Diferenças Doutrinarias entre Batistas e Presbiterianos - IV

Dr. W. C. Taylor

As diferenças entre presbiterianos e batistas são muito mais e maiores do que o prof. Oliveira indica. Iremos analisar algumas:

(C) Quando o ministro presbiteriano prega a um ouvinte que busca a salvação, não tendo os compromissos eclesiásticos do batismo infantil protestante, ele prega um Evangelho ótimo. Muitos dos pregadores mais claros, poderosos e espirituais do puro Evangelho, AO PUBLICO dos seus auditórios e aos pecadores que os procuram particularmente, são ministros presbiterianos. E graças a Deus, inúmeros de seus ouvintes, embora arrolados na lista das vitimas do batismo infantil, até este tempo, ouvem seus pastores pregar a outros pecadores e se convertem e ficam na igreja calvinista, crentes salvos mas desobedientes—sem jamais obedecer a Cristo no batismo e entrar numa igreja bíblica. Os dois erros do presbiterianismo que já discutimos põem em perigo a salvação de almas e a pureza essencial do cristianismo. Ainda há vários erros que influem na vida dos salvos, como na dos enganados e do mundo e da civilização, e, embora menos sérios, são um grave desvio da norma apostólica encontrada no Novo Testamento.

Por exemplo, na doutrina presbiteriana da igreja, há bastante confusão e sérios erros. O Novo Testamento emprega o termo igreja em dois sentidos cristãos: (1) Uma congregação autônoma de crentes biblicamente batizados e organizados democraticamente, pela escolha de seus próprios pastores (=bispos=presbíteros) e diáconos, para governar-se a si mesma sob a autoridade de Cristo revelada no ensino apostólico que temos no Novo Testamento. É o único sentido em que o termo se usa no N.T. a respeito de uma organização cristã. (O termo era comum no judaísmo e no paganismo para descrever qualquer assembléia, que é a sua idéia fundamental e inalienável, mas notai dois fatos: (a) Nunca percamos de vista esta natureza congregacional, quer seja uma assembléia nacional dos Judeus ou uma assembléia dos cidadãos de uma cidade grega; (b) Não há mais razão de falar da “Igreja de Israel” do que a “igreja” pagã que se reuniu no teatro de Éfeso, clamando “Grande é Diana dos Efésios”. Ambas eram assembléias, mas não igrejas, no sentido que este termo tem adquirido nas traduções do Novo Testamento). (2) O outro sentido, em poucas passagens do N.T., é a totalidade dos crentes em Cristo, considerados sob a figura de uma congregação do Senhor, e destinada, de fato, a congregar-se no céu na presença de Jesus Cristo. “Reino”, “rebanho”, “igreja”, “exercito”, “casa”, “Israel de Deus”, “família”, “Noiva”, “templo”, “sacerdócio”, “povo” e outros termos se usam figuradamente a respeito do povo redimido por Cristo. Neste uso figurado, não vingam os característicos exteriores de “reino”, “casa”, “rebanho”, “exercito”, “Israel”, “família”, “noiva”, “templo”, “sacerdócio”, “povo”, ou “igreja”. O “reino” de Deus nada tem da pompa, burocracia, politicagem e complexa organização monárquica de um “reino” secular, mas apenas representa a soberania espiritual de Cristo em todos os corações redimidos. O “sacerdócio santo” nada tem de paramentos, sacrifícios sobre altares etc., etc. mas é a vida de intercessão, serviço e altruísmo a que todo o povo de Cristo é chamado. Assim com os demais termos. No sentido figurado e espiritual, a “igreja geral” de Deus não é nenhuma organização eclesiástica, nem se confunde com qualquer grei eclesiástica, nem é composta de todas elas ou de qualquer grupo delas. A “igreja dos primogênitos” significa os regenerados, absolutamente independente de considerações de sacramentos, concílios, clero, organização e quejandos. Todos os salvos formam esta igreja, alguns católicos, muitos protestantes, muitos batistas e outros como o malfeitor convertido no Calvário – alma nua, lavada pelo sangue de Cristo, mas sem praticar rito algum ou pertencer a nenhuma organização religiosa. Há milhões que foram “batizados” (?) na infância e ficam arrolados numa grei eclesiástica qualquer, mas não pertencem á “igreja geral” a despeito de ser arrolados numa organização eclesiástica, quer seja bíblica ou anti-bíblica. Organizações não salvam. E há muitos – só Deus sabe quais – que não pertencem ás igrejas da terá, mas farão parte da igreja gloriosa que se congregará na presença de Jesus. Igrejas bíblicas são organizações. Nelas podem entrar um Judas, um Ananias, uma Safira, um Simão Mago, um Demas, um hipócrita qualquer, ou um incrédulo sinceramente iludido. Mas a “igreja geral” não é organização, não depende do falível juízo humano, mas é a comunhão dos santos, agregados espiritualmente a Jesus Cristo pela fé.

