto nos possa parecer, não nos traria nenhuma redenção celeste ou santificação de vida. O mais que poderíamos ser é desiludidos estóicos, exclamando uns aos outros, no meio de nossos soluços: “Mas nós esperávamos que fosse ele quem havia de resgatar a Israel.”

Mas, através dos séculos, milhões de homens redimidos, na exultante certeza da fé, nas águas de mares e lagoas, de rios e piscinas, de obras-primas de escultura cristã e nas águas presas de cárceres e arraiais militares, nas cidades e nas florestas, em igrejas e ao ar livre, perante multidões ou no isolamento da mata grande, na companhia dos perseguidos à meia noite, cristãos obedientes pelo amor de Jesus Cristo, testificam a ressurreição reproduzindo a ressurreição, mediante o batismo de seus próprios corpos no túmulo simbólico. Diz-nos o insigne Carroll que, uma vez ao fim de um profundo avivamento da graça de Deus, entre os vaqueiros do Texas, ele sepultou no batismo com Cristo grande número dos filhos dos pampas, numa noite de luar, num açude e tranqüilo, sobre cujas encostas se levantavam em augusta sublimidade os píncaros de uma serra que repercutiram os cânticos do evangelho como ressoaram antigamente o Ebal e Gerezim com os antífonos améns das bênçãos da Lei. Naquelas águas formadas de um ribeiro montanhês, nas quais as trutas saltam e onde outrora donzelas índias se banhavam, se ergueu mais uma vez o monumento da ressurreição e foi levada, por vias de luar aos espíritos encorpóreos no céu, esta história da esperança: “Ó espírito dos justos aperfeiçoados no céu, vós não esperareis para sempre a vossa glorificação. Haverá ressurreição do corpo.”

O batismo é prova da ressurreição. Onde e como se originou, se o pó do corpo dilacerado de Jesus, o Nazareno, ainda se mistura com o solo da Palestina? Não há outra explicação de seu lugar primitivo e perpétuo no cristianismo senão que comemora a ressurreição do Senhor. Paulo o arrola juntamente com as memoráveis cenas em que Jesus apareceu a Pedro e Tiago e a quinhentos sobreviventes e a ele mesmo apóstolo aborto. O batismo também é testemunha, juntamente com os quinhentos que ouviram as palavras: “Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra. Indo, pois, fazei discípulos de todas as nações, imergindo-os em o nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; instruindo-os a observar todas as coisas que vos tenho mandado. Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo.” E Paulo apela a favor da ressurreição: “De outra maneira, que farão os que se batizam pelos mortos? Se realmente os mortos não são ressuscitados, por que então se batizam por eles?” Seja qual for a interpretação deste apelo, ele associa o batismo e a ressurreição. O batismo é o memorial da ressurreição de Cristo, as primícias e a profecia daquela divina e gloriosa seara que colherá do túmulo em celestial triunfo os corpos dos que são de Cristo. É dada a cada um de nós uma parte em edificar este memorial multissecular.

2. O batismo é voto de santidade operosa e sacrificial no reino e nas igrejas de Jesus Cristo.

Paulo encontrou no batismo a réplica adequada aos antinominianos, os maus intérpretes da graça salvadora de Deus que queriam achar nela desculpa bastante de sua cobiçada imoralidade. A pergunta por tais herejes provocada, “Que diremos, pois? Havemos de permanecer no pecado para que abunde a graça?”, teve sua resposta instantânea, da parte de Paulo, num apelo aos votos de santidade que os batizados fazem solenemente no seu batismo. Quem viver no pecado tornará seu batismo uma mentira e hipocrisia. Este símbolo declara que a alma que estiver morta em seus delitos e pecados foi moral e espiritualmente ressuscitada na experiência da graça regeneradora de Deus, pela fé, sendo identificada com o Salvador na sua morte na cruz na ressurreição para uma nova vida. O crente pendura-se com Cristo na cruz do calvário, morre para o mundo, como morre o mundo para o crente (Gal. 6:14), deita-se no túmulo com o Salvador sepultado, e se levanta no poder da ressurreição, para andar daí em diante em novidade de vida. Tudo isto é declarado pelo batismo em santo drama, em solene voto da consciência purgada pela paixão de Cristo, mas tudo isto se de desmente e se repudia quando o salvo vive em pecado.

