Fundamentalista": Ser ou Não Ser? Eis uma boa questão!

Gilson Santos

Fundamentalista": Ser ou Não Ser? Eis uma boa questão!

Desde o último século, e particularmente nas últimas décadas, em nossa cultura abrasiva, uma das piores coisas que se pode dizer de alguém é que ele é um “fundamentalista”. Este título adquiriu forte apelo pejorativo e grosseiro. Algo bem próximo ao “louco”, “fanático”, “obtuso”, “radical” e “fariseu”. Um “fundamentalista” é um ser “perigoso”, digno de uma camisa-de-força.

Num cenário já bastante cheio de fantasmas, vemos crescer também o medo do “fundamentalismo”. Para alguns, um “fundamentalista” é alguém obscurantista e anti-intelectual, que desconfia das descobertas científicas e de seu valor, e isolacionista e pessimista quanto ao mundo e ao homem. No caso ocidental, ele não se envolve em questões sociais e políticas, e quando se envolve, é “direitista” ou “pró-imperialista”. No geral, o “fundamentalismo” é visto como um movimento reacionário, movido pelo medo de extinção de si mesmo, antiquado e retrógrado. Os “fundamentalistas” são criticados como totalitaristas, pessoas que desejam impor suas idéias e sua visão de igreja e de mundo à força, por todos os meios possíveis. Como alguém tem escrito: “Aqueles que acreditam nos fundamentos da fé estão, como parece que presumimos, vivendo no passado, são hostis ao presente, incapazes de tolerância, veementes em sua condenação aos não-religiosos, e capazes de violência”.(1)

O apelido "fundamentalismo" pode, entretanto, presumir um pouco mais. Para alguns que recorrem a esta peja, os fundamentos da fé são perigosos – ainda que a religião se torne perigosa exatamente ao nos esquecermos de seus fundamentos. "Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?" Há uma forte versão do liberalismo que afirma que a única maneira de criar uma sociedade livre é por meio da dúvida. Como não estamos certos, não devemos impor nossas certezas sobre os outros. Como podemos estar errados, damos às pessoas espaço para discordarem. “Se nossas convicções são apenas relativamente válidas, por que defendê-las sem vacilar?“, indagou recentemente um conhecido escritor. Isto acabou por gerar indiferença para com a verdade. O apologista católico Gilbert Keith Chesterton (1874-1936) disse que “tolerância é a virtude de um homem sem convicções”. Neste contexto, é fácil entender o atual “pluralismo teológico”, que anda junto com relativismo e “tolerância”.

John Petrov Plamenatz (1912-1975), filósofo e professor de Teoria Política em Oxford, escrevendo em 1963, enfatizou que a moderna doutrina da liberdade nasceu no século XVII, numa época de crenças religiosas fortes e conflitantes. "A liberdade de consciência" – escreveu ele – "nasceu não da indiferença, não do ceticismo, não do mero liberalismo, mas da fé." “Por quê? Porque as pessoas que se preocupavam muito com suas próprias convicções religiosas terminaram por perceber que outras, que tinham convicções diferentes, também se preocupavam com as suas próprias. Se eu alego ter o direito de praticar minha fé com liberdade, posso negar o seu direito? Foi assim que nasceu o liberalismo europeu, não através do relativismo, mas na crença religiosa de que Deus não deseja que imponhamos nossa fé aos outros pela força”.(2)

O Dr. Augustus Nicodemus, em um dos seus bons textos, lembra que “determinados termos, dentro do Cristianismo, acabam por perder seu sentido original e adquirir uma conotação pejorativa. Não poucas vezes, estes termos pejorativos são usados irresponsavelmente para rotular adversários políticos e eclesiásticos, e com generalizações injustas.” E ele conclui com notável propriedade: “Se pudermos, devemos sempre ajudar a esclarecer o que o termo significa”.