É um erro terrível confundir o reino de Cristo e a organização eclesiástica. “S.” Agostinho cometeu este erro colossal, esta mais grave das heresias. Lutero era frade de ordem Agostinha e nunca largou esta confusão herética. E Calvino era adepto do mesmo “Santo” e sua teocracia em Genebra confundiu pavorosamente o reino de Deus e a autoridade eclesiástico-civil, concepção para sempre manchada com o sangue rubro de Miguel Serveto.

Os batistas seguem o Novo Testamento em usar o termo igreja nestes dois sentidos apostólicos sem jamais confundir o sentido formal com o sentido figurado, a organização com a comunhão.

Passando agora a examinar a natureza das organizações apostólicas chamadas igrejas, notemos a fidelidade dos batistas a esta norma apostólica. Se o apostolo Paulo voltasse á terra agora, ele acharia na vida batista precisamente os características da vida das igrejas apostólicas. Seus membros todos professam a fé pessoalmente. A regra é exigir membros regenerados, como no primeiro século. Todos os membros são “sepultados pelo batismo” e “ressuscitados”, em santo símbolo, pelo mesmo rito, preservado na sua pureza apostólica – forma e espírito. Não há nenhuma igreja nacional, no sentido geográfico – organização coextensiva com o território nacional. Não ah sínodos ou concílios superiores para assenhorear as igrejas e subjugá-las a uma oligarquia eclesiástica que seja tribunal supremo sobre todas elas. O único presbitério apoiado por Paulo, ou pelos batistas, é uma reunião de pastores para consagrar novo pastor – não uma oligarquia sobre as igrejas para usurpar delas os direitos e funções bíblicas. A Ceia é ato de cada uma igreja bíblica (I Cor. XI). Os diáconos são eleitos pela “comunidade dos discípulos”, congregada para isto por seu ministério, como em Atos VI. Na escolha de pastores, vota-se por levantar a mão direita, como é a significação do verbo grego na descrição da escolha de presbíteros (=bispos=pastores) nas igrejas onde Paulo ensinou e presidiu este dever do povo, nas novéis igrejas por ele fundadas. Nas igrejas batistas, a disciplina é feita como Jesus mandou. Se esforços particulares ou de grupos não conseguem harmonizar os ofendidos ou ganhar o desviado, obedecemos ao mandamento de Cristo: “dize-o á igreja”. E a igreja – não uma pequena oligarquia nela – exerce a disciplina ou a eliminação do indigno. Isto é feito pelo voto da maioria, como no caso de disciplina em Corinto, (II Cor. 2:5).

As igrejas presbiterianas não têm autonomia, nem são parecidos com as igrejas apostólicas em batismo, organização, ministério, disciplina, funções, escolha democrática de oficiais, conferencias livres entre duas igrejas como a entre as de Antioquia e Jerusalém descrita em Atos XV, presbitérios unicamente para consagrar – nunca para açambarcar absolutismo – etc., etc. Elas venderam sua primogenitura a organizações desconhecidas ao Novo Testamento – sínodos e concílios que são uma serie de tribunais desconhecidas á Bíblia. Perderam a autonomia local e inventaram uma igreja nacional, coisa radicalmente contraria ao espírito e ensino do Novo Testamento.

Os batistas repudiam o sistema eclesiástico do presbiterianismo ao mesmo tempo que reconhecem fraternalmente a salvação de qualquer crente presbiteriano. Sua salvação é de Cristo e tem, para nós, infinito valor. Sua organização eclesiástica é de João Calvino, mera relíquia do gênio organizador de um homem, que não tem valor algum sobre a consciência cristã e não pode fazer caducar a norma apostólica que nos é obrigatória. Obedecer a Deus ou aos homens, no terreno de muitos mandamentos de Jesus Cristo e seus apóstolos – é o que envolve a escolha entre ser batista ou presbiteriano.