Conheci um velho pai crente e santo que teve um filho pródigo e perdido. Este era tão perverso que teve de ser banido da casa paterna a bem da moral e do patrimônio dos outros filhos. Ele passou longos anos na devassidão e ficou na penúria. Então lembrou a um companheiro de pândega uma trica para obter mais dinheiro. Era que este sócio em crime telegrafasse ao pai, avisando-o de que seu filho havia morrido e pedindo que lhe fosse enviado por telegrama dinheiro para seu enterro. O pai compassivo enviou imediatamente a quantia necessária para o enterro e o patife desavergonhado tomou a parte que lhe coube e voltou para casa a fim de pedir mais alguma parte da herança. Que diziam os vizinhos? Correu pela comunidade: “Fulano está aqui!” “Qual fulano? Aquele que morreu e foi enterrado?” “Ele mesmo. Aquilo era fita, fingida e praticada para fins interesseiros. Que hipócrita, hein? Mentir sobre a própria morte!”

Não nos enganemos. Assim fala no íntimo cada observar de uma vida indigna, da parte de um crente batizado, mas moralmente relaxado e desviado. Este batizado disse no seu batismo que seu velho EU morrera, fora sepultado para sempre e desaparecera, assim, de vez da cena da vida. Novidade de vida é o fruto da ressurreição que se simboliza no batismo. Um homem batizado não vive na santidade é cínica hipocrisia. O desviado desmente tudo que seu batismo professou. O batismo, pois, é um dos mais fortes incentivos à vida coerente e santa que se encontra em toda a Escritura.

3. Portanto, não é de admirar que o batismo pressupõe frutos dignos da transformação do caráter e mentalidade nova que o símbolo proclama. João Batista recusou-se a batizar os mais religiosos dos homens, se sua religião fosse divorciada da boa moral. O seu batismo era destinado a um pecador transformado, cuja mente e atitude para com Deus e para com o pecado e para com a santidade foi radicalmente mudada. Esta nova atitude se manifesta em frutos dignos de tão nobre profissão. João recusou-se a batizar aqueles de cuja mudança frutífera de mentalidade ele duvidou. Paulo exigiu de novo o batismo daqueles que ignoravam na vida a obra do Espírito Santo, que renova, vivifica e limpa. A exigência era frutos, frutos, FRUTOS. Pelos frutos se conhece a árvore, não pelo rótulo do enxerto.

Quais são os frutos, pois, que se devem exigir e ver predominando na vida, antes e depois do batismo? João os define em Lucas 3. Três classes da humanidade lhe perguntaram a vida pressuposta no batismo, a transformação essencial: “Que devemos fazer?”

A. Do público em geral, ele exigia caridade e compaixão: “Aquele que tem duas túnicas, de uma ao que não a tem; e, aqueles que tem comida, faça o mesmo.” A vaidade e abundância de roupa de muitos crentes professos é um escândalo aos que tem o Sermão do Monte. Jóias em ostentação é outro inconveniente nos batizados. O Batista lhes proíbe a entrada no Jordão.

B. Dos publicanos, ricos protegidos pela polícia, o Precursor exigia: “Não cobreis mais do que vos está prescrito.” Honradez, preço fixo e razoável, nada de explorações comerciais pelos batizados, que de toda a humanidade devem ser os primeiros a ser homens de palavra, merecedores da confiança de todos. Mas hoje em dia se vêem até tesoureiros de igrejas que engolem as contribuições alheias e são eliminados ou “suspensos”, por uns dias, e voltam à comunhão da igreja sem devolvem o que roubaram. Uma prova do arrependimento é devolver o que se roubou. Mas nós vemos sucessores de Judas no ofício de Judas, que, no entanto, ficam menos envergonhados do que Judas que jogou o dinheiro da traição aos pés dos seus donos e foi e se enforcou. Um crente cuja palavra não vale ouro, cujas dívidas se amontoam, e cujos gastos cronicamente mais do que sua receita, é imoral demais para ser batizado ou permanecer numa igreja que se proclama corpo de Cristo.