O nome "fundamentalismo" foi cunhado no início do século XX, em referência ao abrangente segmento de todas as denominações evangélicas históricas, que se coligou para defender a fé cristã da intrusão do “liberalismo teológico” nos seus seminários e igrejas. O nome foi usado por três motivos. “Primeiro, os conservadores insistiam que o liberalismo atacava determinadas doutrinas bíblicas que eram fundamentais ao Cristianismo e que, ao negá-las, transformava o cristianismo em outra religião, diferente do Cristianismo bíblico. Segundo, a publicação em 1910-1915 da série Os Fundamentos, 12 volumes de artigos escritos por conservadores onde defendiam os pontos fundamentais do Cristianismo e atacavam o modernismo, a teoria da evolução, etc., dos quais foram publicadas 3 milhões de cópias e espalhadas pelos Estados Unidos. Há artigos de eruditos conservadores como J. G. Machen, John Murray, B. B. Warfield, R. A. Torrey, Campbell Morgan e outros. E terceiro, a elaboração de uma lista dos pontos considerados fundamentais do Cristianismo”. Muito embora o conflito entre liberais e fundamentalistas envolvesse muito mais do que somente estes pontos, os mesmos foram considerados na época pelos conservadores como os pontos fundamentais da fé e do Cristianismo evangélico, tendo se tornado o slogan dos conservadores e a bandeira do movimento fundamentalista: 1. A inspiração da Escrituras – infalibilidade e inerrância – reagindo contra os ataques do liberalismo que considerava que a Bíblia estava cheia de erros de todos os tipos. 2. A divindade de Cristo – também negada pelos liberais, que insistiam que Jesus era apenas um homem divinizado. 3. O nascimento virginal de Cristo e os milagres – para o liberalismo, milagres nunca existiram, eram construções mitológicas da Igreja primitiva. 4. O sacrifício propiciatório de Cristo – para os liberais, Cristo havia morrido somente para dar o exemplo, nunca pelos pecados de ninguém. 5. A ressurreição literal e física de Cristo e seu retorno – ambas doutrinas eram negadas pelos liberais, que as consideravam como invenção mitológica da mente criativa dos primeiros cristãos.

Em 1920, o termo "fundamentalistas" foi empregado por conservadores batistas para designar todos aqueles que lutassem em favor daqueles cinco pontos. O uso se espalhou amplamente, passando a designar os crentes em todas as denominações afetadas pelo liberalismo que lutavam para preservar estas doutrinas fundamentais do cristianismo, e que se alinhavam teologicamente com o conteúdo da obra Os Fundamentos. Aos poucos, o nome "fundamentalista" adquiriu a delimitação mais específica, referindo-se ao cristão conservador separatista que integrava a maioria dentro das denominações ao sul dos Estados Unidos; era, igualmente, atribuído aos que haviam saído de suas denominações, formando outras de caráter eminentemente fundamentalista.Algumas lamentáveis tendências, que tomaram conta de alguns “fundamentalistas” posteriores, favoreceram a que o termo “fundamentalista” passasse a ter conotação de intransigência, divisionismo, intolerância, anti-intelectualismo, e falta de preocupação com problemas sociais. Em um dos seus livros, Os Guinness demonstra como o anti-intelectualismo fundamentalista norte-americano está em diametral oposição ao que ele chama de “mentalidade puritana”, melhor exemplificada em Jonathan Edwards, e que moldou os primeiros anos de formação dos EUA.

Por um reducionismo, o premilenismo dispensacional veio a ser conhecido como sinônimo de fundamentalismo. Este sistema foi desenvolvido no século XIX através do ensino de Edward Irving (Igreja Presbiteriana da Escócia), John Nelson Darby (anglicano) e os Irmãos de Plymouth. Essa teologia tem sido promovida por uma variedade de mestres e pregadores populares. O Seminário Teológico de Dallas e as notas da Scofield Reference Bible (Bíblia de Scofield com Referências) têm feito mais para espalhar essa doutrina do que quaisquer outras fontes. Esta posição concorda com o premilenismo histórico em muitos pontos, mas tem algumas áreas de diferenças importantes. Os premilenistas dispensacionais asseveram que só eles mantêm uma interpretação rigidamente literal da Bíblia. Por causa disso, têm eles uma tendência forte de acusar teólogos que afirmam outros sistemas escatológicos de “espiritualizarem” as Escrituras. Assim, algumas denominações, influenciadas pelo dispensacionalismo, excluem amilenistas e pós-milenistas do ministério. A influência da Bíblia Anotada, de C. I. Scofield, teve uma decisiva influência na associação do dispensacionalismo como sinônimo de fundamentalismo.

Naturalmente, as críticas feitas aos fundamentalistas refletem os posicionamentos teológicos e éticos dos que as fazem. Os cristãos evangélicos reformados e conservadores, se forem atentos, perceberão que muitas das críticas feitas aos fundamentalistas, não passam, na verdade, de ataques ao Cristianismo histórico e bíblico defendido por eles.

No Brasil, de modo crescente, a peja “fundamentalista” é usada de forma vaga, em generalizações emocionais, injustas e maldosas, sem que se faça distinções importantes, e sem que se explique o que se quer dizer por “fundamentalista”. Sua utilização intenciona apenas denegrir, rotular e marcar de forma negativa. Funciona como um mero insulto, não servindo mais como designação da posição teológica de alguém.______

1. Cf. www.chabad.org.br/biblioteca/artigos/fundamentalismo/home.html/2. Cf. John Plamenatz, "Liberty of Conscience", Vol. 1 in: Man and Society: Political and Social Theories from Machiavelli to Marx, 2 Vols. London: Longman, 1963, xxii + 455 e xxii + 472 p. Vol 1: Man and Society: Political and Social Theory, Machiavelli through Rousseau. Vol 2: Man and Society: Political and Social Theory, Bentham through Marx.

Extraído de: Ex Corde Gilson Santos