Observação do Pr Calvin:

Peço-lhes licença, pois não concordo do uso "geral" que o ilustre Dr Taylor dá à palavra "igreja". Para explicar qual razão discordo, permite-me que o Dr Anibal Pereira dos Reis explica no mesmo estilo do Dr Taylor.

Ao pronunciar a palavra IGREJA sinto-me no intransferível dever de levantar uma observação. Seu realce mais do que nunca hoje se faz mister. É a seguinte: Em mais da metade das vezes em que se encontra esse vocábulo no Novo Testamento ele está no plural: IGREJAS, certamente para destacar, salientar, frisar, sublinhar a natureza congregacional e local da Igreja.

Infelizmente alguns termos gregos, ao ser traduzido o Novo Testamento, foram simplesmente transliterados. Por imposição de facções interessadas em sua postura de engano, esses termos não foram vertidos. Um deles é IGREJA. Sua tradução seria, ou melhor, é: assembléia, congregação, agrupamento, agremiação, ajuntamento ou reunião, grupo ou conjunto de indivíduos. Associação de pessoas para determinado fim.

Por conseguinte, na qualidade ou condição de ASSEMBLÉIA (que implica em todos os sinônimos acima enfileirados), a Igreja só pode ser CONGREGACIONAL. Em conseqüência, as Igrejas soa autônomas, independentes entre si. Espiritualmente democráticas.

Portanto igreja católica, ou seja, universal, no sentido que o romanismo quer, é uma anomalia. Uma aberração etimológica e doutrinária. O mesmo se diga da igreja nacional ou regional. É outrossim uma aberração e uma anomalia sinonimizar-se igreja com denominação evangélica: a igreja metodista, a igreja presbiteriana, a igreja batista.

O que? Não nego! Está lá! Nas Escrituras do Novo Testamento há o vocábulo IGREJA no singular. Todavia não no sentido de uma igreja universal que abrange ou abarca todos os crentes em Jesus Cristo de todas as denominações evangélicas e todos os crentes desligados de qualquer uma delas.

Igreja no singular como é consignada em certas passagens do Novo Testamento tem o sentido genérico. É para designar a instituição, sem querer favorecer a idéia de uma igreja universal invisível. Igreja universal invisível como se fosse a soma de todas as igrejas de todas as denominações ou a totalidade de todos os salvos pertencentes às igrejas de todas as denominações ou fora de qualquer igreja.

Esta noção de uma igreja universal invisível é por completo alheia do Novo Testamento.

Embora corra risco de me tornar repetitivo, insisto: quando no Novo Testamento surge o vocábulo singular IGREJA é tomado ou entendido no sentido de instituição. É o caso! Quando eu digo: a FAMÍLIA refiro-me à instituição familiar sem imaginar uma família universal, uma familiona do tamanho de todo o mundo visível e invisível.

E há mais! E isso ocorre com muitas palavras nas próprias Escrituras. Por exemplo, com o termo Batismo. Às vezes são tomadas em sentido figurado. Figuradamente o batismo pode ser tomado como batismo em fogo, em dores, em sofrimento. A própria expressão Batismo no Espírito Santo é a adoração do vocábulo em sentido figurado.

Fato igual se dá com a palavra IGREJA. No singular, em sentido geral, pode ser simbolizada na acepção da comunidade ou congregação de todos os salvos e não no sentido de uma organização.

Querem saber mais? Também lá no Céu a Igreja é Congregacional. LOCAL. Com efeito, se o Céu é um estado, também é um lugar (Jo. 14.2). Por conseguinte, também lá no Céu a Igreja será a assembléia, a congregação total, completa, dos salvos. E só desfruirão desse galardão de participar dela, os salvos que aqui na terra foram membros de uma legitima Igreja Local. Os outros, embora gozem da visão beatífica, serão privados desse prêmio. (Do livro: "Ceia do Senhor: Livre ou Restrita?")

 

Autor: Dr William Carey Taylor
Digitação: David C. Gardner 11/2008
Fonte: www.palavraprudente.com.br