C. Soldados também queriam batismo. João lhes exigiu: “A ninguém façais violência, nem deis denúncia falsa, e contentai-vos com vosso soldo.”

Eis os frutos: contentamento, veracidade, justiça, honradez nas finanças, compaixão e liberalidade. Sem estes frutos evidentes no caráter, o batismo é farça mentirosa. A disposição de assim é condição imprescindível do batismo.

4. Matriculados na escola de obediência. A grande Comissão coloca o batismo entre o começo do discipulado e a vida de obediência completa a Jesus Cristo. Fazei discípulos e então o batismo é a matrícula formal destes discípulos na escola de obediência em que Cristo é mestre. Há 489 mandamentos de Jesus nos Evangelhos e vários outros no resto do Novo Testamento. Nós aceitamos as obrigações perpétuas que Cristo define em todos os seus mandamentos. O batismo é nossa matrícula neste curso de obediência.

5. A madureza de filhos é outra idéia simbolizada no batismo. Os gálatas, sugestionados pelos judaizantes ultranacionalistas, queriam voltar para o cerimonialismo da Lei mosaica. Julgavam mister submeter-se ao rito carnal da circuncisão, ato pelo qual um estrangeiro se naturalizava e entrava em Israel como prosélito.

Paulo, com indignação candente, repudiou essa falsa doutrina, classificando-a de “outro evangelho”, ao qual ele anatematizou. Disse a esses espíritos vacilantes: “Pois todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus.” Portanto, cada crente, seja qual for sua raça ou nacionalidade, já é feito membro da família de Deus. E a evidência disto aí está no batismo que recebeu. “Porque tantos quantos fostes batizados em Cristo, vos revestiste de Cristo.”

A questão é a tutela que os judaizantes queriam impor sobre crentes gentios. Paulo afirma que os próprios judeus estiveram sob a tutela da Lei para serem preparados para Cristo. Sendo crentes, porém, já não são menores sob a tutela cerimonial. São filhos, tomaram seu lugar ao lado de Jesus Cristo, mediante a fé, como filhos na família de Deus; portanto, são livres.

Ora, o símbolo antigo, no Império Romano, de que um menino passara da tutela do escravo de seu pai para ser homem responsável, era a toga, sinal exterior de madureza. Paulo declara: Vosso batismo é este sinal. Sois filhos, homens feitos, livres da tutela, responsáveis. Não aceiteis essa nova tutela que agitadores querem impor sobre vós. O vosso batismo é a toga da vossa posição livre, varonil e responsável em Cristo. “Não pode haver judeu nem grego, não pode haver escravo nem livre, não pode haver homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus. Mas, se vós sois de Cristo, então sois semente de Abraão, herdeiros segundo a promessa.” E o símbolo desta unidade é o batismo (não a Ceia): o sinal de terdes entrado no gozo e na responsabilidade de vossa madureza espiritual, de vossa liberdade de filhos, é a toga de que vos vestistes, o batismo.

Esta madureza, é claro, é do espírito, não do corpo, e é o estado de qualquer crente, seja qual for sua idade. É madureza relativa, como é a do novo cidadão. Mas principiou no dia em que ele abandonou as vestimentas de um menor e revestiu a toga de sua maioridade. Dia memorável e de justo orgulho na memória de todo moço! Assim é a memória de seu batismo para o crente sincero e inteligente. Ele professou a anjos e homens de que era livre pela graça e responsável pelo amor e vivia em Jesus Cristo pela fé. Esta profissão pública do seu estado espiritual é o batismo.

6. Lavando-nos da corrupção carnal da velha vida (Heb. 10:22). O coração é purificado pela aplicação (aspersão) do sangue de Jesus pela obra e graça do Espírito Santo. Depois são “lavados os nossos corpos com água pura.” Esta lavagem simbólica do corpo é o batismo. Todo o homem físico é banhado de vez, em sinal da maneira total em que o sangue de Cristo nos purifica de todo pecado.

Idéia congênere se encontra em Col. 2:11,12. A circuncisão era o símbolo da regeneração da imundícia do velho homem. O incrédulo está ainda “na incircuncisão de sua carne”, espiritualmente “morto em seus delitos”. O batismo tem que representar o alívio dado por Cristo, que salva de ambas estas situações medonhas – a imundície e a morte.

A regeneração foi simbolizada pela circuncisão, removendo o prepúcio da carnalidade do velho homem. O batismo lava o homem regenerado figuradamente, como disse Ananias a Saulo: “Agora, por que te demoras? Levanta-te, recebe o batismo e lava os teus pecados, invocando o seu nome.” Paulo já fora salvo, quando viu Jesus em caminho para Damasco – salvo e escolhido como apóstolo de Deus. Mas a profissão pública de sua fé em Cristo, a lavagem cerimonial de sua vida dos restos da imundície que foram cortados pela regeneração anterior, isto restava a fazer, sob a direção de Ananias. Feito isto, Paulo foi iniciado na sua carreira pública de crente.

Dissemos que em Col. 2:11,12 o batismo tinha dupla mensagem. Não somente o emprego da água no banho cerimonial, depois da circuncisão espiritual operada pelo Espírito divino, tem sua significação. Mas o ato de batismo, se bem que banho, porque simbolicamente lava de vez o corpo todo é também sepultura e ressurreição, sendo o túmulo, por um momento, as águas do rio ou batistério. E Paulo não perde de vista esta outra significação que corresponde à figura do pecador estar “morto em seus delitos”. Cristo o ressuscita. E seu estado anterior de morte, a confissão deste fato no enterro simbólico e a declaração de que Cristo o levantará sobrenaturalmente para nova vida – tudo isto é também retratado no batismo. Regeneração é circuncisão nos termos do símbolo antigo. O circunciso precisava de lavagem subseqüente. É o batismo. Assim o duplo aspecto da obra de Cristo – dar pureza e dar vida – é simbolizado e professado. Mas o batismo não é apenas um banho. É um banho de certa forma. Um administra e outro recebe, passivo. Este é deitado nas águas e levantado e conduzido para fora. Esta fase do ato é quadro da transformação anterior que a graça divina operara, comparável a uma sepultura da velha vida e à ressurreição moral com uma vida perpetuamente nova a seguir. Tudo isto professamos com vontade no batismo. Oh! Que a profissão não seja oca e formal, mas que nosso espírito salte de gozo em manifestar a pureza e vida que Cristo nos outorgou na salvação.

7. O batismo é interrogação de uma boa consciência. Assim o apóstolo Pedro o declara em I Ped. 3:21.

O batismo é o primeiro ato público de um crente consciencioso. É o único ato especificado pelo Senhor Jesus na Grande Comissão, como foi o primeiro ato público do ministério de nosso Exemplo e Senhor. Sua consciência exigiu o batismo, porque não consentiu em negligênciar a conformidade absoluta com todos os mandamentos de Deus. Estabeleceu no batismo sua norma de vida. “Assim nos convém cumprir toda a justiça.” Daí em diante, sua comida e bebida foi fazer a vontade daquele que o enviara.

Agora, o apóstolo Pedro associa o batismo com a consciência. A consciência precisa ser boa antes de que o batismo lhe possa servir. E consciência se tornam boas pela paixão de Jesus Cristo, que nos purifica (Heb. 10:22). Mas, depois de regenerada, a consciência é ativa, investigadora e operosa. Seu propósito é santo e energético. E o batismo é sua formal “indagação”: “Que queres que eu faça, Senhor? Eis-me pronto para o deserto ou para a peregrinação, para o testemunho ou para a cruz.” Esta divina interrogação surge no espírito do crente. Quase sempre, graves tentações cercam o crente batizado como cercaram o Jesus batizado. Se vencer, terá a resposta à interrogação do seu batismo e Deus lhe mostrará o caminho e a vida de serviço.

É triste ouvir crentes falarem no dízimo como “o mínimo”, e vê-los ficar satisfeitos em escapar ao maior sacrifício, dando “o mínimo”. O espírito do nosso batismo é o máximo para Cristo. Busca uma interrogação viva, sempre investigando, observando, examinando, à luz da Palavra: “Que queres que eu faça, Senhor? Onde queres que eu vá? Que queres que eu diga em teu nome? Que queres que eu seja em teu serviço?” A esta abnegação, o batismo nos entrega comprometidos.

8. Separação da velha vida e santificação para Cristo é outra interpretação que os apóstolos deram ao ato. Há dois batismos figurados da velha dispensação que os apóstolos usaram para nos orientar pela comparação.

Um é o dilúvio, de que Pedro assim fala: “Quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se fabricava a arca, na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram através das águas. Esta água, figurando o batismo, agora vos salva, não a purificação da imundícia da carne, mas a questão a respeito de uma boa consciência para com Deus, pela ressurreição de Jesus Cristo.” (I Ped. 3:20,21).

Notai a negação categórica do poder de água para remover a imundícia carnal. A água do dilúvio não salvou a quem quer que seja, antes, pelo contrário, matou todos os antediluvianos que então viviam, como será sempre fatal a quem nela confia, desprezando a arca redentora de Deus, que é Jesus Cristo. Noé e seus filhos não foram salvos pela água, mas sim pela arca. A arca é tipo de Cristo e passou através das águas como Cristo e os que lhe obedecem passam através das águas no batismo. A única relação das águas com a salvação operada na arca foi que elas levantaram a arca na sua superfície e a mostraram a todos como a provisão divina de salvação. Assim, as águas do batismo elevam à vista o Cristo morto, sepultado e ressuscitado, a Arca divina em quem somos salvos. Mas nenhuma água jamais lavou corrupção moral.

Como, pois, é o dilúvio parecido com o batismo? É porque os batizados, abrigados em Cristo, passam da velha dispensação para a nova dispensação, através das águas que separam simbolicamente a velha da nova vida. O mundo velho que Deus aborreceu foi sepultado no dilúvio. A arca passou através das águas e conduziu seus salvos a novo mundo purificado e em nova época para um novo começo de vida. Assim o batismo. Quando atravessamos suas águas, deixamos – e sempre deixemos – para trás a velha vida. Fiquem sepultados no fundo do mar o velho homem e suas obras: “a fornicação, a impureza, a lascívia, a idolatria, a feitiçaria, as inimizades, as contendas, os ciúmes, as iras, as facções, as dissensões, os partidos, as invejas, as bebedices, as orgias e outras coisas semelhantes.” Nada disto se coaduna com a profissão cristã. É mil vezes melhor nunca ser batizado do que, sendo batizado, viver assim. Se tu desejas viver assim, pelo amor de Cristo, deixa de te chamar cristão e nunca tomes sobre ti a toga branca do nome de Cristo, pois será hipócrita e teu inferno te será mais infernal eternamente pelo sacrilégio de tua profissão.

Antes se levanta das águas batismais sempre um homem novo para andar em o amor cristão, o gozo, a paz, a longanimidade, a benignidade, a bondade, a fidelidade, a mansidão, a temperança. São estes os frutos do Espírito – e és batizado em nome do Espírito – e são estas coisas o gol para que o batismo nos chama e nos entrega comprometidos com votos soleníssimos perante Deus e os homens. O batismo é dilúvio para nos separar da velha vida. E seja seguido por novo mundo, com o arco-íris da promessa de uma dispensação espiritual em que nunca veremos outro dilúvio.

Li de um batizando que ao entrar nas águas tirou a carteira e ia dá-la a um dos espectadores para guardar. O pastor, disse: “Leva-a contigo. Deixa tua carteira também ser batizada e dedicar-se ao serviço de Cristo.” E assim se fez.

Eu às vezes digo ao meu povo que pastoreio que os crentes que vão ser batizados devem ser batizados com a boca aberta. Sejam batizadas suas línguas também. Somos novas criaturas. As línguas não devem ser velhas. Há tantas novas criaturas com línguas velhas, sujas de boatos, calúnias, imundícia, frivolidade e mentira e que tem apetites fortes para tais coisas abomináveis como outras línguas tem apetites de álcool ou pimenta. Que contradição de termos! Batizemos nossas línguas e saibamos que a velha língua foi sepultada e que novas criaturas tem novas línguas. Uma vez despertados e dedicados a novos impulsos do domínio da língua, teremos alcançado a metade da vitória. O resto será por preservar.

Isaías, antes de ser enviado a servir e testemunhar, sentiu o pecado de seus lábios e exclamou: “Ai de mim! Pois estou perdido; porque sendo eu homem de lábios impuros e habitando no meio de um povo de lábios impuros...” Mas era o povo santo de Deus! Que tristeza, um povo chamado e seu mensageiro chamado, mas este era homem de lábios impuros e representava um povo de lábios impuros! Só a brasa viva do altar – que nos fala da paixão redentora de Cristo – nos purificará sobrenatural desses lábios impuros, boca tortas, línguas falsas, caluniadoras, frívolas e pungentemente sarcástica. Se a paixão de Cristo nos purifica e constrange, seja o batismo nosso voto de sermos povo de lábios disciplinados, confortadores e fiéis.

Tomo a língua como exemplo. Mas sepultados o velho homem, são sepultados todos os seus membros. E o mesmo cap. 6 de Romanos, que chama o batismo a sepultura do velho homem, continua nos exortando: “Não reine, pois, o pecado no vosso corpo mortal, para obedecerdes a suas concupiscências, nem ofereçais os vossos membros ao pecado, como instrumentos de injustiças, mas oferecei-vos a Deus, como ressuscitados dentre os mortos, e vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça.”

O segundo batismo monumental da antiguidade foi a passagem do Mar Vermelho. Paulo diz: “Nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem e no mar e todos passaram pelo mar e todos em Moisés (seria melhor traduzido para Moisés) foram batizados na nuvem e no mar” (I Cor. 10:1,2).

O batismo é de Israel, e o povo é sepultado no conjunto da nuvem de luz celeste com as paredes de água parada. Neste vasto caixão de luz o povo é sepultado. Atrás e por cima, está a nuvem. À direita e à esquerda, o mar. Para a frente – Moisés. O povo é batizado para Moisés. São entregues para seguir e obedecer ao Libertador, Líder e Legislador. Para ele se separam, e do Egito o mar e a nuvem os separam e distanciam cada vez mais, para sempre.

Nós somos batizados para Cristo, o “outro Profeta” como Moisés, que Deus nos deu. O batismo é mar intransitável, simbolicamente distanciando o crente do mundo e seus gostos e entregando-o para Cristo e a peregrinação para a terra da Promissão. “Tudo, ó Cristo, te entrego” é a consagração do batizado. Batismo é para nosso Libertador e Guia.

Não somos de nós mesmos. Fomos batizados no nome de Cristo e lhe ficamos pertencendo. Nossa franca confissão é:

Não sou meu! Por Cristo salvo,

Que por mim morreu na cruz.

Eu confesso alegremente

Que pertenço ao bom Jesus.

Não sou meu, oh! Não sou meu!

Bom Jesus, sou todo teu!

Hoje mesmo e para sempre,

Bom Jesus, sou todo teu!

Não sou meu, por Cristo salvo!

Pois seu sangue derramou,

E da pena do pecado

A minha alma resgatou.

Não sou meu! A ti confio

Tudo quanto chamo meu;

Tudo em tuas mãos entrego,

Pois, Senhor, sou todo teu.

Não sou meu! Oh! santifica

Tudo quanto sou, Senhor;

Da vaidade e da soberba

Livra-me, meu Salvador!

 

Autor: Dr William Carey Taylor
Fonte: www.palavraprudente.com.br

Digitação: Daniela Cristina Caetano Pereira dos Santos - 23/08/05

Revisão: Luis Antonio dos Santos - 24/08/05